Uma situação banal que ficou conhecida como “o caso da moça do avião” e que gerou uma viralização absurda sendo notícia em toda mídia e principalmente nas redes sociais, trouxe uma lição prestimosa cuja protagonista, Jeniffer, ficará no imaginário popular ainda por algum tempo. Acredito que essa situação será exemplo nos mais diversos cursos que abordam o comportamento humano diante de situações de conflito, isto porque, a leitura correta a ser feita desse episódio e que está em primeiro plano diz respeito ao que conhecemos como Inteligência Emocional. Sim, Jeniffer nos deu uma aula de refinada elegância e controle emocional. Vejamos:
Quando os primeiros vídeos da situação subiram para as principais redes sociais e começaram a viralizar, quais foram os primeiros comentários e impressões que as pessoas estavam percebendo? Os primeiros comentários foram maciçamente elogiando a reação de Jennifer diante de uma situação absurdamente agressiva e intimidatória protagonizada por uma passageira que a estava filmando, enquanto outras pessoas que compraram um imbróglio que não lhes dizia respeito lhe dirigiam grosserias. Numa hipótese que ela partisse para o revide certamente a situação se complicaria e as comissárias de bordo teriam que intervir. No entanto, Jeniffer manteve o sangue frio, inabalável e foi justamente isso que incomodou algumas pessoas.
Nas relações de trabalho e interpessoais do dia a dia, situações de conflito surgem por minuto, seja num prazo apertado para execução de tarefas e projetos, seja por pressão de gerentes e supervisores, estes, aliás, suportam pressão praticamente o tempo todo. Então, como as pessoas lidam com as mais diversas situações de conflito no ambiente de trabalho? Lembrando que situações de conflito ocorrem também fora do ambiente de trabalho a todo instante como foi o caso envolvendo a Jeniffer assim inesperadamente, do nada que envolveu um menino birrento e um acento na janela.
Temos que estar preparados para situações de conflito, é preciso utilizar nessas horas doses maciças de resiliência, ter presença de espírito, equilíbrio, sangue frio, ser estoico e sobretudo possuir Inteligência Emocional. Não devemos revidar de maneira grosseira ou agressiva e como diz a sabedoria popular, “não tocar tambor para maluco dançar”.
Quanto à questão de Jeniffer não ter cedido o acento, é assunto de segundo plano, isto porque desde que surgiram os transportes de passageiros, seja em ônibus, balsas, trens, metrôs e aviões, atritos por causa de acentos, bagagens, bolsas, malas, esbarrões entre outros mais sempre ocorreram, o episódio da Jennifer não foi o primeiro e nem será o último.
Por uma coincidência, recentemente publiquei um artigo neste blog discorrendo sobre a lei nº 4 (FALE APENAS O NECESSÁRIO), do livro "As 48 Leis do Poder", do escritor Robert Greene. Mesmo que Jeniffer não tenha lido esse livro, ela aplicou essa lei com muita eficácia. Ainda que ela não tenha conhecimento da filosofia estoica, ela se portou estoicamente diante da situação na qual foi envolvida. Ela nos entregou lições prestimosas de civilidade, educação, elegância e um incrível controle emocional. Não tenho dúvida alguma que ela seja uma excelente profissional em seu trabalho. Ela foi gigante e pavimentou um caminho de sucesso em sua vida fazendo de um limão uma saborosa limonada.
Entretanto, nem tudo são flores, pois esse episódio também nos passou algo sombrio e perigoso, isto porque queiramos ou não, podemos ser protagonistas de um reality show o qual não pedimos para participar, basta um celular nas mãos de pessoas irresponsáveis, rastaqueras deslumbradas e nossos rostos estarão expostos instantaneamente. Seremos a notícia do dia da maneira mais cruel possível em todas as mídias, em todas as redes sociais e viralizaremos pela web, pelo mundo. Vai ver, já estamos e nem ainda saibamos disso porque nas mãos de gente irresponsável o celular chega a tremer.
O filme “A Livraria” de 2017 é a adaptação para o cinema do livro de mesmo nome escrito em 1978 pela premiada romancista e poetisa inglesa Penélope Fitzgerald (1916-2000). Ambientado no ano de 1959, o roteiro adaptado é dirigido pela cineasta espanhola Isabel Coixet. Narra a história de uma viúva (Florence Green) de meia idade que se muda para Suffolk, uma pacata cidade litorânea do leste da Inglaterra para abrir uma livraria na sala de casa onde ela reside. O filme teve treze indicações de prêmios. A diretora Isabel Coixet levou o Prêmio Goya espanhol em três categorias: melhor filme, melhor direção e melhor roteiro adaptado.
Os obstáculos começam com a resistência que Florence encontra em obter o alvará para o funcionamento da livraria. A casa alugada por Florence era objeto de cobiça pela senhora Violet Gamart, uma figura maligna, poderosa e rica com muita influência política na pequena cidade na qual ela mandava e desmandava, bastava estalar os dedos. Violet obviamente não gostou da forasteira Florence muito menos da ideia da livraria.
Na pequena cidade de Suffolk os habitantes não eram muito afeitos aos livros com exceção do senhor Edmund Brundish, o único leitor voraz na cidade e que será um dos principais clientes e se tornará amigo de Florence. Outra figura de destaque (para mim depois de Florence, a principal!) na trama é a garotinha Christine que trabalhará meio período na livraria por algum tempo e também estabelecerá uma afetuosa amizade com Florence. Christine não gosta de livros, mesmo assim Florence lhe dá um livro de presente e o deixa na estante para quando Christine se interessar por ele.
A livraria até que prospera bem, o senhor Brundish é cliente assíduo, embora seja um homem recluso e nunca vai pessoalmente à livraria. Florence lhe envia todos os lançamentos pelo correio. No entanto os habitantes da cidade nunca perdem a oportunidade de hostilizar Florence quando a encontram pela rua. A sua resposta é sempre um sorriso, Florence nunca se abala com as provocações que lhe fazem o que irrita mais ainda os provocadores. Florence é uma forte personagem estoica.
Christine é proibida pela fiscalização de continuar ajudando na livraria e Florence confia então para substituir a garotinha o senhor Milo que se oferece para o trabalho, se faz de amigo num primeiro momento, mas se revelará um canalha traidor, pois é pau mandado da senhora Violet e denunciará Florence para a fiscalização.
