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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Leitura recomendada: Davi e Golias : A Arte de Enfrentar Gigantes – Malcolm Gladwell


Há uns 15 anos atrás através da indicação de um colega de profissão tive a oportunidade de ler o primeiro livro de Malcolm Gladwell, “Ponto de Equilíbrio”, escrito no ano de 2000 e que se tornou um best-seller mundial. Após a leitura dessa obra prima, imediatamente percebi que estava diante de um tremendo escritor, tornando-me um leitor assíduo de suas obras. Cada livro de Gladwell, obtemos um manancial de cultura e conhecimentos dos quais jamais iremos nos esquecer. E com Davi e Golias: A Arte de Enfrentar Gigantes, não poderia ser diferente.

Malcolm Gladwell é um jornalista britânico, licenciado em História, atualmente reside em Nova Iorque. Orador palestrante e colunista da revista The New Yorker. Seus artigos e livros partem de suas pesquisas em Ciências Sociais, especificamente em sociologia e psicologia social. Ao lado de Jordan Peterson e Nassim Nicholas Taleb, Gladwell é um dos nomes mais lidos e citados no setor corporativo, sobretudo nos setores de administração e recursos humanos.

No livro Davi e Golias, já na primeira parte nos deparamos com um tema muito atrativo: “As vantagens das desvantagens e as desvantagens das vantagens”. Pode parecer inacreditável, mas foram apenas duas frases proferidas pelo ameaçador gigante Golias que fizeram com que a sagacidade do jovem pastor Davi ganhasse o combate atirando a pedra que pode atingir Golias de maneira letal. Foram essas as duas frases proferidas pelo gigante Golias ao jovem Davi.

“Venha aqui e darei sua carne às aves do céu e aos animais do campo!”

“Por acaso sou um cão, para que você venha contra mim com pedaços de pau?”

Não vou dar o spoiler (para quem ainda não leu o livro) de como Davi pensou rápido diante dessas duas frases que revelaram a fraqueza de Golias para então tombar o gigante com o arremesso de uma pedra em sua testa. Claro, Davi era também um exímio fundibulário.

Todos os capítulos têm como fio condutor o exemplo da sagacidade do pastor Davi. São histórias reais de situações limites aparentemente sem solução alguma que ocorreram tanto com personagens importantes da história, como por exemplo, Martin Luther King, bem como, com personagens anônimas ou desconhecidas. Todas elas utilizando insights que costumamos desprezar no dia a dia, conseguiram enxergar uma nesga de raio de luz na própria desvantagem em que se encontravam para fazerem dela uma vantagem surpreendente.

E assim o livro passa pela história dos pintores franceses impressionistas que, ridicularizados pelos críticos da época e pelas importantes galerias que rejeitavam seus trabalhos, quando tudo parecia estar perdido, um inacreditável insight dos pintores Monet e Pissarro tirou o grupo do anonimato projetando-os para o reconhecimento mundial; passa pelo conflito da Irlanda do Norte contando a resiliência de pessoas que sobreviveram ao ataque de granadas e bombas da bestialidade das tropas inglesas; conta a história de como um disléxico se tornou um importante jurista e assim por diante.

Ademais, Gladwell discorre com maestria sobre a ilusão de se escolher uma universidade de renome pra cursar (o que vale mais, ser um peixe pequeno numa lagoa grande ou ser um peixe grande numa lagoa pequena?), sobre o equívoco das ações afirmativas, do tremendo erro dos profissionais do ensino que acreditam que a redução de alunos por classe seja a solução para uma boa educação e muito mais.

Uma entre tantas lições que aprendemos com Gladwell é a seguinte: “Coragem não é algo que você já tem e o torna destemido quando tempos difíceis começam. Coragem é o que você conquista quando passou por tempos difíceis e descobriu que não são tão difíceis assim”.

Pessoas que agem e tomam atitudes como Davi correm riscos, riscos estes que a maioria das pessoas desaprova e muitas delas não estão dispostas a correr. Portanto, temos nas mãos não apenas um livro, mas um verdadeiro manual de como tirar vantagens das desvantagens, sendo que estas no dia a dia não são poucas e estão sempre presentes e que se agigantam como o gigante Golias diante de nossos olhos dando-nos a falsa impressão que não há mais nada a fazer. Vivemos em tempos de enfrentar gigantes e tal como o jovem Davi, devemos ter a coragem e a audácia de derrubá-los todos. 


