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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Leitura recomendada: Davi e Golias : A Arte de Enfrentar Gigantes – Malcolm Gladwell


Há uns 15 anos atrás através da indicação de um colega de profissão tive a oportunidade de ler o primeiro livro de Malcolm Gladwell, “Ponto de Equilíbrio”, escrito no ano de 2000 e que se tornou um best-seller mundial. Após a leitura dessa obra prima, imediatamente percebi que estava diante de um tremendo escritor, tornando-me um leitor assíduo de suas obras. Cada livro de Gladwell, obtemos um manancial de cultura e conhecimentos dos quais jamais iremos nos esquecer. E com Davi e Golias: A Arte de Enfrentar Gigantes, não poderia ser diferente.

Malcolm Gladwell é um jornalista britânico, licenciado em História, atualmente reside em Nova Iorque. Orador palestrante e colunista da revista The New Yorker. Seus artigos e livros partem de suas pesquisas em Ciências Sociais, especificamente em sociologia e psicologia social. Ao lado de Jordan Peterson e Nassim Nicholas Taleb, Gladwell é um dos nomes mais lidos e citados no setor corporativo, sobretudo nos setores de administração e recursos humanos.

No livro Davi e Golias, já na primeira parte nos deparamos com um tema muito atrativo: “As vantagens das desvantagens e as desvantagens das vantagens”. Pode parecer inacreditável, mas foram apenas duas frases proferidas pelo ameaçador gigante Golias que fizeram com que a sagacidade do jovem pastor Davi ganhasse o combate atirando a pedra que pode atingir Golias de maneira letal. Foram essas as duas frases proferidas pelo gigante Golias ao jovem Davi.

“Venha aqui e darei sua carne às aves do céu e aos animais do campo!”

“Por acaso sou um cão, para que você venha contra mim com pedaços de pau?”

Não vou dar o spoiler (para quem ainda não leu o livro) de como Davi pensou rápido diante dessas duas frases que revelaram a fraqueza de Golias para então tombar o gigante com o arremesso de uma pedra em sua testa. Claro, Davi era também um exímio fundibulário.

Todos os capítulos têm como fio condutor o exemplo da sagacidade do pastor Davi. São histórias reais de situações limites aparentemente sem solução alguma que ocorreram tanto com personagens importantes da história, como por exemplo, Martin Luther King, bem como, com personagens anônimas ou desconhecidas. Todas elas utilizando insights que costumamos desprezar no dia a dia, conseguiram enxergar uma nesga de raio de luz na própria desvantagem em que se encontravam para fazerem dela uma vantagem surpreendente.

E assim o livro passa pela história dos pintores franceses impressionistas que, ridicularizados pelos críticos da época e pelas importantes galerias que rejeitavam seus trabalhos, quando tudo parecia estar perdido, um inacreditável insight dos pintores Monet e Pissarro tirou o grupo do anonimato projetando-os para o reconhecimento mundial; passa pelo conflito da Irlanda do Norte contando a resiliência de pessoas que sobreviveram ao ataque de granadas e bombas da bestialidade das tropas inglesas; conta a história de como um disléxico se tornou um importante jurista e assim por diante.

Ademais, Gladwell discorre com maestria sobre a ilusão de se escolher uma universidade de renome pra cursar (o que vale mais, ser um peixe pequeno numa lagoa grande ou ser um peixe grande numa lagoa pequena?), sobre o equívoco das ações afirmativas, do tremendo erro dos profissionais do ensino que acreditam que a redução de alunos por classe seja a solução para uma boa educação e muito mais.

Uma entre tantas lições que aprendemos com Gladwell é a seguinte: “Coragem não é algo que você já tem e o torna destemido quando tempos difíceis começam. Coragem é o que você conquista quando passou por tempos difíceis e descobriu que não são tão difíceis assim”.

Pessoas que agem e tomam atitudes como Davi correm riscos, riscos estes que a maioria das pessoas desaprova e muitas delas não estão dispostas a correr. Portanto, temos nas mãos não apenas um livro, mas um verdadeiro manual de como tirar vantagens das desvantagens, sendo que estas no dia a dia não são poucas e estão sempre presentes e que se agigantam como o gigante Golias diante de nossos olhos dando-nos a falsa impressão que não há mais nada a fazer. Vivemos em tempos de enfrentar gigantes e tal como o jovem Davi, devemos ter a coragem e a audácia de derrubá-los todos. 


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Lições que aprendemos com personagens do cinema




Em artigo recente escrevi sobre a importância da literatura na formação pessoal e profissional dos indivíduos. Neste artigo indicarei cinco filmes cujos personagens protagonistas de cada um deles nos entregam lições de vida inestimáveis, sobretudo porque suas ações e atitudes estão diretamente conectadas no ambiente de trabalho no qual atuam. São lições de habilidade, sagacidade, lealdade, serenidade, liderança, resiliência, assertividade, inteligência emocional, autocontrole e, sobretudo de ética profissional.  Vamos a eles:

1 - 16 Quadras – (2006)

"Eu só quis fazer uma coisa boa" (Jack Mosley)

Temas: Mensagem a Garcia (missão dada, missão cumprida), lealdade, redenção, personagem estoico.

O policial Jack Mosley (Bruce Willis em brilhante atuação) em seu dia de folga (ele é alcóolatra e está levemente embriagado) recebe de seu superior uma ordem para transportar o preso Eddie Bunker (Mos Def) até o fórum aonde ele vai depor contra policias corruptos. Da delegacia até o fórum o trajeto é de apenas 16 quadras nas quais a dupla será emboscada pelos policiais corruptos que serão delatados por Eddie. Numa certa altura Jack Mosley descobre que ele está na lista dos policias que serão delatados, ainda assim ele segue em frente muito calmo e inabalável e vai até o fim porque a liberdade do preso dependerá do depoimento contra os policiais.

2 – Jogo de Espiões – (2001)

"Operação Jantar Fora" (Tom Bishop)

Temas: lealdade, amizade, sagacidade, suportar pressão

Em seu último dia de trabalho na CIA, o agente Nathan Muir (Performance monstruosa de Robert Redford) um pouco antes de passar pela roleta de saída descobre que seu antigo protegido, um mercenário avulso, Tom Bishop (Brad Pitt) foi capturado pelos chineses e será executado no dia seguinte. A CIA lavou as mãos porque não reconhecia Bishop como membro (ele foi recrutado como Free Lancer por Muir sem o conhecimento da CIA). Muir desiste da aposentadoria e retorna ao seu gabinete e elabora um plano absolutamente insano para resgatar Tom Bishop sem a CIA saber. Detalhe: há mais de 10 anos que Muir e Bishop romperam a amizade e nunca mais se viram.

3 – Incontrolável – (2010)

"não precisa me demitir, eu já estou cumprindo aviso prévio e hoje é o meu último dia de trabalho" (Frank Barnes)

Temas: lições de perícia, tomada de decisão, amor à profissão, comunicação eficaz entre veterano e novato.

A história é baseada em um fato verídico que ocorreu no dia 15 de Maio de 2001 nos Estados Unidos em Ohio e ficou conhecido como “O Incidente do CSX 8888”, prefixo do trem desgovernado. O veterano maquinista Frank Barnes (magistral performance de Denzel Washington) e seu ajudante Will Colson (Chris Pine) estavam conduzindo tranquilamente uma composição de trem quando são avisados pelo rádio que um comboio desgovernado estava vindo de encontro a eles. O experiente maquinista Frank decide então que vai parar o comboio de qualquer maneira. Para isso ele terá que quebrar muitos protocolos de segurança. O proprietário da empresa rechaça a decisão de Frank e o demite pelo rádio. Frank desobedece e segue determinado com o seu plano. Os maquinistas reais foram condecorados pelo presidente da república e foram os consultores na gravação do filme. Até hoje trabalham para a mesma companhia.