Após a denúncia feita pelo Sr. Milo, Florence é notificada que será despejada do local. Naturalmente que tudo isso tem por trás a influência maligna e política da senhora Violet. Florence então recorre ao seu amigo, o senhor Edmund Brundish que, antigo morador da cidade, vai interceder a favor de Florence tendo uma conversa com a senhora Violet.
A conversa entre o senhor Brundish e a senhora Violet não surte efeito algum, ela o humilha sem dó nem piedade e na volta para casa, Brundish, abalado sofre um infarto fulminante. Não há mais nada a fazer, Florence tem que desocupar o imóvel sem qualquer indenização e deixar a cidade. Ela encaixota os livros, seus pertences e faz as malas. Ela deixa na estante vazia o livro que ela deu de presente para a garotinha Christine.
Uma balsa espera Florence no cais. Ela adentra na balsa que se afasta e desliza lentamente pelas águas deixando a cidade. Christine aparece correndo e abana as mãos se despedindo de Florence. Christine segura firme na outra mão o livro que Florence lhe deu de presente, antes ela esteve na livraria já vazia e pegou o livro que lá estava a sua espera.
A história toda desde o início é narrada “in off” por uma voz feminina. Trata-se de Christine que muitos anos depois já adulta, montou a sua própria livraria, uma linda livraria diga-se de passagem.
Quais as lições estoicas que tiramos dessa bela história?
Sabemos que os quatro pilares das virtudes cardinais estoicas são: Coragem, Sabedoria, Justiça e Temperança. Florence Green revelou uma coragem impressionante para enfrentar a hostilidade de Violet e os habitantes de Suffolk. Num diálogo inesquecível com o Sr. Brundish ele a elogia e a admira pela sua coragem, coragem essa que nenhum habitante da cidade ousaria ter. Além de sua coragem, a serenidade inabalável com que enfrentou a situação nos passa até mesmo uma sensação de desconforto. Muitos que assistiram o filme criticaram a personagem de Florence por essa postura serena ou não reativa. E aí encontramos os ensinamentos dos filósofos estoicos Sêneca e Epicteto: "concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode" Ou então de Marco Aurélio: "Apenas faça a coisa certa, o resto não importa". Florence fez a coisa certa e de acordo com um princípio estoico denominado Analogia do Arqueiro: "podemos aceitar o resultado porque fizemos nosso melhor, se o resultado não é satisfatório, devemos aceitá-lo facilmente e dizer, bem, eu fiz o meu melhor”. Florence deu o melhor que ela pode, ela plantou uma semente e deixou um legado que fez a diferença para uma pessoa, no caso, a garotinha Christine.
Além disso:
O filme tem mais força do que o livro, pois a belíssima e magistral fotografia confere à trama uma carga dramática fabulosa que ajuda a compreender a psicologia de cada personagem.
O filme é permeado por muitos simbolismos entre eles, os livros que aparecem durante a trama, como por exemplo, o famoso best-seller "Fahrenheit 451, de Ray Bradbury que conta a estória de um bombeiro cuja função é queimar livros.
Os atores protagonistas, Emily Mortimer (Florence Green), Honor Kneafsey (Christine), Bill Nighy (Edmund Brundish), Patricia Clarkson (Violet Gamart) e James Lance (Milo Noth) têm performances espetaculares e dão um show de interpretação.
E por fim, para os amantes e apaixonados por livros trata-se de um filme imperdível e obrigatório, na verdade os livros também são protagonistas e viram alvos de ataque por pessoas ignorantes e incultas. E a bela resposta para isso é uma frase proferida por Florence Green e depois repetida no desfecho do filme por Christine:
"Os seres humanos foram feitos uns para os outros: ou os ensine, ou os suporte" (Marco Aurélio-Meditações VIII, 59)
Existem diversos tipos de liderança, cada líder escolhe um modelo que mais se adequa a sua personalidade e também de acordo com a situação que tem pela frente. O policial Lukas, praticamente o protagonista do filme “Um Dia e Meio”, dá um show de liderança com seu estilo calmo e tranquilo de conduzir a situação que chega até a ser incômodo e perturbador. Vamos ao filme, que, diga-se de passagem, ficou em 1º lugar entre os top 10 lançados pela plataforma Netflix.
“Um Dia e Meio” é um filme do gênero policial/suspense/psicológico. O roteiro e direção são do próprio e premiadíssimo ator e diretor sueco/libanês Fares Fares que interpreta com grande estilo o papel do policial Lukas. Fares escreveu o roteiro baseado em um fato real ao ler no jornal uma notícia na seção policial: um homem armado chamado Artan após sair da cadeia invade o consultório médico de sua ex-esposa, a médica Louise, para que ela lhe entregue a filha, pois ela detém a guarda da criança. Só que a criança está na casa dos pais dela, então Artan, a ameaça e a obriga a levá-lo até a casa dos pais. Há um tumulto na clínica, a polícia é acionada. Lukas é o policial que vai atender a ocorrência.
O policial Lukas parece um personagem saído dos livros do escritor britânico Joseph Conrad, quem está habituado a ler Conrad perceberá esse detalhe. De início já vemos que se trata de um policial experiente, de uma calma inabalável, de olhar penetrante, sua presença passa confiança e credibilidade, sua fala é tranquila, porém firme, jamais ergue a voz. Ele vai atender todas as exigências de Artan. "Todas"! (será mesmo? hum, sei não!) A primeira exigência é um carro para sair da clínica e ir até a casa dos ex-sogros onde está sua filha Cassandra. Lukas é quem vai dirigir, Artan e Louise vão no banco de trás. Artan tem a arma apontada o tempo todo para a cabeça de Louise. Qualquer deslize, Artan diz que mata Louise e se mata logo em seguida.
Durante o trajeto pela estrada, Artan discute o tempo todo com Louisie. Descobre-se que Louise não é tão certinha assim, parece uma pessoa histérica e bastante descontrolada. Artan, por sua vez não nos parece ser esse monstro sequestrador. Artan foi preso injustamente, pegou três anos de cadeia por uma mentira contada pelos pais de Louise que eram preconceituosos xenófobos e contra o casamento dos dois. Artan é de origem árabe e a família de Louisie é sueca. Louise não tinha bom relacionamento com os pais, teve depressão pós-parto e vivi a base de remédios. Lukas só escuta e os fita pelo retrovisor, sempre calmo e tranquilo, é de poucas palavras.
O momento de maior tensão é justamente na casa dos sogros quando Artan quer ver e levar a sua filha. Muita roupa suja é lavada e o sogro de Artan confessa que mentiu só para vê-lo em cana. O sogro não admite que a menina seja levada e pega uma espingarda para ameaçar Artan. E aqui o policial Lukas interfere, consegue deter e desarmar o sogro de Artan. Artan e Lousie conseguem levar a menina.