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Líder corajoso ou irresponsável?



Por Joseph L. Badaracco, Jr.*


"Há alguns anos, pouco antes de começar uma aula, achei que tinha cometido um grande erro. Seria uma discussão sobre liderança com um grupo de executivos da diretoria de minha escola, Eram pessoas muito ocupadas, e fiquei imaginando quantos teriam lido o trabalho de casa. A aula era num sábado de manhã cedo, depois de um jantar na véspera, e eu também não sabia se todos estariam despertos. E, pior de tudo, eu havia pedido a esses executivos de mente prática e lógica para lerem um conto pouco conhecido: “The Secret Sharer” (O cúmplice secreto) de Joseph Conrad. Semanas antes, a experiência me parecera interessante, mas agora eu desejava ter escolhido um desses casos tradicionais analisados nas escolas de negócios.

O único aspecto positivo da situação era o conto em si. Ele descreve um homem na sua primeira viagem como capitão de navio. Uma noite, fazendo a ronda, ele deixa que um estranho misterioso suba a bordo. O sujeito diz que acabou de escapar da prisão de outro navio, onde foi injustamente acusado de assassinato. O capitão acredita, esconde o homem durante vários dias, e depois leva o navio para perto de uma costa perigosa para que o estranho possa nadar até a praia.

Iniciei a aula com alguns comentários de introdução e em seguida perguntei: “O que vocês acharam de interessante ou polêmico nessa história?” Meu objetivo era simplesmente fazer algumas pessoas falarem. Várias mãos ergueram-se na mesma hora. Um executivo chamou o capitão de idiota por ter aceitado um estranho no navio, em primeiro lugar. Outro, ex-oficial da marinha, disse que teria se recusado a navegar sob a direção de alguém tão irresponsável.

Agora tinha uma nova preocupação – a de que o debate tornasse por demais unilateral -, mas recorri a um grande executivo, um CEO muito respeitado. Ele olhou em volta e disse: “Aposto que a maioria de vocês já fez coisas semelhantes, e não estariam aqui se não tivessem feito.” Os melhores jovens, ele acrescentou, arriscam-se, testam-se e aprendem com o que acontece. Quando ele terminou, várias mãos se levantaram. Ansiosas para comentar ou discordar.

Passei o resto da aula escutando, em vez de liderar, uma discussão. A conversa tratou de muitas questões importantes. O capitão estava pronto para assumir suas responsabilidades? O que suas atitudes revelam sobre o seu caráter? O grupo estava interessadíssimo, argumentando sobre o capitão e falando de suas próprias experiências. De fato, mais ou menos um ano depois, um colega meu encontrou alguém que tinha participado do debate, e que ainda queria continuar falando sobre o capitão.

O que aconteceu na sala de aula naquela manhã? Por que a discussão despertou tanto entusiasmo? Um feliz acaso sem dúvida ajudou, como em qualquer aula boa. Uma artimanha também favoreceu o debate: os executivos tinha sido induzidos a tratar uma obra de ficção como o estudo de um caso típico de uma escola de negócios. Esse truque foi importante porque muita gente associa literatura com discursos acadêmicos obscuros sobre imagens freudianas ou desconstrução: análises de casos, por outro lado, são ferramentas familiares no ensino da arte de administração.

Mas alguma coisa, além disso, estava acontecendo. O caso do capitão encontrou eco entre os executivos. Nenhum deles havia comandado um navio mercante no Sudeste da Ásia, mas a história que Conrad inventou sobre o que é assumir responsabilidade soava verdadeira. E também levantou várias dúvidas sobre liderança que os executivos reconhecem como críticas, e o fato de estarem inseridas na narrativa os fez pensar nessas questões em termos pessoais. Eles iam e vinham, com facilidade e naturalmente, dos desafios que o capitão tinha de enfrentar para aqueles que encontravam em suas próprias carreiras. A história de Conrad funcionou como um excelente espelho: olhando de perto nosso capitão, os executivos refletiam sobre si mesmos como líderes."


*Texto extraído do livro "Uma Questão de Caráter: como a literatura ajuda a identificar a essência da liderança", de Joseph L. Badaracco, Jr, editora Rocco.





segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Começo de ano é sempre bom repassar as 12 regras para a vida: um antídoto para o caos, de Jordan Peterson





REGRA 1: Costas eretas, ombros para trás

REGRA 2: Cuide de si mesmo como cuidaria de alguém sob sua responsabilidade

REGRA 3: Seja amigo de pessoas quer queiram o melhor para você

REGRA 4: Compare a si mesmo com quem você foi ontem, não com quem outra pessoa é hoje.