4 - Um dia e Meio -(2023) 

"Você pediu alguém, e eu vim" (Lukas)

Temas: inteligência emocional, liderança, sagacidade, personagem absurdamente estoico

História também baseada em fatos verídicos. Um homem armado, Artan (Alex Manvelov) que acaba de sair da cadeia invade a clínica aonde sua ex-esposa Louise (Alma Pöysti) trabalha e a obriga a leva-lo até o local onde está a sua filha, no caso, na casa dos pais de Louise. A polícia é acionada e para atender a ocorrência é designado (não por acaso!) um policial, Lukas (Fares Fares) para leva-los na viatura até o local aonde se encontra a criança. Da clínica até o local de fuga exigido por Artan leva o tempo de um dia e meio. A postura do policial Lukas é absurdamente serena, inabalável, de poucas palavras e tão estoica que chega a causar incômodo para quem está assistindo. Lukas nos entrega uma aula impressionante de ardil, autocontrole e liderança.

5 – Conduta de Risco (Michael Clayton)

"Eu não sou o cara que você mata, sou o cara que você compra" (Michael Clayton)

Temas: Ética Profissional, Expertise  Profissional, Sagacidade

Michael Clayton (George Clooney em sua mais brilhante atuação) é um inteligente e habilidoso advogado que presta serviços há muitos anos para um famoso escritório de advogados associados. O escritório defende uma grande indústria química, U-North que produz um herbicida suspeito de causar câncer nas pessoas que o utilizam. O advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson também em atuação magistral) que trabalha no escritório e amigo de Clayton tem acesso a um documento da U-North assinado pelo presidente da empresa no qual reconhece que o herbicida produzido realmente tem agentes em sua composição que causa doenças. De posse do documento, Arthur ameaça mudar de lado. A CEO da U-North, Karen Crowder (Tildal Swinton que levou um Oscar pela brilhante atuação), contrata mercenários para assassinar Arthur. Após a morte de Arthur, Michael Clayton entra no caso e com toda a sua experiência e habilidade nos entrega uma lição pertubadora de Ética Profissional.

Todos os filmes têm resenha neste blog e são fáceis de encontrar para assisti-los


segunda-feira, 25 de março de 2024

Revista Forbes elege “Don’t Stop Believin” (Não Pare de Acreditar), da banda Journey como a melhor canção de todos os tempos


Journey: Jonathan Cain, Neal Schon, Steve Perry, Steve Smith, Ross Valory

A famosa revista estadunidense Forbes com sede em Nova Iorque, em matéria publicada recentemente elegeu a canção “Don’t Stop Believin’”, da banda Journey como a melhor canção de todos os tempos. A letra da música fala sobre resiliência e a persistência de atingir os objetivos planejados. A Forbes é uma publicação que aborda temas variados tais como, economia, finanças, investimentos e marketing. No entanto também é famosa por publicar rankings sobre temas diversos ao redor do mundo.

A canção “Don’t Stop Believin’ foi escrita no ano de 1981 e faz parte do premiado álbum “Escape” que atingiu na época o primeiro lugar em vários países. O tecladista Jonathan Cain que fazia a sua estreia na banda foi quem trouxe o argumento da letra baseado na sua própria história pessoal. Baseado nesse argumento, o vocalista Steve Perry escreveu os versos da música e a melodia teve a autoria do próprio tecladista Jonathan Cain, do guitarrista Neal Schon, e do baterista Steve Smith.

A história pessoal de Jonathan diz respeito quando ele partiu do interior de sua cidade natal, Detroit para tentar a vida como músico em Los Angeles. A concorrência era pesada e sempre quando Jonathan pensava em desistir, ele ligava para o seu pai e este sempre lhe dizia: “Não pare de acreditar ou você acabou, cara!” Os versos da letra, Perry adaptou para contar a história de uma garota e um garoto que moram em cidades pequenas e pegam um trem para tentar a vida em algum lugar. Jonathan, comentando sobre a canção, disse certa vez em uma entrevista: “Sentimos que todo jovem tem um sonho e às vezes o lugar onde você cresce não é onde você está destinado a estar”.

“Dont Stop Believin” foi premiada até o momento com 18 certificados de platina, está entre as 500 melhores músicas de todos os tempos no ranking da revista Rolling Stone. Foi tema de diversos eventos esportivos, trilha sonora de diversos seriados e foi símbolo de resistência e resiliência na fase da pandemia para quem estava travando uma batalha contra a Covid.

Além da letra de "Don't Stop Believin' de forte conteúdo motivador, a revista Forbes também destacou a elaborada linha melódica, sobretudo a introdução memorável em razão do distinto riff introdutório do piano de Jonathan Cain na abertura da música. "Não pare de acreditar ou você acabou, cara". Ele não parou, acreditou e foi em frente e o resultado está aí, diante de nossos olhos. Portanto, não pare nunca, não desista, acredite em você!





segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Como se escolhe uma boa carreira?*




Por Dr. Frederic Flach

"Como se escolhe uma boa carreira? Às vezes por uma visão privilegiada das coisas, algumas por sorte, outras levados que somos, felizmente, por circunstâncias acidentais. O melhor tipo de trabalho é aquele que nos dá a oportunidade de empregar nossos talentos básicos. Todos temos esses talentos, sejam eles, simples, costurar uma roupa, ou complexos, como matemática superior ou física nuclear. Podemos encontrar as pistas desses nossos talentos lembrando a infância e a juventude e nos perguntando a que tipo de atividade nós preferíamos no dedicar então. Brincar é um barômetro importante nessa busca: por exemplo, passávamos o nosso tempo sozinhos, construindo aviõezinhos, colecionando selos, lendo? Ou preferíamos a companhia de outras crianças na maioria das vezes? Éramos bons na hora de redigir as composições na escola, ou melhores em biologia? E na hora de fazer pequenos trabalhos para ganhar algum dinheirinho, preferíamos trabalhar numa loja, numa construção ou como um instrutor esportivo? [...].

Quanto mais as reponsabilidades de nosso trabalho nos permitem usar nossos talentos e interesses manifestados na infância e na juventude, melhores profissionais seremos. Quando esses talentos e interesses falham em nos dar essa oportunidade, muitas pessoas encontram uma solução em suas vocações [...].

Estudos demostram que, quando uma organização se torna muito grande, é difícil para a maioria das pessoas se identificar com o conjunto. Automaticamente, essas pessoas se sentem parte de um pequeno segmento; esses segmentos se multiplicam e se tornam autolimitados à medida que a organização cresce. Mesmo dentro de nosso pequeno setor, talvez nunca tenhamos uma visão geral do que somos; como resultado disso fica difícil extrair daí um sentido de identidade, propósito, e eficácia do nosso trabalho [...].

Tudo indica que não vamos trabalhar dentro de uma determinada estrutura o resto de nossas vidas. Se começamos trabalhando na ABC Eletronics, quando tínhamos vinte anos, a companhia talvez não exista quando chegarmos aos trinta e cinco. E mesmo que dure um século, nosso sentido de lealdade- se temos algum- não vai durar tudo isso. Ambição, oportunidade e mudança provavelmente nos levarão para outros lados [...].

Todos temos a propensão de pensar que o amanhã será mais ou menos como o dia de hoje. Estamos dispostos a admitir quer as mudanças estão no ar, mas lá no fundo do coração acreditamos que no próximo ano, ou daqui a dez ou vinte anos, estaremos vivendo num mundo bem parecido com aquele com o qual nos acostumamos. Embora estejamos vivendo confortavelmente, prosseguir nesse ritmo com base em tais crenças pode ser muito perigoso. Acho que muita gente jovem e inteligente hoje conhece bem esse risco e se comporta de acordo com isso – seja se tornando mais frenética no seu trabalho, como forma de negar suas percepções íntimas de fragilidade, ou então se lançando numa vida descompromissada, cheia de prazer e mobilidade, sem muito trabalho. É curioso, acho essa tendência mais comum entre homens jovens do que mulheres jovens. Essa observação se for válida, pode se explicar pelo fato de que as mulheres têm tido, nos últimos anos, mais oportunidade de fazer carreiras em campos antes exclusivos dos homens; assim, pelo menos por enquanto, elas tiram estímulo e motivação da novidade pura que é a sua nova situação [...].

Talvez então, em algumas circunstâncias, esta hesitação em se comprometer e o desejo de manter abertas as opções reflitam de fato um enfoque mais intuitivo e criativo em relação a um futuro muito incerto e a determinação de estar pronto quando chegar esse futuro. Tanto é assim que a preparação parta a idade adulta deveria trazer a ênfase numa forma de educação mais ampla, formadora da mente e do caráter, educação que requer o estudo dos clássicos, da Filosofia, das línguas, da história e da ética, só para lembrar algumas, como pré-requisito para irmos em direção a campos de atividades mais especializados [...].