A viagem segue agora com Artan, Louise, a filhinha Cassandra e Lukas ao volante. Mesmo na presença da menina, Artan continua apontando a arma engatilhada para a cabeça de Louise. A próxima exigência de Artan é para que o coloque num voo junto com Louise e a filha com destino a Albânia. Lukas pelo rádio faz o pedido. As autoridades concordam com a fuga desde que Artan liberte a filha e Louise. Mas assim Artan não quer e então ele pede a Lukas que solicite uma balsa para fugir do país via Polônia. Mais uma vez, Lukas faz a solicitação pelo rádio e o pedido é atendido.
No trajeto final em direção à balsa, Artan sente que de certa forma, Lukas sempre se mostrou solícito e disposto a ajuda-lo. Então começa a puxar prosa com o policial perguntando sobre sua vida. Lukas a essa altura já sabe que ganhou a confiança de Artan e diz que é divorciado, diz que traiu a esposa e que tem dois filhos que escolheram morar com a mãe. Disse que justamente naquele dia era o aniversário de seu filho mais velho e que lamentavelmente não poderia estar ao lado dele em razão de estar conduzindo essa ocorrência e longe de casa.
Por fim chegam ao porto aonde Artan aguardará pela balsa que lhe dará fuga. Do momento em que Artan entrou na clínica até aquele momento, tudo durou um dia e meio. Ambos estão exaustos. Artan decide emprestar o seu celular para Lukas falar com o seu filho e desejar-lhe um feliz aniversário. Lukas aceita e liga para o filho, deseja-lhe feliz aniversário, troca algumas palavras e se emociona, desliga e devolve o celular para Artan. Lukas é informado de que o capitão da balsa está reticente em embarcar uma pessoa armada. A situação é tensa. Artan pede para Lukas buscar um café enquanto aguarda a resposta do capitão da balsa. Lukas vai pedir o café pelo rádio, mas Artan pede para Lukas se ele pode deixa-lo com Louise a sós por um instante. Lukas desce do carro e caminha (experiente que é ele já fez uma leitura suficiente de Artan e sabe que Artan não vai atirar em Louise). Bingo! Artan desengata o pente da pistola e a entrega a Louise e desaba em lágrimas. Louise joga a arma para fora pela janela do carro.
Bem, não há balsa alguma aguardando por Artan, aliás, nunca houve balsa, nem avião e nem haverá café porque Lukas não vai retornar mais. Uma força tarefa cercava o carro e aguardava Artan se entregar. Ninguém saiu ferido, ninguém morreu e nem um tiro foi dado e Lukas não encostou um dedo sequer em Artan, embora oportunidades é que não faltaram, principalmente quando Artan ficou vulnerável na casa dos sogros. Talvez outro policial tivesse agido de outra maneira, não Lukas, ele preferiu seguir em frente.
As perguntas são inevitáveis:
Com quem o policial Lukas falava pelo rádio? Seria mesmo uma autoridade ou apenas um colega de profissão para disfarçar? Nas duas paradas pelo caminho, Lukas trocou sinais e gestos com uma policial que os acompanhava de longe. Qual o significado daqueles sinais? O que Lukas contou de sua vida para Artan, que era divorciado e os filhos moravam com a mãe ele estava mentindo ou estava sendo sincero? Foi mesmo com o seu filho que ele falou ao celular desejando um feliz aniversário? Desde o início, Lukas foi sincero ou foi ardiloso e esperou o momento certo para prender Artan? Afinal, Artan apontava a arma o tempo todo para a cabeça de Louise. Se ardiloso, foi uma jogada de mestre ao deixar que Artan acreditasse que estava no controle da situação, só que não estava; se sincero, Lukas pegou Artan pelo seu lado humano, demasiadamente humano, tal como Lukas. A missão foi cumprida espetacularmente com sucesso e cada um vai tirar a sua própria conclusão.
Semanas atrás recomendei a leitura do excelente livro, “O Obstáculo é o Caminho”, do escritor Ryan Holiday. Esse livro é um manual prático de ferramentas estoicas que o autor sintetizou em linguagem acessível tendo como base as principais obras dos mais importantes mestres estoicos, tais como, Marco Aurélio, Sêneca e Epicteto. Por outro lado alguns críticos apontam que vem ocorrendo uma onda ou até mesmo uma “modinha” de estoicismo, cujos responsáveis por espalhar essa moda foram os coaches digitais. Até que ponto isso é verdadeiro? Vamos por partes:
No artigo que escrevi sobre o livro “O Obstáculo é o Caminho”, do Ryan Holiday, eu esclareci que as principais escolas filosóficas são estudadas muito rapidamente nos cursos de Filosofia, entre elas, a escola estoica. Portanto, são temas que acabam ficando restritos aos alunos (ou aos “iniciados”) deste curso. Então, no que consiste a tão aclamada escola estoica? Por que ela está chamando a atenção e muitas pessoas estão se interessando por ela?
O Estoicismo é uma escola helenista fundada em Atenas por Zenão de Cítio no século III A.C. Tem como base as leis naturais e sustentada pela lógica e pelas quatro virtudes cardinais como forma de atingir uma conduta ética de acordo com a natureza. Grosso modo, entre suas bases destacam-se o autocontrole, a indiferença diante de adversidades, a superação e a valorização das virtudes. Para o domínio de suas lições exige-se muita dedicação e estudo ininterrupto. Zenão fundou o estoicismo após sobreviver a um naufrágio no qual perdeu tudo o que tinha e começou a sua vida do zero. Portanto, quando falamos em resiliência, suas raízes estão no estoicismo.
Naturalmente que o estoicismo não é a solução mágica para todos os males e não impede que fatos ruins e incontroláveis aconteçam, porém nos fornece respaldo para permanecermos equilibrados e inabaláveis diante das adversidades que não temos como evitar, pois ele nos apresenta ferramentas para suportar os sofrimentos. As quatro principais ferramentas cardiais são: Coragem, Justiça, Temperança (ou Equilíbrio) e Sabedoria.
O uso dessas quatro ferramentas está em conexão uma com a outra. Grosso modo, o ato de agir caracteriza a Coragem de agirmos sempre com Justiça (praticando o bem) na devida medida (Equilíbrio) e assim sendo estaremos agindo com a Sabedoria. No entanto, a caixa estoica de ferramentas é ampla e bem variada. Além das quatro virtudes cardeais ainda temos o Diário de Bordo (ou journaling) que foi uma poderosa ferramenta usada pelo imperador Marco Aurélio, o desconforto voluntário, a ataraxia e muitas outras.