REGRA 5: Não deixe que seus filhos façam algo que faça você deixar de gostar deles

REGRA 6: Deixe a sua casa em perfeita ordem antes de criticar o mundo

REGRA 7: Busque o que é significativo, não o que é conveniente

REGRA 8: Diga a verdade, ou pelo menos, não minta

REGRA 9: Presuma quer a pessoa com quem está conversando possa saber algo que você não sabe

REGRA 10: Seja preciso no que diz

REGRA 11: Não incomode as crianças quando estão andando de skate

REGRA 12: Acaricie um gato ao encontrar um na rua


segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Sobre a liberdade de errar, segundo Ludwig von Mises*




“O fato é que, no sistema capitalista, os chefes, em última instância, são os consumidores. Não é o Estado, é o povo que é soberano. Prova disto é o fato de que lhe assiste o direito de ser tolo. Este é o privilégio do soberano. Assiste-lhe o direito de cometer erros: ninguém o  pode impedir de cometê-los, embora, obviamente, deva pagar por eles. Quando afirmamos que o consumidor é supremo ou soberano, não estamos afirmando que está livre de erros, que sempre sabe o que melhor lhe conviria. Muitas vezes os consumidores compram ou consomem artigos que não deviam comprar ou consumir.

Mas a ideia de que uma forma capitalista de governo pode impedir, através de um controle sobre o que as pessoas consomem, que elas se prejudiquem, é falsa. A visão do governo como autoridade paternal, um guardião de todos, é própria dos adeptos do socialismo. Nos Estados Unidos, o governo empreendeu certa feita, há alguns anos, uma experiência que foi qualificada de “nobre”. Essa “nobre experiência” consistiu numa lei que declarava ilegal o consumo de bebidas tóxicas. Não há dúvida de que muita gente se prejudica ao beber conhaque e uísque em excesso. Algumas autoridades nos Estados Unidos são contrárias até mesmo ao fumo. Certamente há muitas pessoas que fumam demais, não obstante o fato de que não fumar seria melhor para elas. Isso suscita um problema que transcende em muito a discussão econômica: põe a nu o verdadeiro significado da liberdade.

Se admitirmos que é bom impedir que as pessoas se prejudiquem bebendo ou fumando em excesso, haverá quem pergunte: “Será que o corpo é tudo? Não seria a mente do homem muito mais importante? Não seria a mente do homem o verdadeiro dom, o verdadeiro predicado humano?” Se dermos ao governo o direito de determinar o que o corpo humano deve consumir, de determinar se alguém deve ou não fumar, deve ou não beber, nada poderemos replicar a quem afirme: “Mais importante ainda que o corpo é a mente, é a alma, e o homem se prejudica muito mais ao ler maus livros, ouvir música ruim e assistir a maus filmes. É pois dever do governo impedir que que se cometam esses erros.”

E como todos sabem, por centenas de anos os governos e as autoridades acreditam que esse era de fato o seu dever. Nem isso aconteceu apenas em épocas remotas. Não faz muito tempo, houve na Alemanha um governo que considerava seu dever discriminar as boas e más pinturas – boas e más, é claro, do ponto de vista de um homem que, na juventude, fora reprovado no exame de admissão à Academia de Arte, em Viena: era o bom e o mau segundo a ótica de um pintor de cartão-postal. E tornou-se ilegal expressar concepções sobre arte e pintura que divergissem daquelas do Füher supremo.

A partir do momento em que começamos a admitir que é dever do governo controlar o consumo de álcool do cidadão, que podemos responder a quem afirme ser o controle dos livros e das ideias muito mais importante?

Liberdade significa realmente liberdade para errar. Isso precisa ser bem compreendido. Podemos ser extremamente críticos com relação ao modo como nossos concidadãos gastam seu dinheiro e vivem sua vida. Podemos considerar o que fazem absolutamente insensato e mau. Numa sociedade livre, todos têm, no entanto, as mais diversas maneiras de manifestar suas opiniões sobre como seus concidadãos deveriam mudar seu modo de vida: eles podem escrever livros; escrever artigos; fazer conferências. Podem até fazer pregações nas esquinas, se quiserem – e faz-se isso, em muitos países. Mas ninguém deve tentar policiar os outros no intuito de impedi-los de fazer determinadas coisas simplesmente porque não se quer que as pessoas tenham a liberdade de fazê-las.”