Claro, problemas como ter casa para morar e comida na mesa não vão desaparecer. O que necessitamos é a habilidade criativa para viver em diferentes níveis ao mesmo tempo, encontrando um lugar para nós dentro do sistema existente, num grau adequado à sobrevivência do dia-a-dia, mas ainda ficando um pouco à distância, abertos a mudanças dentro de nós mesmos e de nosso mundo. Para conseguirmos isso precisamos de RESILIÊNCIA e, como parte dela, a descoberta do significado que dará sentido a nossas vidas."

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*Excertos extraídos do capítulo 19 do livro "Resiliência A Arte de Ser Flexível, do Dr. Frederic Flach, editora Saraiva, 1991, 1ª edição - São Paulo


segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Filme recomendado: Fome de Sucesso (para cozinheiras em início de carreira profissional)



Esse filme é uma produção tailandesa de 2023 (baseado em fatos reais) lançado pela Netflix. Deixemos de lado as atuações não tão convincentes dos atores, pois acostumados que estamos com as grandes atuações da escola de dramaturgia americana, a escola tailandesa ainda deixa muito a desejar, portanto não é de se esperar boas atuações do elenco desse filme, o que importa aqui é a mensagem que neste caso específico, aborda os percalços de uma jovem cozinheira no início de carreira profissional em busca da fama para se tornar uma renomada chef.

O roteiro conta a história da jovem e humilde cozinheira Aoy. Ela não tem formação em gastronomia, porém é ótima cozinheira e trabalha no singelo boteco de seu pai cozinhando pratos típicos, rápidos e simples que na tradição oriental são chamados “comida de rua” (é uma fumaceira só!). É um ambiente familiar aonde ela e toda família residem no andar de cima. Embora seja um ambiente pobre, todos são muito alegres e brincalhões. Aoy é uma garota triste, enfadada e sem nenhuma perspectiva de desenvolvimento profissional.

No lado chique da cidade, existe um dos mais famosos e estrelados restaurantes locais comandado pelo renomado e sisudo chef Paul. Ele tem uma baixa em sua competente equipe e delega a um de seus funcionários que encontre um cozinheiro a altura para substituir o demitido. Esse funcionário vai parar no boteco em que Aoy cozinha. Lá ele almoça e fica impressionado com a comida da jovem cozinheira. Ele deixa um cartão e a convida para fazer um teste para nada mais nada menos do que o chef Paul. Aoy nem acredita.

Ela aceita o convite e vai fazer o teste. O chef Paul é rude, grosseiro, impiedoso, brutal, um ogro (no decorrer do filme ele vai contar para Aoy os motivos de sua brutalidade, mas isso não vem ao caso). Ela sofre muito no teste, queima as mãos e os braços, mas passa no teste e é contratada. É a única mulher a integrar a equipe do chef Paul.

Aoy é muito boa no que faz, criativa, tem vocação, ela é acima da média e assim sendo aos poucos ela vai conquistando a simpatia de toda equipe do chef Paul, menos este que continua a maltratá-la e humilhá-la (não só ela, mas ele sempre esculacha toda a sua equipe sem dó nem piedade), pois esse é preço que se paga para trabalhar no restaurante do renomado chef Paul.

Nos almoços e jantares particulares servidos pelo chef Paul e equipe, os pratos sofisticados que Aoy elabora sempre impressionam e se destacam dos outros. Ela então recebe um convite de um magnata empreendedor que vai abrir um restaurante sofisticado e a convida para ser a chef que comandará a cozinha. Cansada das grosserias e a falta de ética profissional do chef Paul, Aoy se demite e aceita o convite. Daí em diante ela vai brilhar como chef.

O restaurante que Aoy comanda serve a alta classe social tal como o restaurante do seu ex-patrão chef Paul. Ela ganha fama a cada dia pela competência na criação de pratos requintados. Quando ela se dá conta, percebe que está tratando a sua equipe de cozinha da mesma maneira rude que o chef Paul a tratava, pois ela é extremamente perfeccionista e não admite erros.

Uma ricaça excêntrica então promove em sua mansão uma maratona gastronômica na qual dois famosos chefs disputarão o melhor prato da noite. A chef Aoy e o chef Paul são os escolhidos pela ricaça, pois são os dois mais famosos. Ex-funcionária e ex-patrão se enfrentarão numa disputa acirrada e bizarra palmo a palmo tal como acontece nos realities shows de culinária. Bem, não vou dar o spoiler sobre quem venceu, isto porque não tem tanta importância assim. A ficha da chef Aoy vai cair aqui (independente de vitória ou derrota a ficha ia cair de qualquer jeito) e ela vai tomar uma decisão que é a que ela deveria ter feito desde o início. Provavelmente o que qualquer boa cozinheira como ela teria feito se estivesse no lugar dela.

Quais as lições que podemos aprender dessa história? E mais uma vez, deixando de lado a qualidade ruim de produção cinematográfica que não é lá essas coisas, podemos ver os erros e acertos da jovem cozinheira Aoy, a sua capacidade de resiliência diante das brutalidades de seu patrão, os equívocos que ela cometeu ao se tornar uma chef de sucesso ao agir igual ao chef Paul ao lidar com sua equipe. Entretanto, Aoy trazia consigo um ingrediente a mais, o tempero secreto que fez a diferença e o nome desse tempero é Ética Profissional, coisa que o temido chef Paul nunca teve. Foi justamente a conduta ética de Aoy que a fez tomar a decisão correta.

Comentário (meio spoiler): A personagem que inspirou o filme (evidentemente não se chama Aoy) hoje é proprietária e chef de dois restaurantes: um deles é estrelado e especializado em comida mediterrânea; o outro é o antigo boteco do pai dela que ela transformou no mais famoso boteco gourmet da região. Com um pouco de sorte o cliente poderá degustar um prato executado por ela própria porque é nesse espaço que ela comanda a cozinha na maior parte do tempo. 


segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Remédios estóicos para o desemprego



*Por Jean-Louis Cianni


"Estóico vem do grego stoa, pórtico. O fundador da doutrina, Zenão de Cítio (por volta de 334-262 a.C), ensinava sob arcadas em Atenas. O desenvolvimento dessa grande escola de filosofia antiga é marcado por três etapas: o estoicismo antigo, o médio (dois séculos antes de Jesus Cristo) e o romano, cujos principais representantes são, Cícero, Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio, o imperador filósofo.

Como o epicurista, o estóico busca a ataraxia (ausência de perturbação), afastando da alma tudo que atordoa, e principalmente as paixões, que são como doenças. Todavia, o estóico não encontra o bem no prazer, mas na virtude (grifo meu), entendida precisamente como ausência de paixão (apatia). Se a filosofia fosse um esporte coletivo, diríamos que os estóicos jogam na defesa, enquanto os epicuristas preferem o jogo ofensivo.” [...]

“No início o remédio estóico pareceu-me pior que o mal. Esses homens sobre cujo exemplo eu lia pareciam-me dotados de uma energia e de uma coragem sobre-humanas. Era um objetivo alto demais para mim. Como chegar a um tal grau de renúncia, de autolimitação e lucidez? Eu não passava, afinal, de um ocidental da segunda metade do século XX. Não passara por nenhuma guerra, nenhuma catástrofe natural, nenhuma recessão econômica. Vivia na Eurolândia, desfrutava de proteção social francesa. Era filho de um país e de uma época abençoados, consumindo, desejando, divertindo-me. Será que ainda era capaz de ouvir uma única nota da áspera música estóica?

Pois fui capaz, aplicando, mediante alguns ajustes indispensáveis à minha capacidade, os exercícios básicos de uma filosofia que se pretendia essencialmente uma prática espiritual. Eis aqui três deles, cuja eficácia pude avaliar diretamente.