A filosofia estoica , como já citei, teve início na Grécia no século III A.C e foi proibida no ano de 529 D.C. em Roma pelo imperador Justiniano por acreditar (erroneamente) que se tratava de uma filosofia pagã não sendo compatível com o cristianismo romano da época. Entretanto, no século XI, os monges do Monte Cassino transcreveram os manuscritos de Sêneca, Marco Aurélio e Epicteto e para o bem da humanidade o estoicismo veio à luz novamente.
Desde então, a filosofia estoica foi revisitada por grandes filósofos, entre eles, Immanuel Kant e continua presente entre filósofos contemporâneos tais como, Donald Robertson, Jules Evans, Massimo Pigliucci, Matthew van Natta, Nancy Sherman, Aldo Dinucci, etc. Também está presente há séculos nos clássicos da literatura na pele de alguns personagens marcantes, citando de passagem J.R.R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e J. K. Rowling (Harry Potter). No cinema, podemos citar Capitão Phillips, Ataque dos Cães, Sociedade dos Poetas Mortos, A Livraria, Reis e Rainhas, 16 Quadras, Conduta de Risco e tantos outros.
E sim, com o advento da internet e a expansão das redes sociais, os coaches podemos dizer que foram os pioneiros em nos apresentar o estoicismo de uma maneira acessível e prática para utilizarmos dela seja em nossa vida profissional, familiar ou social. Isso é ruim? Depende. Se utilizarmos do estoicismo como faz alguns coaches influencers digitais na intenção de se dar bem na vida, estimulando a ambição e o sucesso quer seja na carreira profissional ou na vida pessoal é um grande equívoco, pois o estoicismo não tem esse propósito, é sinal que eles nada entenderam de uma das mais instigantes escolas filosóficas da Grécia.
Então, está na moda ser estoico? Com certeza, o estoicismo nunca saiu de moda desde o seu início tendo se retirado de cena por algum tempo por proibição de um imperador equivocado. Como suas lições são pautadas em virtudes para que o ser humano viva de acordo com uma conduta ética, seja no trabalho ou na sua vida pessoal, logo concluímos que Virtude e Ética nunca podem sair de moda, ainda que algum tiranete queira tirá-la de circulação.
“Devemos estar dispostos a lançar os dados e perder. Estarmos preparados para nada funcionar no fim das contas” (Ryan Holiday)
Quando leio na orelha de livros frases do tipo, “esse livro vai revelar os segredos de como...”, pronto, já fico com um pé atrás porque sei que lá vem bomba. É óbvio que essa frase é apenas uma estratégia de marketing que é colocada em praticamente todos os livros de autoajuda. Felizmente, não é o caso desse espetacular “O Obstáculo é o Caminho”, de Ryan Holiday, um excelente manual de introdução ao estoicismo e que não teria necessidade alguma de se colocar essa jocosa e já manjada frase. Um livro que já bateu recordes de vendas e já está na segunda edição de 2022.
O título do livro, na verdade foi inspirado numa frase do imperador estóico Marco Aurélio: “O que impede a ação antecipa a ação. O que está no caminho, torna-se o caminho”. E sinceramente, não encontrei ainda no mercado editorial um livro que oferecesse a filosofia estóica de maneira tão prática e acessível como é o caso desse livro do Ryan Holiday. Isto porque, a escola estóica de filosofia não é de fácil assimilação na sua linguagem crua e original, sendo ela apenas acessível exclusivamente aos alunos que cursam Filosofia, mesmo assim, somente apara aqueles que se interessar em se aprofundar no tema.
Nos cursos de Filosofia, o estudo das principais escolas filosóficas da Grécia é passado rapidamente, não se aprofunda muito sobre cada uma delas, nem há tempo suficiente para isso. Se o estudante quiser se aprofundar em uma delas terá que pesquisar por fora e por conta própria. Foi exatamente o que ocorreu comigo quando cursei Filosofia na PUC. Ao tomar contato com o Estoicismo, ele caiu como uma luva, eu já atuava no setor de Recursos Humanos, eu sabia que o Estoicismo iria pautar uma conduta profissional que me acompanha até hoje. Por isso posso afirmar sem sombra de dúvidas que ler e compreender as obras do estoicismo no original não é uma tarefa confortável, mesmo porque as traduções para o português são sofríveis e truncadas na maioria das vezes.
Ler as obras dos principais filósofos estóicos, Marco Aurélio, Sêneca e Epiteto é bastante complicado, sobretudo Epiteto. Posso afirmar que Sêneca é o mais acessível. No entanto, o autor Ryan Holiday soube sintetizar com muita maestria as lições desses principais mestres estóicos que nos deixaram um precioso e inestimável legado sobre o estoicismo como conduta de vida.
São lições práticas divididas em três partes: Percepção, Ação e Vontade. Os subtópicos de cada parte tratam do controle das emoções, viver o momento presente, a disciplina da ação, persistência, estar sempre pronto para o pior, o amor fati, a perseverança, entre outros temas.
O autor cita uma galeria de personagens que tiveram em algum momento de suas vidas superar pesadas adversidades tendo como ponto de apoio a leitura dos estóicos. Entre elas, temos Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Steve Jobs, Thomas Edison, Barack Obama, Margaret Thatcher, Beatrice Webb, Dwight Einsenhower, Laura Ingalls Wilder, Michel de Montaigne, Ambrose Bierce, Eugène Delacroix, Tim Ferriss, James Stockdale entre outros. Este último, James Stockdale foi um piloto e almirante americano que ficou detido como prisioneiro de guerra no Vietnã por sete anos. A leitura dos estóicos o ajudou a suportar os sete anos em que foi prisioneiro e torturado.
Um trecho do livro:
“A vida é um processo de superar obstáculos – uma série de linhas fortificadas que devemos romper. A cada vez, você aprenderá uma lição. A cada vez, você desenvolverá força, sabedoria e perspectiva. A cada vez, um pouco mais de competição desaparecerá. Até que tudo o que restará será você: a melhor versão de si mesmo. Como diz o provérbio haitiano: atrás das montanhas há mais montanhas.” (pag.201).