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*Excertos extraídos do capítulo II do livro "As Seis Lições", de Ludwig von Mises, editora José Olympio, RJ, 1979

segunda-feira, 2 de junho de 2025

As 48 Leis do Poder aplicadas nas relações de trabalho


O livro “As 48 Leis do Poder”, de Robert Greene desde que foi lançado no mercado editorial sempre está no ranking dos mais vendidos. Suas lições são aplicáveis nos negócios, na política, nas relações pessoais e nas relações de trabalho.  Para escrever o livro, Greene pesquisou e compilou ensinamentos, táticas e estratégias de destacadas figuras da história que vão desde Plutarco, Nietzsche, Schopenhauer, Montaigne, Galileu Galilei, La Fontaine, Bob Fischer, Abraham Lincoln, reis, políticos, diplomatas, etc.

Cada uma das 48 leis é ilustrada com casos e acontecimentos reais ao longo da história. Obviamente não concordo com todas, pois algumas delas implicam em ter que abrir mão da conduta ética, ainda que essa condição não esteja explícita, para manipular pessoas na intenção de atingir o resultado esperado.

Tive o cuidado de selecionar seis delas que podemos aplicar nas relações de trabalho sem correr o risco de faltar com a Ética Profissional.

LEI 4 – DIGA SEMPRE MENOS DO QUE O NECESSÁRIO

Quando você procura impressionar as pessoas com palavras, quanto mais você diz, mais comum aparente ser, e menos controle da situação parece ter. Mesmo que você esteja dizendo algo banal, vai parecer original se você o tornar vago, amplo e enigmático. Pessoas poderosas impressionam e intimidam falando pouco. Quanto mais você fala, maior a probabilidade de dizer besteira.

LEI 9 – VENÇA POR SUAS ATITUDES, NÃO DISCUTA

Qualquer triunfo momentâneo que você tenha alcançado discutindo é na verdade uma vitória de Pirro: o ressentimento e a má vontade que você desperta são mais fortes e permanentes do que qualquer mudança momentânea de opinião. É muito mais eficaz fazer os outros concordarem com você por suas atitudes, sem dizer uma palavra. Demonstre, não explique.

LEI 16 – USE A AUSÊNCIA PARA AUMENTAR RESPEITO E A HONRA

Circulação em excesso faz os preços caírem: quanto mais você é visto e escutado, mais comum vai parecer. Se você já se estabeleceu em um grupo, afastando-se temporariamente se tornará uma figura mais comentada, até mais admirada. Você deve saber quando se afastar. Crie valor com a escassez.

LEI 28 – SEJA OUSADO

Inseguro quanto ao que fazer? Não tente! Suas dúvidas e hesitações contaminarão os seus atos. A timidez é perigosa: melhor agir com coragem. Qualquer erro cometido com ousadia é facilmente corrigido com mais ousadia. Todos admiram o corajoso; ninguém louva o tímido.

LEI 34 - SEJA ARISTOCRÁTICO AO SEU PRÓPRIO MODO, HAJA COMO UM REI

A maneira como você se comporta em geral determina como você é tratado: a longo prazo, aparentando ser vulgar ou comum, você fará com que as pessoas o desrespeitem. Pois um rei respeita a si próprio e inspira nos outros o mesmo sentimento. Agindo com realeza e confiança nos seus poderes, você se mostra destinado a usar uma coroa.

LEI 47 – NÃO ULTRAPASSE A META ESTABELECIDA: APRENDA A PARAR

O momento da vitória é quase sempre o mais perigoso. No calor da vitória, a arrogância e o excesso de confiança podem fazer você avançar além de sua meta e, ao ir longe demais, você conquista mais inimigos do que derrota. Não deixe o sucesso subir à cabeça. Nada substitui a estratégia e o planejamento cuidadoso. Fixe a meta e, ao alcança-la, pare.