1- Estar atento a si mesmo. Os estóicos chamam esse primeiro movimento de prosoché. O ponto de partida da filosofia é a consciência da própria fraqueza, estima Epíteto. Implicava em que eu deixasse de fugir de mim mesmo, ou seja, que reconhecesse finalmente minha fraqueza, que a acolhesse. Além disso, a concentração estóica redunda em se distanciar dos próprios desejos e paixões. Praticando-a, eu podia ver que o sofrimento vinha de mim mesmo, e que, portanto, não era insuperável. Enfim, a vigilância estóica focaliza a consciência no instante presente. Desse modo, ela leva a abrir mão das esperanças enganosas e dos arrependimentos inúteis. Eu tinha que arrancar meu olhar do passado, daquela função perdida, daqueles ilusórios privilégios. O que doía era a frustração. O que paralisava era a espera da gratidão de uma sociedade que não daria mais nada e que eu devia agora rejeitar, como numa segunda adolescência, para existir por mim mesmo. Revolta: minha atitude mudava.

2- “Ter uma visão “física” das coisas. Os estóicos recomendam que vejamos os outros, especialmente os adversários, com o olhar do médico, como montes de órgãos e ossaturas. Tratei de aplicar esse método sem reservas a todos os personagens que assombravam minha vida de gerente desempregado. Os tubarões suíços e os consultores internacionais que me haviam eliminado: um montinho de ossos bem alinhados. A diretora da Anpe que me tratava com desprezo, idem. O gerente administrativo da faculdade que me varrera do mapa, a mesma coisa. Os avaliadores, os caçadores de talento, os júris e todos aqueles que me usaram gratuitamente, os falsos aliados, os falsos amigos, todos que me recalcavam em minha condição de desempregado, não por indiferença, mas porque encontravam nisso, decididamente, um interesse objetivo – considerando-se o número de colocações disponíveis no mercado – todos esses finalmente se viam reunidos, triturados, dissolvidos na unidade de sua essência, para formar, depois de conscienciosa aplicação do método estóico, um imenso e salutar ossário de imaculada brancura.

3- Pensar grande. Comecei a usar a imaginação. Decolava de pijama do meu escritório, voando pelo céu como Peter Pan; minha casa já não passava de um pontinho lá embaixo, Montpellier, o aeroporto, as praias... Tudo isso parecia bem distante, pequeno, ridículo. Eu via o mundo com a objetiva de um satélite. Ícaro estava vivo, retomava sua ascensão. Dessa vez, não era para se aproximar do sol, mas para decolar, antes de mais nada, de si mesmo e de suas ruinosas obsessões.

Todos esses exercícios, repetidos com a seriedade e o humor necessários, lançavam as bases de um novo regime de orientação e consciência. Eu não era mais diretor de nada nem de ninguém, nem membro de algum comitê diretor. Mas recuperava outro cargo, do qual fora afastado há muito tempo; eu mesmo. A partir de agora, era eu o estrategista, o piloto, o presidente executivo dessa empresa de mim mesmo.

Acrescento a esses exercícios aquele que sem dúvida mais me ajudou: a meditação. Os estóicos a consideram um diálogo consigo mesmo ou para si mesmo. Esse diálogo, difícil e tenso, permitiu-me ordenar o caos incontrolável de meus pensamentos, progressivamente transformando minha representação do mundo e da situação. Ele pode tomar a forma de um texto escrito, do que dá testemunho a obra de Marco Aurélio. O que funcionou para um imperador romano pode perfeitamente convir a um simples diretor de comunicação.”

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*Excertos extraídos do livro, A Filosofia como Remédio para o Desemprego, de Jean-Louis Cianni, editora Best Seller, 2009.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Um bom gestor sempre assume a responsabilidade e não deixa sua equipe na mão



Quando na copa do mundo de 2014 a seleção brasileira de futebol sofreu aquele fatídico placar de 7 a 1 da seleção alemã, ao término do jogo a primeira palavra que o técnico Luiz Felipe Scolari proferiu foi: “a culpa foi minha”, além de se manter presente o tempo todo após a derrota, consolar e receber até o último jogador em campo. Foram gestos e atitudes dignas de um treinador (ou chefe de equipe), aliás atitudes como essas é o mínimo que se espera de quem está no comando. Sair à francesa é como um capitão que pula do barco quando ele está afundando deixando todos os outros à deriva.

Ora, se um gestor se faz sempre presente quando recebe as devidas e merecidas láureas pelo sucesso de sua equipe, por que ele sairia de fininho, à francesa quando a missão ou a tarefa não foi bem sucedida? Naturalmente que existem as responsabilidades individuais de cada um, ou seja, algum colaborador se equivocou em algum momento da tarefa, algo deu errado, seja por mau planejamento ou equívocos cometidos de táticas ou estratégias. No entanto, é óbvio que a responsabilidade por não atingir a meta cabe ao gestor, ao líder. Ele ganha para isso caso contrário não seria gestor.

Um líder tem que ter o preparo suficiente para lidar tanto com a fama por ser um bom líder , bem como, pelo insucesso de alguma missão não cumprida. Não é à toa que o seu salário é consideravelmente maior do que os seus liderados, seu cargo é de confiança e como tal ele usufrui dos privilégios que são concedidos a quem exerce cargos de liderança. A presença do líder e a atitude de assumir responsabilidades nos momentos de derrota são necessárias sobretudo, como um bom exemplo a ser seguido pelos seus liderados. Uma equipe sempre se sente desconfortável quando seu líder dá sinais de se acovardar diante de derrotas.

Quem não se lembra do reality “O Aprendiz”? Embora e infelizmente não seja mais exibido no Brasil, o programa faz estrondoso sucesso em diversos países, sobretudo na Inglaterra, apresentado pelo carismático Lorde Alan Sugar. Em praticamente 95% dos casos de equipes que falham nas tarefas, o líder sempre assume a responsabilidade pela derrota ainda que ele não tenha culpa direta e na maioria das vezes recebe o fatídico “you’re fire!”, de Lorde Sugar. Lembrando que quando a equipe é vencedora, o líder também é festejado como um bom líder. O reality "O Aprendiz - The Apprentice" é uma verdadeira escola de como ser um bom ou mau líder.

Não há dúvida alguma que o técnico Tite da seleção brasileira falhou no comando. Não é a sua capacidade profissional que está sendo colocada em dúvida, mas a sua atitude como gestor. Naturalmente que derrotas também fazem parte do jogo, pois na disputa entre dois times pela vitória um deles terá que perder. O que importa é a atitude do gestor diante da derrota. Um capitão não pode pular do barco, um maestro não abandona a orquestra e nem o general deixa os seus soldados na mão. Entretanto, Tite nos deu uma inestimável lição, a saber: como um líder não deve agir diante de uma derrota: sair de fininho e largar sua equipe em campo como ele o fez!


segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Clare Torry: ela improvisou um poema sem letras e compôs uma obra prima da música




Em Novembro deste ano, Clare Torry completou 75 anos. Há cinquenta anos atrás ao entrar no estúdio Abbey Road para fazer um backing vocal, ela sequer imaginava que escreveria o seu nome na história como coautora de uma das mais belas músicas de todos os tempos, “The Great Gig In The Sky”. A música faz parte do premiadíssimo (que até hoje vende horrores!) e lendário álbum “The Dark Side Of The Moon” dessa tão fantástica banda, Pink Floyd. É considerado um dos mais belos vocais femininos de todos os tempos sem ter dito uma única palavra e uma das interpretações mais emocionantes já gravadas em um álbum musical. Aos fatos:

Podemos dizer que na década de 70, Clare, muito discreta não era uma cantora famosa. Ela era contratada como compositora de uma pequena gravadora na Inglaterra. Clare lançou alguns singles no estilo pop/romântico com músicas de sua própria autoria e também gravou covers sob o pseudônimo de Alice Pepper. Como ela tinha uma bela voz diferenciada, ela ganhava uns trocados a mais como freelance fazendo o backing vocals para diversos músicos. Foi então que em 1972 ela recebe um convite de um gênio, o engenheiro de som, Alan Parsons para fazer um trabalho no álbum de uma banda. Mas Parsons não disse a ela qual banda era. É preciso entender antes o próprio Alan Parsons e o que o Pink Floyd queria.