Portanto, eis aqui um autêntico manual de estoicismo prático destinado àqueles que nunca tiveram contato com a filosofia dos estóicos. Composto de inúmeras ferramentas que auxiliarão nos mais diversos momentos de adversidades, seja na vida profissional, social ou familiar. Use e abuse em doses cavalares, não há contra indicação.
"Estóico vem do grego stoa, pórtico. O fundador da doutrina, Zenão de Cítio (por volta de 334-262 a.C), ensinava sob arcadas em Atenas. O desenvolvimento dessa grande escola de filosofia antiga é marcado por três etapas: o estoicismo antigo, o médio (dois séculos antes de Jesus Cristo) e o romano, cujos principais representantes são, Cícero, Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio, o imperador filósofo.
Como o epicurista, o estóico busca a ataraxia (ausência de perturbação), afastando da alma tudo que atordoa, e principalmente as paixões, que são como doenças. Todavia, o estóico não encontra o bem no prazer, mas na virtude (grifo meu), entendida precisamente como ausência de paixão (apatia). Se a filosofia fosse um esporte coletivo, diríamos que os estóicos jogam na defesa, enquanto os epicuristas preferem o jogo ofensivo.” [...]
“No início o remédio estóico pareceu-me pior que o mal. Esses homens sobre cujo exemplo eu lia pareciam-me dotados de uma energia e de uma coragem sobre-humanas. Era um objetivo alto demais para mim. Como chegar a um tal grau de renúncia, de autolimitação e lucidez? Eu não passava, afinal, de um ocidental da segunda metade do século XX. Não passara por nenhuma guerra, nenhuma catástrofe natural, nenhuma recessão econômica. Vivia na Eurolândia, desfrutava de proteção social francesa. Era filho de um país e de uma época abençoados, consumindo, desejando, divertindo-me. Será que ainda era capaz de ouvir uma única nota da áspera música estóica?
Pois fui capaz, aplicando, mediante alguns ajustes indispensáveis à minha capacidade, os exercícios básicos de uma filosofia que se pretendia essencialmente uma prática espiritual. Eis aqui três deles, cuja eficácia pude avaliar diretamente.
1- Estar atento a si mesmo. Os estóicos chamam esse primeiro movimento de prosoché. O ponto de partida da filosofia é a consciência da própria fraqueza, estima Epíteto. Implicava em que eu deixasse de fugir de mim mesmo, ou seja, que reconhecesse finalmente minha fraqueza, que a acolhesse. Além disso, a concentração estóica redunda em se distanciar dos próprios desejos e paixões. Praticando-a, eu podia ver que o sofrimento vinha de mim mesmo, e que, portanto, não era insuperável. Enfim, a vigilância estóica focaliza a consciência no instante presente. Desse modo, ela leva a abrir mão das esperanças enganosas e dos arrependimentos inúteis. Eu tinha que arrancar meu olhar do passado, daquela função perdida, daqueles ilusórios privilégios. O que doía era a frustração. O que paralisava era a espera da gratidão de uma sociedade que não daria mais nada e que eu devia agora rejeitar, como numa segunda adolescência, para existir por mim mesmo. Revolta: minha atitude mudava.
2- “Ter uma visão “física” das coisas. Os estóicos recomendam que vejamos os outros, especialmente os adversários, com o olhar do médico, como montes de órgãos e ossaturas. Tratei de aplicar esse método sem reservas a todos os personagens que assombravam minha vida de gerente desempregado. Os tubarões suíços e os consultores internacionais que me haviam eliminado: um montinho de ossos bem alinhados. A diretora da Anpe que me tratava com desprezo, idem. O gerente administrativo da faculdade que me varrera do mapa, a mesma coisa. Os avaliadores, os caçadores de talento, os júris e todos aqueles que me usaram gratuitamente, os falsos aliados, os falsos amigos, todos que me recalcavam em minha condição de desempregado, não por indiferença, mas porque encontravam nisso, decididamente, um interesse objetivo – considerando-se o número de colocações disponíveis no mercado – todos esses finalmente se viam reunidos, triturados, dissolvidos na unidade de sua essência, para formar, depois de conscienciosa aplicação do método estóico, um imenso e salutar ossário de imaculada brancura.
3- Pensar grande. Comecei a usar a imaginação. Decolava de pijama do meu escritório, voando pelo céu como Peter Pan; minha casa já não passava de um pontinho lá embaixo, Montpellier, o aeroporto, as praias... Tudo isso parecia bem distante, pequeno, ridículo. Eu via o mundo com a objetiva de um satélite. Ícaro estava vivo, retomava sua ascensão. Dessa vez, não era para se aproximar do sol, mas para decolar, antes de mais nada, de si mesmo e de suas ruinosas obsessões.
Todos esses exercícios, repetidos com a seriedade e o humor necessários, lançavam as bases de um novo regime de orientação e consciência. Eu não era mais diretor de nada nem de ninguém, nem membro de algum comitê diretor. Mas recuperava outro cargo, do qual fora afastado há muito tempo; eu mesmo. A partir de agora, era eu o estrategista, o piloto, o presidente executivo dessa empresa de mim mesmo.
Acrescento a esses exercícios aquele que sem dúvida mais me ajudou: a meditação. Os estóicos a consideram um diálogo consigo mesmo ou para si mesmo. Esse diálogo, difícil e tenso, permitiu-me ordenar o caos incontrolável de meus pensamentos, progressivamente transformando minha representação do mundo e da situação. Ele pode tomar a forma de um texto escrito, do que dá testemunho a obra de Marco Aurélio. O que funcionou para um imperador romano pode perfeitamente convir a um simples diretor de comunicação.”
Em Novembro deste ano, Clare Torry completou 75 anos. Há cinquenta anos atrás ao entrar no estúdio Abbey Road para fazer um backing vocal, ela sequer imaginava que escreveria o seu nome na história como coautora de uma das mais belas músicas de todos os tempos, “The Great Gig In The Sky”. A música faz parte do premiadíssimo (que até hoje vende horrores!) e lendário álbum “The Dark Side Of The Moon” dessa tão fantástica banda, Pink Floyd. É considerado um dos mais belos vocais femininos de todos os tempos sem ter dito uma única palavra e uma das interpretações mais emocionantes já gravadas em um álbum musical. Aos fatos:
Podemos dizer que na década de 70, Clare, muito discreta não era uma cantora famosa. Ela era contratada como compositora de uma pequena gravadora na Inglaterra. Clare lançou alguns singles no estilo pop/romântico com músicas de sua própria autoria e também gravou covers sob o pseudônimo de Alice Pepper. Como ela tinha uma bela voz diferenciada, ela ganhava uns trocados a mais como freelance fazendo o backing vocals para diversos músicos. Foi então que em 1972 ela recebe um convite de um gênio, o engenheiro de som, Alan Parsons para fazer um trabalho no álbum de uma banda. Mas Parsons não disse a ela qual banda era. É preciso entender antes o próprio Alan Parsons e o que o Pink Floyd queria.