Bem, apresentei apenas seis leis dentre as quarenta e oito citadas pelo autor que considerei importantes e necessárias no que tange às relações de trabalho, embora o profissional que atua no setor possa se beneficiar de outras mais. Posso garantir por experiência própria que a LEI 4, bem como a LEI 9 funcionam muito bem cujo lema em essência é "falar menos e agir mais", afinal, como sempre tenho dito aqui, falastrões nunca são vistos com bons olhos pela maioria dos empregadores. Quanto ao livro, é altamente recomendável, no entanto devo enfatizar: leia-o com moderação.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Zora Neale Hurston: ampliando os horizontes*




"Para a escritora Zora Neale Hurston (1891-1960), a infância representou uma espécie de era de ouro. Ela cresceu em Eatonville,na Flórida, cidade que representava uma espécie de anomalia no Sul. Fundada como uma cidade só de negros na década de 1880, os próprios cidadãos exerciam seu governo e gestão. Suas dificuldades e sofrimentos eram responsabilidade dos próprios habitantes. Zora não sabia o que era racismo. Voluntariosa e corajosa passava boa parte do tempo sozinha, vagueando pela cidade.

Naqueles anos, tinha duas grandes paixões. Primeiro, amava os livros. Lia tudo o que lhe caía nas mãos, mas sentia atração especial por livros sobre mitologia grega, romana e nórdica. Identificava-se com os personagens mais fortes – Hércules, Ulisses, Odin. Segundo, adorava ouvir histórias dos habitantes locais, quando eles se reuniam em suas varandas para fofocar ou contar casos, muitos dos quais remontavam aos anos de escravidão. Admirava aquelas narrativas – as ricas metáforas, as lições simples. Na mente dela, os mitos gregos e os contos dos cidadãos de Eatonville se mesclavam numa única realidade – a natureza humana revelada em sua forma mais pura. Caminhando sozinha, ela dava asas à imaginação e narrava suas histórias estranhas a si mesma. No futuro, ela as poria no papel e se transformaria na Homero de Eatonville.

Mas em 1904 a morte de sua mãe daria um fim abrupto à sua era de ouro. Foi a mãe quem sempre a protegera e a resguardara do pai, que a achava estranha. Ansioso por se livrar da filha, ele a despachou para uma escola em Jacksonville. Poucos anos depois, parou de pagar as mensalidades escolares e a abandou à própria sorte. Durante cinco anos, ela errou por sucessivas casas de parentes. Trabalhou em todos os tipos de emprego, principalmente como empregada doméstica.

Após uma infância de grande aprendizado, quando parecia não haver limites para o que podia explorar, seu presente se transformara no oposto. Desgastada pelo trabalho e pela depressão, tudo ao seu redor a oprimia, a ponto de seus pensamentos se restringirem a seu próprio mundo minúsculo e triste. Em breve, seria difícil imaginar qualquer coisa além de limpar casas.

O paradoxo que ela ainda não enxergava é que a mente é essencialmente livre. A imaginação é capaz de viajar para qualquer ligar no tempo e no espaço. Ela só se manteria confinada se assim desejasse. Por mais impossível que parecesse, ela não podia desistir de seu sonho de se tornar escritora. Mas, para realiza-lo, teria que se instruir e continuar expandindo seus horizontes mentais, por todos os meios necessários. Os escritores precisam conhecer o mundo. E, assim pensando, Zora Hurston persistiu em proporcionar a si mesma dos mais notáveis processos de autoaprendizagem de que se tem notícia.

Uma vez que só conseguia trabalho como faxineira, ela procurava serviço nas casas das pessoas brancas mais ricas da cidade – onde encontrava muitos livros. Sempre que podia, pegava um livro escondida e lia trechos ao acaso, memorizando rapidamente algumas passagens para refletir sobre elas nas horas vagas. Um dia, encontrou no lixo um exemplar de “Paraíso Perdido”, de Milton. Foi como descobrir ouro. Levava-o para onde fosse e o lia repetidas vezes. Dessa maneira, sua mente não estagnou, e ela desenvolveu para si mesma um tipo estranho de educação literária.

Em 1915, conseguiu emprego como criada pessoal da prima-dona de uma companhia teatral itinerante composta exclusivamente de artistas brancos. Para a maioria das pessoas, essa seria mais uma posição subserviente, mas, para Zora, foi um presente. Quase todos os membros da trupe eram cultos. Por toda parte havia livros para ler e conversas interessantes para entreouvir. Ao observá-los com atenção, ela percebia o que se considerava sofisticação no mundo dos brancos, e como poderia encantá-los com suas histórias de Eatonville e seu conhecimento de literatura. Como parte do emprego, foi treinada para ser manicure. Mais tarde, ela usaria essa habilidade para trabalhar nas barbearias de Washington, perto do Capitólio. A clientela incluía os homens mais poderosos da época, e, com frequência, eles fofocavam entre si, como se ela não estivesse presente. Para Zora, isso era tão bom quanto ler um livro – e a experiência lhe ensinou muito sobre a natureza humana, sobre o poder e o funcionamento do mundo dos brancos.