Alan Parsons foi o engenheiro de som que trabalhou no álbum Abbey Road, dos Beatles e foi o responsável por todos os efeitos sonoros no álbum The Dark Side of The Moon, do Pink Floyd. A música “The Great Gig in The Sky” até então era apenas algumas notas musicais no estilo bluesy/jazzy (com um andamento gospel, eu diria) composta no piano e órgão pelo virtuoso e saudoso tecladista da banda, Rick Wright. Também havia uma frase ao fundo de alguém falando sobre o medo da morte. O guitarrista David Gilmour teve a ideia de colocar sobre essas notas um vocal feminino, mas não sabia exatamente quem chamar. E aí entra Alan Parsons, ele disse que conhecia alguém. Parsons tinha produzido um álbum de covers no qual havia a participação de uma cantora com uma voz muito bacana: era Clare Torry! Ele a indicou para o trabalho. 

Clare recebeu o convite mas, sem saber do que se tratava, achava que era para fazer um backing vocal num coral de garotas como ela estava acostumada. Ela se apresentou no estúdio num domingo à noite e somente na hora ficou sabendo que se tratava da já famosa banda Pink Floyd. Na verdade, Clare não se empolgou (e nem os membros da banda com ela), não ocorreu uma empatia entre ambos. O seu estilo era outro e bem diferente, mais direcionado à música pop/romântica e não tinha afinidade alguma com o som tão complexo do Pink Floyd. Mesmo assim, corajosa ela aceitou o desafio. E atenção aqui: ter aceitado esse desafio fez a diferença para sempre na vida dela.

Primeira e segunda tentativas frustradas

Gilmour disse para Clare improvisar alguma coisa sobre aquelas notas musicais de piano. Na primeira tomada ela arriscou alguns scats jazzísticos do tipo “Ooh Baby Ooh Baby Yeah Yeah Baby”. E Gilmour disse, “não, não, não é isso que queremos” e explicou a ela o conceito do álbum que falava sobre angústias, depressão e que a música significava a luta da vida contra a morte. De novo ela improvisa scats jazzísticos um pouco mais alongados mas ainda não era isso, não estava bom, disseram a ela que se fosse para fazer aquilo havia cantoras que fariam melhor do que ela!

Terceira tentativa: "boom!"

Clare pediu para passar mais uma vez a trilha do piano e disse para ela mesma: “e seu fingisse que fosse um instrumento musical”? Olhou para Alan Parsons e disse: “aperte a luz vermelha de gravação”. Então, ela fechou os olhos, soltou a voz e o que ela fez ali naquele momento é absolutamente desconcertante, é o que ouvimos na gravação! Ela nunca tinha cantado dessa maneira antes. Nem ela e nem ninguém! Quando ouvimos a melodia, acreditamos que Clare está seguindo uma partitura musical, só que não, na verdade ela é quem está compondo, vocalizando, construindo e improvisando uma melodia sobre as notas musicais criadas pelo piano de Rick.  Ela não ensaiou antes, foi assim mesmo no improviso do momento. Como ela disse anos depois, "foi um boom espontâneo".

Quando ela terminou e abriu os olhos, estavam todos atônitos, chocados, em silêncio absoluto, ninguém havia entendido ainda o que tinha acontecido ali, nem mesmo Clare. Como ninguém da banda disse uma palavra sequer, ela achou que não foi bem e que não agradou. Ela pediu desculpas! Se despediu e recebeu as 30 libras pelo trabalho, como combinado! Isso mesmo, 30 libras, e isso porque era domingo, fosse dia normal seriam 15 libras. Como ela mesma disse depois, “para mim foi apenas mais um dia de trabalho”. Ela não fazia a menor ideia da obra prima que havia acabado de compor (só veio a descobrir quando o álbum foi lançado e ela a ouviu cantando). Ela conseguiu expressar brilhantemente através da sua vocalização dramática exatamente o que a melodia queria transmitir: a luta da vida contra a morte. É a única faixa do álbum que não tem efeitos sonoros, Parsons achou tão perfeita que não quis colocar efeitos, apenas jogou um eco bem suave no microfone de Clare.

Quando o álbum foi lançado, o nome de Clare constava apenas nos créditos como vocalista da faixa e não como coautora, fato esse, vamos combinar, foi uma baita sacanagem da banda. Mas ela não se importou, não reclamou na época a sua significativa contribuição ainda que essa faixa fosse e ainda é uma das mais comentadas do álbum em razão do seu vocal icônico. Daí em diante, ela recebeu muitas propostas de trabalho e participou de álbuns de músicos de peso como por exemplo, a própria banda Alan Parsons Project, Procol Harum, Meat Loaf, Kevin Ayers, Olivia Newton-John, Culture Club,  Roger Waters, Tangerine Dream, TV-2, etc. 

O vocal de Clare em “The Great Gig In The Sky”, até hoje é tema de análises e debates, sobretudo entre as professoras de canto e voz. Algumas delas, já confessaram que jamais conseguiriam fazer o que Clare fez com a voz. O controle absurdo da respiração, a maneira como ela articula e “assopra” as vogais, as ondulações de beltings, melismas e vibratos que contrastam com a voz da cabeça, do maxilar e a voz do peito formam uma peça musical única e irreproduzível. Nenhuma cantora conseguiu repetir exatamente o que Clare fez. Nas apresentações ao vivo do Pink Floyd, é preciso três cantoras para a execução dessa música. Mas Clare explicou que para uma só cantora executar a peça é um trabalho muito cansativo para as cordas vocais, por isso são necessárias duas ou três cantoras.

The Great Gig In The Sky é uma das campeãs de vídeos reaction no Youtube. Músicos e cantores dos mais diversos gêneros musicais quando ouvem a música pela primeira vez ficam hipnotizados e chocados com o trabalho de Clare; algumas cantoras de música gospel já acostumadas com muita emoção captam a mensagem da música logo que Clare começa a vocalizar, e elas não conseguem segurar as lágrimas. E um detalhe muito surpreendente : essa melodia já salvou vidas! Há inúmeros depoimentos a esse respeito. Muitas pessoas relatam que essa melodia ajudou-as a superarem momentos sombrios de suas vidas trazendo-lhes paz e luz. E sim, a Música pode salvar vidas (dê um google).

As lições que tiramos disso:

- Coragem, determinação e autoconfiança: Clare foi no escuro, sem saber o que lhe esperava, é quase como se ela fosse fazer um teste. Quando ela chegou no estúdio e tomou conhecimento do que se tratava, ela poderia ter desistido, mas não,  encarou o desafio, ainda que não tivesse afinidade musical alguma com o trabalho do Pink Floyd. Lembrando que ela era uma crooner de seção de estúdio e pouco conhecida, embora ela soubesse compor. Além disso, o fato de ela ser escolhida pelo engenheiro que trabalhou com os Beatles lhe deu uma tremenda autoconfiança a tal ponto de não querer desapontar quem a indicou, no caso, Alan Parsons.

– Resiliência, determinação, suportar pressão: Nas duas primeiras tentativas ela falhou miseravelmente a tal ponto de chegar a ser hostilizada por um dos membros da banda. Fosse outra cantora de pavio curto poderia ter encerrado ali mesmo e ter dito: “bye bye, procurem outra”. Mas ela não se importou com o esculacho que levou, teve casca grossa, aguentou firme, respirou fundo e foi para a terceira tentativa (e com certeza quantas mais ela conseguisse) cujo resultado nós já sabemos qual foi, porque aquela noite era para ela brilhar absoluta, ainda que ela não soubesse.

- Naquela noite no estúdio, ela descobriu que poderia cantar daquela maneira, coisa que ela nunca tinha feito antes. Aconteceu no lugar certo, na hora certa. Não é incomum durante a vida as pessoas descobrirem que são portadoras de talentos que até então desconheciam. De repente, a pessoa descobre que tem vocação para pintura, escultura, gastronomia, jardinagem, dramaturgia música, seja tocando algum instrumento ou talento para o canto, para dança, etc. Também que às vezes podemos fazer as coisas de maneira diferente como estamos habituados a fazer e que poderá nos tornar mais talentosos e abrir novos caminhos, novos horizontes.