Alan Parsons foi o engenheiro de som que trabalhou no álbum Abbey Road, dos Beatles e foi o responsável por todos os efeitos sonoros no álbum The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd. A música “The Great Gig in The Sky” até então era apenas algumas notas musicais no estilo bluesy/jazzy (com um andamento gospel, eu diria) composta no piano e órgão pelo virtuoso e saudoso tecladista da banda, Rick Wright. Também havia uma frase ao fundo de alguém falando sobre o medo da morte. O guitarrista David Gilmour teve a ideia de colocar sobre essas notas um vocal feminino, mas não sabia exatamente quem chamar. E aí entra Alan Parsons, ele disse que conhecia alguém. Parsons tinha produzido um álbum de covers no qual havia a participação de uma cantora com uma voz muito bacana: era Clare Torry! Ele a indicou para o trabalho.
Clare recebeu o convite mas, sem saber do que se tratava, achava que era para fazer um backing vocal num coral de garotas como ela estava acostumada. Ela se apresentou no estúdio num domingo à noite e somente na hora ficou sabendo que se tratava da já famosa banda Pink Floyd. Na verdade, Clare não se empolgou (e nem os membros da banda com ela), não ocorreu uma empatia entre ambos. O seu estilo era outro e bem diferente, mais direcionado à música pop/romântica e não tinha afinidade alguma com o som tão complexo do Pink Floyd. Mesmo assim, corajosa ela aceitou o desafio. E atenção aqui: ter aceitado esse desafio fez a diferença para sempre na vida dela.
Primeira e segunda tentativas frustradas
Gilmour disse para Clare improvisar alguma coisa sobre aquelas notas musicais de piano. Na primeira tomada ela arriscou alguns scats jazzísticos do tipo “Ooh Baby Ooh Baby Yeah Yeah Baby”. E Gilmour disse, “não, não, não é isso que queremos” e explicou a ela o conceito do álbum que falava sobre angústias, depressão e que a música significava a luta da vida contra a morte. De novo ela improvisa scats jazzísticos um pouco mais alongados mas ainda não era isso, não estava bom, disseram a ela que se fosse para fazer aquilo havia cantoras que fariam melhor do que ela!
Terceira tentativa: "boom!"
Clare pediu para passar mais uma vez a trilha do piano e disse para ela mesma: “e seu fingisse que fosse um instrumento musical”? Olhou para Alan Parsons e disse: “aperte a luz vermelha de gravação”. Então, ela fechou os olhos, soltou a voz e o que ela fez ali naquele momento é absolutamente desconcertante, é o que ouvimos na gravação! Ela nunca tinha cantado dessa maneira antes. Nem ela e nem ninguém! Quando ouvimos a melodia, acreditamos que Clare está seguindo uma partitura musical, só que não, na verdade ela é quem está compondo, vocalizando, construindo e improvisando uma melodia sobre as notas musicais criadas pelo piano de Rick. Ela não ensaiou antes, foi assim mesmo no improviso do momento. Como ela disse anos depois, "foi um boom espontâneo".
Quando ela terminou e abriu os olhos, estavam todos atônitos, chocados, em silêncio absoluto, ninguém havia entendido ainda o que tinha acontecido ali, nem mesmo Clare. Como ninguém da banda disse uma palavra sequer, ela achou que não foi bem e que não agradou. Ela pediu desculpas! Se despediu e recebeu as 30 libras pelo trabalho, como combinado! Isso mesmo, 30 libras, e isso porque era domingo, fosse dia normal seriam 15 libras. Como ela mesma disse depois, “para mim foi apenas mais um dia de trabalho”. Ela não fazia a menor ideia da obra prima que havia acabado de compor (só veio a descobrir quando o álbum foi lançado e ela a ouviu cantando). Ela conseguiu expressar brilhantemente através da sua vocalização dramática exatamente o que a melodia queria transmitir: a luta da vida contra a morte. É a única faixa do álbum que não tem efeitos sonoros, Parsons achou tão perfeita que não quis colocar efeitos, apenas jogou um eco bem suave no microfone de Clare.
Quando o álbum foi lançado, o nome de Clare constava apenas nos créditos como vocalista da faixa e não como coautora, fato esse, vamos combinar, foi uma baita sacanagem da banda. Mas ela não se importou, não reclamou na época a sua significativa contribuição ainda que essa faixa fosse e ainda é uma das mais comentadas do álbum em razão do seu vocal icônico. Daí em diante, ela recebeu muitas propostas de trabalho e participou de álbuns de músicos de peso como por exemplo, a própria banda Alan Parsons Project, Procol Harum, Meat Loaf, Kevin Ayers, Olivia Newton-John, Culture Club, Roger Waters, Tangerine Dream, TV-2, etc.
O vocal de Clare em “The Great Gig In The Sky”, até hoje é tema de análises e debates, sobretudo entre as professoras de canto e voz. Algumas delas, já confessaram que jamais conseguiriam fazer o que Clare fez com a voz. O controle absurdo da respiração, a maneira como ela articula e “assopra” as vogais, as ondulações de beltings, melismas e vibratos que contrastam com a voz da cabeça, do maxilar e a voz do peito formam uma peça musical única e irreproduzível. Nenhuma cantora conseguiu repetir exatamente o que Clare fez. Nas apresentações ao vivo do Pink Floyd, é preciso três cantoras para a execução dessa música. Mas Clare explicou que para uma só cantora executar a peça é um trabalho muito cansativo para as cordas vocais, por isso são necessárias duas ou três cantoras.
The Great Gig In The Sky é uma das campeãs de vídeos reaction no Youtube. Músicos e cantores dos mais diversos gêneros musicais quando ouvem a música pela primeira vez ficam hipnotizados e chocados com o trabalho de Clare; algumas cantoras de música gospel já acostumadas com muita emoção captam a mensagem da música logo que Clare começa a vocalizar, e elas não conseguem segurar as lágrimas. E um detalhe muito surpreendente : essa melodia já salvou vidas! Há inúmeros depoimentos a esse respeito. Muitas pessoas relatam que essa melodia ajudou-as a superarem momentos sombrios de suas vidas trazendo-lhes paz e luz. E sim, a Música pode salvar vidas (dê um google).