Clare subiu ao palco com o Pink Floyd para interpretar a melodia apenas duas vezes: em 1973 no Rainbow Theatre  e em 1990 no espaço Knebworth Park. E de novo, aos 52 anos de idade ela barbarizou dando uma nova interpretação na obra que ela própria construiu. Finalmente em 2004 quando se aposentou ela entrou com uma ação contra o Pink Floyd requerendo os royaltes e a coautoria da composição. Um acordo extrajudicial foi firmado cujo valor não foi revelado e a partir de então o nome de Clare Torry passou a constar como coautora da peça musical ao lado de Rick Wright em todos os álbuns do Pink Floyd. Em 2010 ela recebeu da Ivors Academy, do Reino Unido o prêmio BASCA Gold Badge Awards em reconhecimento à sua contribuição original e única para a música.

E mais uma vez, a improvisação de uma cantora foi protagonista de uma peça musical única, original, uma obra prima da música. “E se eu fingisse que fosse um instrumento musical?” Deus do céu, como ela pôde ter esse insight ("boom", como ela disse) naquele momento? Na rara entrevista que Clare concedeu, ela disse que coisas assim acontecem apenas uma vez na vida e que ainda acha estranho tudo o que aconteceu ali. Pensou um pouco e disse: "naquela noite, Deus sorriu para mim!". Por que não? Afinal, ela compôs uma peça musical que já salvou vidas! Uau! E acredito fortemente que essa melodia continuará salvando muitas vidas mais.

Obs: Após o prelúdio de introdução, o vocal de Clare começa em 1:06





segunda-feira, 7 de março de 2022

Prepare-se para um péssimo dia de trabalho




“Faça o melhor com o que estiver em seu poder, e apenas aceite o que vier a acontecer. Algumas coisas estão ao nosso alcance e outras coisas não estão”. (Epiteto)

Puxa vida, mas por que é que isso foi acontecer? Aonde eu errei? Ou, por essa eu não esperava. Ou ainda, tinha que acontecer justamente comigo? São frases que muitas pessoas já se fizeram a si próprias, foram pegas de surpresa diante de uma situação que com certeza não esperavam, sobretudo no ambiente de trabalho. Naturalmente que ao chegar ao trabalho ninguém espera que algo ruim possa acontecer, ou seja, uma discussão? um erro grotesco? um projeto que deu errado? Pois eu digo que tudo isso pode acontecer sim e às vezes tudo ao mesmo tempo. Quem já não passou por isso?

É aquele chefe que ao chegar você dá um caloroso bom dia e ele não responde ou aquela colega que por não estar em bom dia lhe trata com rispidez, um cliente insatisfeito que no calor do momento lhe fala uns desaforos no telefone, lhe chama de incompetente e bate o telefone na sua cara, a folha de pagamento que não fecha de jeito nenhum, a reconciliação bancária que não bate, o balancete que não fecha, o supervisor que manda você refazer o relatório que você fez naquele capricho e até mesmo uma advertência injusta. 

Sim, devemos estar preparados para tudo isso e mais um pouco porque temos a capacidade de superar qualquer situação. As lições dos filósofos estóicos são  remédios indicados nessas situações. Ocorre que a tendência no geral é darmos uma importância muito grande sobre essas situações indesejáveis ou alimentarmos uma expectativa muito alto em relação aos feedbacks no ambiente de trabalho, eu até já escrevi alguns artigos sobre essas questões.

A solução para isso pode ser simples, a escolha da maneira de encarar e agir será sempre escolha nossa. Apesar de simples pode não ser fácil para algumas pessoas, sobretudo aquelas que sobrepõem as emoções à razão. Com muito estudo, treino, empenho e a prática podemos tirar de letra qualquer dessas situações citadas. Vamos lá:

- Pense sempre que tudo pode dar errado

- Nunca aumente suas expectativas de reconhecimento

- Concentre-se no que é possível controlar e aceite o que não pode ou  não  esteja a seu alcance.

- A razão sempre deve se sobrepor à emoção.

"Se recebi uma injúria, é necessário que ela tenha sido feita; se foi feita, não é necessário que eu a tenha recebido" (Sêneca)

Quando entrei para o mercado de trabalho eu tinha 15 anos, comecei como office-boy e foi um começo muito punk, nada agradável, escreverei sobre isso em breve. Logo em seguida quando iniciei em RH, caiu-me nas mãos um livro que muito me ajudou a enfrentar as mazelas do ambiente de trabalho. Trata-se do livro “Sobre Heróis e Tumbas”, do escritor argentino Ernesto Sábato. Esse livro foi considerado o melhor romance argentino do século XX. Grosso modo é a história da decadência de uma família aristocrática e o relato da morte do general Juan Lavelle. Há um personagem na trama chamado Fernando e que passa por terríveis situações, mas sempre permanece inabalável tirando de letra todas elas. Então, uma personagem pergunta a Fernando qual o segredo de ele sempre se dar bem e sair ileso dessas situações. Ele responde: “É que eu sempre espero o pior!” Essa frase me marcou. Claro, Fernando é o personagem estóico da trama. Experimentei na prática e sempre deu certo.

Mas é isso! É claro que ao chegarmos ao trabalho não vamos torcer para que tudo dê errado, uma boa dose de otimismo nunca é demais, no entanto, devemos sim estar preparados para o que der e vier para não sermos pegos de surpresa, até mesmo por uma inesperada carta de demissão, por que não?

Portanto, é sempre bom às vezes lembrar as prudentes e sábias palavras de Marco Aurélio em suas Meditações: "hoje eu encontrarei pessoas intrometidas, ingratas, arrogantes, desonestas, invejosas e grosseiras". Isso poderá ocorrer e se ocorrer, lembremos também Jordan Peterson, "costas eretas e ombros para trás", estejamos preparados então para um péssimo dia de trabalho e se preparados estivermos não será tão péssimo assim.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

Quer ser reconhecido pelo seu trabalho? Esquece isso, seja estoico, seja inabalável



“Não espere que tudo aconteça como você deseja, mas sim como tudo realmente deve acontecer; então sua vida irá fluir bem.” – Epiteto


Por todas as empresas pelas quais passei ouvi queixas de funcionários se lamentando que o chefe ou o próprio empregador não reconheciam o seu trabalho ou dedicação. Ainda hoje ouço essas queixas. Infelizmente para essas pessoas, as respostas que eu tenho para essa questão elas não gostam muito de ouvir, é claro. Na verdade elas queriam declarações de veneração de seus chefes, gostariam de ouvir do empregador, “nossa, o que seria da empresa sem você?” e coisas do gênero. Essas pessoas não entendem que o reconhecimento profissional não se dá dessa maneira. 

Frequentemente tenho contato com profissionais depressivos dizendo que se demitiram ou vão se demitir (mesmo em plena crise!) em razão da falta de reconhecimento dos empregadores pelos seus trabalhos. São pessoas dedicadas, honestas, leais, raramente faltam ao trabalho, fazem tudo certinho, são excelentes profissionais e por essas razões gostariam de um olhar mais simpático ou por parte de seus chefes ou dos empregadores. Esquecem de um detalhe importantíssimo: estão empregadas e ganhando razoavelmente bem! Quando eu as lembro disso já me olham com desconfiança.

Peço a essas pessoas então para definirem o que elas entendem por “reconhecimento de trabalho”, e as respostas são as mais absurdas possíveis, pois carregam uma carga emocional que dificilmente alguém realmente suportaria. Ocorre é que alguns profissionais alimentam uma altíssima expectativa de reconhecimento pelo seus desempenhos cujo feedback do empregador jamais irá satisfazê-los. O profissional sempre acredita na maioria das vezes que ele dá muito mais de si do que recebe em troca. Evidentemente que nem todos pensam assim.

Bem, a relação de trabalho se estabelece através de um contrato de trabalho seja ele tácito ou expresso no qual o empregado oferece um produto, a sua mão de obra ou expertise profissional, e o empregador se obriga a remunerá-lo pelos serviços prestados. Não existem cláusulas contratuais que obriguem o empregador a dar tapinhas nas costas do empregado cada vez que o encontra pelos corredores da empresa, convidá-lo para o churras de final de semana e reconhecer o seu trabalho na forma dos mais diversos elogios ao gosto do empregado. Não, isso não vai rolar, nunca, ainda que o empregador sinta vontade de fazê-lo. Conheço alguns que até o fazem mas isso é bem raro de ocorrer.