As lições que tiramos disso:
- Coragem, determinação e autoconfiança: Clare foi no escuro, sem saber o que lhe esperava, é quase como se ela fosse fazer um teste. Quando ela chegou no estúdio e tomou conhecimento do que se tratava, ela poderia ter desistido, mas não, encarou o desafio, ainda que não tivesse afinidade musical alguma com o trabalho do Pink Floyd. Lembrando que ela era uma crooner de seção de estúdio e pouco conhecida, embora ela soubesse compor. Além disso, o fato de ela ser escolhida pelo engenheiro que trabalhou com os Beatles lhe deu uma tremenda autoconfiança a tal ponto de não querer desapontar quem a indicou, no caso, Alan Parsons.
– Resiliência, determinação, suportar pressão: Nas duas primeiras tentativas ela falhou miseravelmente a tal ponto de chegar a ser hostilizada por um dos membros da banda. Fosse outra cantora de pavio curto poderia ter encerrado ali mesmo e ter dito: “bye bye, procurem outra”. Mas ela não se importou com o esculacho que levou, teve casca grossa, aguentou firme, respirou fundo e foi para a terceira tentativa (e com certeza quantas mais ela conseguisse) cujo resultado nós já sabemos qual foi, porque aquela noite era para ela brilhar absoluta, ainda que ela não soubesse.
- Naquela noite no estúdio, ela descobriu que poderia cantar daquela maneira, coisa que ela nunca tinha feito antes. Aconteceu no lugar certo, na hora certa. Não é incomum durante a vida as pessoas descobrirem que são portadoras de talentos que até então desconheciam. De repente, a pessoa descobre que tem vocação para pintura, escultura, gastronomia, jardinagem, dramaturgia música, seja tocando algum instrumento ou talento para o canto, para dança, etc. Também que às vezes podemos fazer as coisas de maneira diferente como estamos habituados a fazer e que poderá nos tornar mais talentosos e abrir novos caminhos, novos horizontes.
Clare subiu ao palco com o Pink Floyd para interpretar a melodia apenas duas vezes: em 1973 no Rainbow Theatre e em 1990 no espaço Knebworth Park. E de novo, aos 52 anos de idade ela barbarizou dando uma nova interpretação na obra que ela própria construiu. Finalmente em 2004 quando se aposentou ela entrou com uma ação contra o Pink Floyd requerendo os royaltes e a coautoria da composição. Um acordo extrajudicial foi firmado cujo valor não foi revelado e a partir de então o nome de Clare Torry passou a constar como coautora da peça musical ao lado de Rick Wright em todos os álbuns do Pink Floyd. Em 2010 ela recebeu da Ivors Academy, do Reino Unido o prêmio BASCA Gold Badge Awards em reconhecimento à sua contribuição original e única para a música.
E mais uma vez, a improvisação de uma cantora foi protagonista de uma peça musical única, original, uma obra prima da música. “E se eu fingisse que fosse um instrumento musical?” Deus do céu, como ela pôde ter esse insight ("boom", como ela disse) naquele momento? Na rara entrevista que Clare concedeu, ela disse que coisas assim acontecem apenas uma vez na vida e que ainda acha estranho tudo o que aconteceu ali. Pensou um pouco e disse: "naquela noite, Deus sorriu para mim!". Por que não? Afinal, ela compôs uma peça musical que já salvou vidas! Uau! E acredito fortemente que essa melodia continuará salvando muitas vidas mais.
Obs: Após o prelúdio de introdução, o vocal de Clare começa em 1:06
“Faça o melhor com o que estiver em seu poder, e apenas aceite o que vier a acontecer. Algumas coisas estão ao nosso alcance e outras coisas não estão”. (Epiteto)
Puxa vida, mas por que é que isso foi acontecer? Aonde eu errei? Ou, por essa eu não esperava. Ou ainda, tinha que acontecer justamente comigo? São frases que muitas pessoas já se fizeram a si próprias, foram pegas de surpresa diante de uma situação que com certeza não esperavam, sobretudo no ambiente de trabalho. Naturalmente que ao chegar ao trabalho ninguém espera que algo ruim possa acontecer, ou seja, uma discussão? um erro grotesco? um projeto que deu errado? Pois eu digo que tudo isso pode acontecer sim e às vezes tudo ao mesmo tempo. Quem já não passou por isso?
É aquele chefe que ao chegar você dá um caloroso bom dia e ele não responde ou aquela colega que por não estar em bom dia lhe trata com rispidez, um cliente insatisfeito que no calor do momento lhe fala uns desaforos no telefone, lhe chama de incompetente e bate o telefone na sua cara, a folha de pagamento que não fecha de jeito nenhum, a reconciliação bancária que não bate, o balancete que não fecha, o supervisor que manda você refazer o relatório que você fez naquele capricho e até mesmo uma advertência injusta.
Sim, devemos estar preparados para tudo isso e mais um pouco porque temos a capacidade de superar qualquer situação. As lições dos filósofos estóicos são remédios indicados nessas situações. Ocorre que a tendência no geral é darmos uma importância muito grande sobre essas situações indesejáveis ou alimentarmos uma expectativa muito alto em relação aos feedbacks no ambiente de trabalho, eu até já escrevi alguns artigos sobre essas questões.
A solução para isso pode ser simples, a escolha da maneira de encarar e agir será sempre escolha nossa. Apesar de simples pode não ser fácil para algumas pessoas, sobretudo aquelas que sobrepõem as emoções à razão. Com muito estudo, treino, empenho e a prática podemos tirar de letra qualquer dessas situações citadas. Vamos lá:
- Pense sempre que tudo pode dar errado
- Nunca aumente suas expectativas de reconhecimento
- Concentre-se no que é possível controlar e aceite o que não pode ou não esteja a seu alcance.
- A razão sempre deve se sobrepor à emoção.
"Se recebi uma injúria, é necessário que ela tenha sido feita; se foi feita, não é necessário que eu a tenha recebido" (Sêneca)
Quando entrei para o mercado de trabalho eu tinha 15 anos, comecei como office-boy e foi um começo muito punk, nada agradável, escreverei sobre isso em breve. Logo em seguida quando iniciei em RH, caiu-me nas mãos um livro que muito me ajudou a enfrentar as mazelas do ambiente de trabalho. Trata-se do livro “Sobre Heróis e Tumbas”, do escritor argentino Ernesto Sábato. Esse livro foi considerado o melhor romance argentino do século XX. Grosso modo é a história da decadência de uma família aristocrática e o relato da morte do general Juan Lavelle. Há um personagem na trama chamado Fernando e que passa por terríveis situações, mas sempre permanece inabalável tirando de letra todas elas. Então, uma personagem pergunta a Fernando qual o segredo de ele sempre se dar bem e sair ileso dessas situações. Ele responde: “É que eu sempre espero o pior!” Essa frase me marcou. Claro, Fernando é o personagem estóico da trama. Experimentei na prática e sempre deu certo.