Bons líderes têm a vocação de detectar esse tipo de baixa autoestima de seus liderados para então direcioná-los para uma postura mais estoica ou mesmo resiliente. Ao menos que esse tipo de situação ocorra com o próprio líder e daí não podemos deixar de observar que se isso ocorrer fará dele um profissional não habilitado para assumir uma liderança de equipe. O líder deve manter um ambiente cordial e motivador.

Doses maciças de estoicismo resolvem essa questão facilmente. Para quem ainda não conhece essa corrente filosófica, o Estoicismo é uma escola de filosofia helenística fundada na Grécia, em Atenas, por Zenão de Cítio no início do século III A.C. Os estoicos ensinaram que as emoções destrutivas resultavam de erros de julgamento, da relação ativa entre determinismo cósmico e liberdade humana e a descendência de que é virtuoso. Desenvolveu-se como um sistema integrado pela lógica, pela física e pela ética. Um sábio é sempre imune ao infortúnio.  Atualmente o sentido de ser estoico é estar blindado à dor, tristeza, alegria e prazer. As quatro virtudes principais do estoicismo são: Sabedoria, Justiça, Coragem e Moderação.

Podemos afirmar então que o Estoicismo é uma poderosa ferramenta de resiliência, uma poderosa armadura para podermos enfrentar de maneira inabalável qualquer tipo de situação. A literatura ficcional e autobiográfica estão repletas de personagens estoicos, por exemplo: Coragem sob Fogo (James Stockdale), Em Busca de Sentido (Viktor Frankl), O Sono Eterno (Raymond Chandler), O Tufão (Joseph Conrad), O Velho e o Mar (Ernest Hemingway), além das obras dos próprios filósofos estoicos tais como, Epiteto, Sêneca e Marco Aurélio. No cinema também podemos encontrar grandes exemplos de personagens estoicos como, por exemplo, O Sol Nasce Para Todos (personagem: o advogado Atticus Finch), Um Sonho de Liberdade (personagem: Andy Dufresne), Capitão Phillips (personagem: Richard Phillips) e tantos outros. 

Portanto, o reconhecimento profissional pode vir (ou não!) de várias maneiras: através de aumento salarial, promoção, prêmios, bonificações e até mesmo um convite para trabalhar em outra empresa com maior salário. Palavras gentis de reconhecimento? É sempre bom ouvi-las, porém, é de bom senso não esperar por elas, além de não alimentar altas expectativas de feedback do empregador. O bom profissional sabe que é expert no que faz e com certeza o seu empregador também sabe disso. O bom profissional, aquele que faz a diferença sabe que é virtuoso e como diz uma sábia frase do filósofo Sêneca, "a virtude é suficiente para a felicidade". Isso basta, o que vier de ruim atingirá a armadura e se desmanchará no ar.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Dica de Leitura: Davi e Golias : A Arte de Enfrentar Gigantes – Malcolm Gladwell


Há uns 15 anos atrás através da indicação de um amigo tive a oportunidade de ler o primeiro livro de Malcolm Gladwell, “Ponto de Equilíbrio”, escrito no ano de 2000 e que se tornou um best-seller mundial. Após a leitura dessa obra prima, imediatamente percebi que estava diante de um tremendo escritor, tornando-me um leitor assíduo de suas obras. Cada livro de Gladwell, obtemos um manancial de cultura e conhecimentos dos quais jamais iremos nos esquecer. E com Davi e Golias: A Arte de Enfrentar Gigantes, não poderia ser diferente.


Malcolm Gladwell é um jornalista britânico, licenciado em História, atualmente reside em Nova Iorque. Orador palestrante e colunista da revista The New Yorker. Seus artigos e livros partem de suas pesquisas em Ciências Sociais, especificamente em sociologia e psicologia social. Ao lado de Jordan Peterson e Nassim Nicholas Taleb, Gladwell é um dos nomes mais lidos e citados no setor corporativo, sobretudo nos setores de administração e recursos humanos.


No livro Davi e Golias, já na primeira parte nos deparamos com um tema muito atrativo: “As vantagens das desvantagens e as desvantagens das vantagens”. Pode parecer inacreditável, mas foram apenas duas frases proferidas pelo ameaçador gigante Golias que fizeram com que a sagacidade do jovem pastor Davi ganhasse o combate atirando a pedra que pode atingir Golias de maneira letal. Foram essas as duas frases proferidas pelo gigante Golias ao jovem Davi.


“Venha aqui e darei sua carne às aves do céu e aos animais do campo!”


“Por acaso sou um cão, para que você venha contra mim com pedaços de pau?”


Não vou dar o spoiler (para quem ainda não leu o livro) de como Davi pensou rápido diante dessas duas frases que revelaram a fraqueza de Golias para então tombar o gigante com o arremesso de uma pedra em sua testa. Claro, Davi era também um exímio fundibulário.


Todos os capítulos têm como fio condutor o exemplo da sagacidade do pastor Davi. São histórias reais de situações limites aparentemente sem solução alguma que ocorreram tanto com personagens importantes da história, como por exemplo, Martin Luther King, bem como, com personagens anônimas ou desconhecidas. Todas elas utilizando insights que costumamos desprezar no dia a dia, conseguiram enxergar uma nesga de raio de luz na própria desvantagem em que se encontravam para fazerem dela uma vantagem surpreendente.


E assim o livro passa pela história dos pintores franceses impressionistas que, ridicularizados pelos críticos da época e pelas importantes galerias que rejeitavam seus trabalhos, quando tudo parecia estar perdido, um inacreditável insight dos pintores Monet e Pissarro tirou o grupo do anonimato projetando-os para o reconhecimento mundial; passa pelo conflito da Irlanda do Norte contando a resiliência de pessoas que sobreviveram ao ataque de granadas e bombas da bestialidade das tropas inglesas; conta a história de como um disléxico se tornou um importante jurista e assim por diante.


Ademais, Gladwell discorre com maestria sobre a ilusão de se escolher uma universidade de renome pra cursar (o que vale mais, ser um peixe pequeno numa lagoa grande ou ser um peixe grande numa lagoa pequena?), sobre o equívoco das ações afirmativas, do tremendo erro dos profissionais do ensino que acreditam que a redução de alunos por classe seja a solução para uma boa educação e muito mais.


Uma entre tantas lições que aprendemos com Gladwell é a seguinte: “Coragem não é algo que você já tem e o torna destemido quando tempos difíceis começam. Coragem é o que você conquista quando passou por tempos difíceis e descobriu que não são tão difíceis assim”.


Pessoas que agem e tomam atitudes como Davi correm riscos, riscos estes que a maioria das pessoas desaprova e muitas delas não estão dispostas a correr. Portanto, temos nas mãos não apenas um livro, mas um verdadeiro manual de como tirar vantagens das desvantagens, sendo que estas no dia a dia não são poucas e estão sempre presentes e que se agigantam como o gigante Golias diante de nossos olhos dando-nos a falsa impressão que não há mais nada a fazer. Vivemos em tempos de enfrentar gigantes e tal como o jovem Davi, devemos ter a coragem e a audácia de derrubá-los todos.


segunda-feira, 27 de março de 2017

Resiliência: habilidade de suportar a dor e manter-se de pé

Vamos falar hoje sobre Resiliência. Mas o que isso significa exatamente? O termo teve origem na Física e descreve a capacidade e o tempo que um material leva para se recompor. Esse termo acabou sendo apropriado pela Psicologia para aplicar à habilidade das pessoas de se recuperar de perdas, traumas, adversidades, etc. A psicologia a define como “um conjunto de forças que provocam mudanças psicológicas protetoras dentro de nós quando sofremos algum tipo de ataque”. 

O tema vem sendo estudado a exaustão por psicólogos e psiquiatras para descobrir os motivos que algumas pessoas superam rapidamente adversidades pesadas enquanto outras jogam a toalha numa simples situação de perda, por exemplo, no enfrentamento de uma demissão repentina.

Os recrutadores de pessoal têm procurado entre os candidatos aqueles com potencial de resiliência, porém, pouquíssimos a possuem. Além disso, a resiliência não é um atributo fácil de se detectar num candidato num processo de seleção, nem mesmo uma dinâmica de grupo pode apontar aquele que a possui.

Entre tantos autores que se debruçaram sobre o tema Resiliência, podemos destacar os estudos do psiquiatra Frederic Flach, autor de um dos melhores livro sobre o tema, “Resiliência, a Arte de Ser Flexível”, editora Saraiva, e também do fantástico psiquiatra austríaco Viktor Frankl, fundador da escola de Logoterapia, também conhecida como “Terceira Escola Vienense de Psiquiatria”, que explora o sentido existencial do indivíduo e a dimensão espiritual de sua existência.

Frankl é autor de vasta bibliografia que aborda o tema, sendo o livro “Em Busca de Sentido", um dos mais importantes e recomendáveis para aqueles que desejam desenvolver ou aperfeiçoar o seu potencial de resiliência.

A resiliência está diretamente ligada à autoestima. Esta difere de pessoa a pessoa e normalmente está ligada diretamente ao sucesso profissional, situação financeira e aceitação no ambiente, ou seja, como a pessoa é vista pelos outros ou mesmo seus pares no ambiente em que vive.

A chave apontada pelos especialistas no tema para aumentar o potencial de resiliência se resume em: criatividade + equilíbrio. Comecemos pelos traços característicos nas pessoas resilientes. Esses traços estavam presentes nas pessoas estudadas pelos especialistas, pessoas com alto potencial de resiliência, ainda que elas não tivessem consciência disso e muitas delas em condições precárias de vida.

- Capacidade de suportar dor
- Alta percepção de si próprio
- Independência na medida certa
- Autonomia para enfrentar desafios
- Habilidade de fazer amizades
- Habilidade de recuperar a autoestima
- Habilidade criativa para viver em diferentes níveis
- Capacidade de sempre aprender
- Compartilhar experiências com outras pessoas
- Vontade de viver.

E como se consegue tudo isso? Não é fácil, a princípio pode até parecer simples, mas não é, pelo contrário, os autores recomendam algumas atividades em conjunto que nunca se estancam. Vamos a elas:

- Criatividade
- Ficar longe de influências negativas
- Saber rir de si próprio
- Ler, ir ao cinema, conversar, caminhar, escrever.
- Praticar uma ocupação manual 
- Praticar uma atividade artística (aumento da percepção dos sentidos)
- Dar atenção somente ao que se pode ter controle
- Autodisciplina, que só se obtém com muito treino.
- Solidariedade
- Seletividade nas escolhas das pessoas

Tudo isso deverá ser aplicado tendo como diretriz a chave criatividade- equilíbrio. Por exemplo: A criatividade não de dever ficar restrita à determinadas atividades, porém deve ser utilizada o tempo todo em nossas vidas; excesso de dependência ou independência constante pode acabar inibindo a própria criatividade e aqui entra a capacidade de ter equilíbrio.

 Vejamos três trechos significativos do livro do Dr.Frederic Flach:

“O ato criativo não cria alguma coisa do nada. Na verdade, organiza, relaciona e sintetiza fatos já existentes, ideias, pontos de referência.” 

“Alguns de nós somos atraídos em direção à fragilidade, uma excessiva necessidade de sermos dependentes dos outros boa parte do tempo, e, como resultado disso, o emprego efetivo de nossas energias criativas, em qualquer área, acaba sendo bloqueado”.

“Obviamente a maioria de nós não tem muito poder para influenciar diretamente o destino deste mundo maior. Devemos, porém, aprender a sobreviver dentro dele (grifo meu). Podemos, com certeza, desenvolver a habilidade e de criar estruturas resilientes dentro de nossas esferas mais modestas, e projetar um caminho seguro, livre das influências destrutivas, para nós e para nossas famílias”.

Para concluir, a imagem de uma cena do filme Rocky, Um Lutador, que ilustra esse texto, revela esplendidamente a resiliência do personagem cuja habilidade é suportar a dor por longo tempo, manter-se de pé, recuperar o sentido de sua vida e sair vitorioso.

Obs: Indico aqui uma pequena relação de filmes que abordam conceitos ligados à resiliência, tais como, autocontrole, superação, empatia, conquista de pessoas, etc.

- Rocky, Um Lutador
- O Escafandro e a Borboleta
- O Pianista
- À Procura da Felicidade
- A Tênue Linha da Morte
- A Felicidade não se Compra
- Ferrugem e Osso
- A Caça
- Um Sonho de Liberdade
- A Vida é Bela
- O Tempo do Lobo
- Dançando no Escuro
- A Liberdade é Azul
- Viver (1952) de Akira Kurosawa

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Leitura recomendada: A Filosofia como Remédio para o Desemprego - Jean-Louis Cianni

Livro: A Filosofia como Remédio para o Desemprego
Autor: Jean-Louis Cianni
Editora: Best Seller

Oportuna e deliciosa leitura proporcionada pelo jornalista Jean-Louis Cianni. Cianni foi diretor durante sete anos do departamento de comunicação da companhia francesa aérea Air Littoral. Quando a empresa foi vendida para um grupo suíço, muitos funcionários foram demitidos e entre eles, Jean-Louis Cianni que se viu desempregado aos 49 anos de idade, que diga-se de passagem, é uma péssima idade para  perder o emprego.

E foi a partir deste ponto, que Cianni que desfrutava de sua posição de diretor de comunicação numa zona de conforto, constatou que as pessoas que o cercavam e o adulavam sumiram na poeira da noite para o dia, e que network é apenas uma palavra moderninha que só funciona quando você está numa posição de gestor, no andar de cima, porém quando está desempregado, no subsolo, não produz efeito algum. Os amigos simplesmente desaparecem. Dura constatação, mas a pura realidade, salvo raríssimas exceções. Vejamos esse trecho:

“Você dispõe de uma rede de colegas, relações de trabalho e outros conhecimentos, com inúmeras ramificações. Foi capaz de tecê-la com os fios dos serviços prestados, da reputação profissional, das afinidades eletivas e das alianças objetivas. Julga-se em condições de acioná-la mediante simples contato. Ilusão. Leva vários meses para perceber e aceitar. Essa rede urbana é na realidade um labirinto deserto onde vive escondida uma multidão de Minotauros.”

Na condição de candidato a um novo emprego, Cianni já sabia do destino final (desnecessário dizer o qual) dos currículos e cartas de apresentação que enviava, pois quando diretor recebia também centenas deles e sabia muito bem o que fazer com eles. 

Não obstante sua vasta experiência profissional, Cianni amargou alguns anos de desemprego a tal ponto de comparar, acertadamente, a situação como uma experiência de morte da identidade social pela retirada do reconhecimento do outro. “A imagem que frequentemente me vem à mente é a do homem vendo ir embora, no mar, o navio de onde caiu.”

Formado em Filosofia, Cianni decidiu então recorrer à sua biblioteca e buscar na galeria dos filósofos que o formaram, o receituário que prescreveria as doses diárias de pílulas filosóficas que fariam com que enfrentasse essa difícil e dura realidade do desemprego.

Dialogou com Sócrates, Diderot, Pirro, Spinoza, Epicuro, Diógenes, Santo Agostinho, Schopenhauer, Sêneca e tantos outros. Sabiamente, encontrou neles as respostas, a força e a postura de como reagir diante das adversidades e de temas caros como a solidão, o desprezo, a perda dos amigos, a busca do autoconhecimento, a angústia, a dor espiritual, a felicidade e até mesmo a morte, pois como já dito, Cianni teve uma experiência de morte de identidade social quando demitido.

Aprendeu com o filósofo Diógenes uma grande lição: “o proveito que se extrai da Filosofia é ser capaz de viver em companhia de si mesmo”. Com Epicuro aprendeu a sobreviver, a se reerguer e avançar, numa palavra que tudo resume, aprendeu a resiliência. E o resultado dessa jornada é este instigante livro escrito com elegante e agradável estilo sem o pedantismo da linguagem filosófica.

De grande inspiração, não traz o emprego de ninguém de volta, mas desperta a maneira de enxergar o campo de trabalho, a carreira e a profissão através de infinitas perspectivas. Uma grande lição de resiliência.

No trabalho do Freelancer não pode haver relação de subordinação

Existem muitas dúvidas razoáveis de Freelancers que atuam no mercado de trabalho. Tais dúvidas se traduzem principalmente em reclamações pel...