Mas é isso! É claro que ao chegarmos ao trabalho não vamos torcer para que tudo dê errado, uma boa dose de otimismo nunca é demais, no entanto, devemos sim estar preparados para o que der e vier para não sermos pegos de surpresa, até mesmo por uma inesperada carta de demissão, por que não?
Portanto, é sempre bom às vezes lembrar as prudentes e sábias palavras de Marco Aurélio em suas Meditações: "hoje eu encontrarei pessoas intrometidas, ingratas, arrogantes, desonestas, invejosas e grosseiras". Isso poderá ocorrer e se ocorrer, lembremos também Jordan Peterson, "costas eretas e ombros para trás", estejamos preparados então para um péssimo dia de trabalho e se preparados estivermos não será tão péssimo assim.
“Não espere que tudo aconteça como você deseja, mas sim como tudo realmente deve acontecer; então sua vida irá fluir bem.” – Epiteto
Por todas as empresas pelas quais passei ouvi queixas de funcionários se lamentando que o chefe ou o próprio empregador não reconheciam o seu trabalho ou dedicação. Ainda hoje ouço essas queixas. Infelizmente para essas pessoas, as respostas que eu tenho para essa questão elas não gostam muito de ouvir, é claro. Na verdade elas queriam declarações de veneração de seus chefes, gostariam de ouvir do empregador, “nossa, o que seria da empresa sem você?” e coisas do gênero. Essas pessoas não entendem que o reconhecimento profissional não se dá dessa maneira.
Frequentemente tenho contato com profissionais depressivos dizendo que se demitiram ou vão se demitir (mesmo em plena crise!) em razão da falta de reconhecimento dos empregadores pelos seus trabalhos. São pessoas dedicadas, honestas, leais, raramente faltam ao trabalho, fazem tudo certinho, são excelentes profissionais e por essas razões gostariam de um olhar mais simpático ou por parte de seus chefes ou dos empregadores. Esquecem de um detalhe importantíssimo: estão empregadas e ganhando razoavelmente bem! Quando eu as lembro disso já me olham com desconfiança.
Peço a essas pessoas então para definirem o que elas entendem por “reconhecimento de trabalho”, e as respostas são as mais absurdas possíveis, pois carregam uma carga emocional que dificilmente alguém realmente suportaria. Ocorre é que alguns profissionais alimentam uma altíssima expectativa de reconhecimento pelo seus desempenhos cujo feedback do empregador jamais irá satisfazê-los. O profissional sempre acredita na maioria das vezes que ele dá muito mais de si do que recebe em troca. Evidentemente que nem todos pensam assim.
Bem, a relação de trabalho se estabelece através de um contrato de trabalho seja ele tácito ou expresso no qual o empregado oferece um produto, a sua mão de obra ou expertise profissional, e o empregador se obriga a remunerá-lo pelos serviços prestados. Não existem cláusulas contratuais que obriguem o empregador a dar tapinhas nas costas do empregado cada vez que o encontra pelos corredores da empresa, convidá-lo para o churras de final de semana e reconhecer o seu trabalho na forma dos mais diversos elogios ao gosto do empregado. Não, isso não vai rolar, nunca, ainda que o empregador sinta vontade de fazê-lo. Conheço alguns que até o fazem mas isso é bem raro de ocorrer.
Bons líderes têm a vocação de detectar esse tipo de baixa autoestima de seus liderados para então direcioná-los para uma postura mais estoica ou mesmo resiliente. Ao menos que esse tipo de situação ocorra com o próprio líder e daí não podemos deixar de observar que se isso ocorrer fará dele um profissional não habilitado para assumir uma liderança de equipe. O líder deve manter um ambiente cordial e motivador.
Doses maciças de estoicismo resolvem essa questão facilmente. Para quem ainda não conhece essa corrente filosófica, o Estoicismo é uma escola de filosofia helenística fundada na Grécia, em Atenas, por Zenão de Cítio no início do século III A.C. Os estoicos ensinaram que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento, da relação ativa entre determinismo cósmico e liberdade humana e a descendência de que é virtuoso. Desenvolveu-se como um sistema integrado pela lógica, pela física e pela ética. Um sábio é sempre imune ao infortúnio. Atualmente o sentido de ser estoico é estar blindado à dor, tristeza, alegria e prazer. As quatro virtudes principais do estoicismo são: Sabedoria, Justiça, Coragem e Moderação.
Podemos afirmar então que o Estoicismo é uma poderosa ferramenta de resiliência, uma poderosa armadura para podermos enfrentar de maneira inabalável qualquer tipo de situação. A literatura ficcional e autobiográfica estão repletas de personagens estoicos, por exemplo: Coragem sob Fogo (James Stockdale), Em Busca de Sentido (Viktor Frankl), O Sono Eterno (Raymond Chandler), O Tufão (Joseph Conrad), O Velho e o Mar (Ernest Hemingway), além das obras dos próprios filósofos estoicos tais como, Epiteto, Sêneca e Marco Aurélio. No cinema também podemos encontrar grandes exemplos de personagens estoicos como, por exemplo, O Sol Nasce Para Todos (personagem: o advogado Atticus Finch), Um Sonho de Liberdade (personagem: Andy Dufresne), Capitão Phillips (personagem: Richard Phillips) e tantos outros.
Portanto, o reconhecimento profissional pode vir (ou não!) de várias maneiras: através de aumento salarial, promoção, prêmios, bonificações e até mesmo um convite para trabalhar em outra empresa com maior salário. Palavras gentis de reconhecimento? É sempre bom ouvi-las, porém, é de bom senso não esperar por elas, além de não alimentar altas expectativas de feedback do empregador. O bom profissional sabe que é expert no que faz e com certeza o seu empregador também sabe disso. O bom profissional, aquele que faz a diferença sabe que é virtuoso e como diz uma sábia frase do filósofo Sêneca, "a virtude é suficiente para a felicidade". Isso basta, o que vier de ruim atingirá a armadura e se desmanchará no ar.