Aos poucos, seu mundo se expandia, mas ela ainda estava sujeita a grandes limitações em relação a onde podia trabalhar, aos livros que encontrava e às pessoas q quem tinha acesso e com quem se relacionava. Estava aprendendo, mas sua mente continuava desestruturada e seus pensamentos, desorganizados. O que precisava, concluiu, era uma educação formal e da disciplina daí resultante. Aos 25 anos parecia jovem para a idade, e, assim, reduzindo em 10 anos a data de nascimento no pedido de matrícula, foi admitida em uma escola pública de ensino médio em Maryland.

Zora teria que extrair o máximo dessa oportunidade – seu futuro dependia disso. Leria muito mais livros que o exigido e trabalharia com afinco nos exercícios de redação. Faria amizade com os professores, explorando o charme que desenvolvera ao longo dos anos e cultivando os tipos de relacionamentos que se esquivavam dela no passado. Dessa maneira, poucos anos depois, ingressou na Universidade Howard, principal instituição de ensino superior para negros, onde passou a interagir com importantes figuras do mundo literário negro. Com a disciplina que desenvolvera na escola, passou a escrever contos. Até que, com a ajuda de um de seus conhecidos, conseguiu publicar um conto em um prestigioso periódico literário do Harlem. Aproveitando todas as oportunidades que apareciam, resolveu deixar Howard e se mudar para o Harlem, onde moravam todos os escritores e artistas negros importantes. Essa decisão acrescentaria outra dimensão ao mundo que ela finalmente estava explorando.

Zora passou a observar pessoas importantes –brancas e negras – e aprendeu como impressioná-las. Agora, em Nova York, ela explorou essa habilidade, encantando vários brancos afluentes do mundo das artes. Por meio de uma dessas figuras, obteve oportunidade de se matricular na Barnard College, onde poderia concluir a educação universitária. Ela seria a primeira e a única aluna negra da instituição. Sua estratégia sempre foi continuar avançando e se expandindo, por isso aceitou a oferta. Os alunos brancos de Barnard se sentiram intimidados com sua presença – seus conhecimentos em numerosas áreas superavam em muito o deles. Vários professores do departamento de antropologia se renderam ao seu fascínio e a enviaram para uma excursão pelo Sul, onde deveria reunir contos e narrativas folclóricas. Ela queria aprofundar seu conhecimento da cultura negra, com toda sua riqueza e diversidade.

Em 1932, com a depressão assolando Nova York e reduzindo suas oportunidades de emprego, ela retorna à Eatonville, Lá, poderia viver com pouco, e a atmosfera seria inspiradora. Então tomou empréstimos com os amigos e começou a escrever seu primeiro romance. De algum lugar profundo, todas as suas vivências e sua experiência de aprendizagem prolongada e multifacetada vieram à tona – as histórias da infância, os livros que havia lido, os vários insights sobre a face sombria da natureza humana, os estudos antropológicos, os diversos encontros em que prestara atenção com tanta intensidade. Esse romance “Jonah’s Gourd Vine”, narrou o relacionamento dela com os pais, mas foi, na verdade, a destilação de todas as suas vivências. Foi algo que transbordou dela em poucos meses de trabalho intenso.

O romance foi publicado no ano seguinte e se tornou um grande sucesso. Nos anos subsequentes, ela escreveu outros romances em ritmo frenético. Logo se tornou a mais famosa escritora negra de sua época e a primeira mulher negra a ganhar a vida com literatura.

A história de Zora Neale Hurston revela da forma mais crua possível a realidade da fase de aprendizagem – ninguém vai ajuda-lo ou orientá-lo. Caso seu intuito seja aprender e se preparar para a maestria, você terá que fazê-lo por conta própria e determinação. A exemplo de Zora, você precisa lutar contra todas as limitações e se empenhar o tempo todo em expandir seus horizontes. Ler livros e todo material disponível além do que lhe é exigido é sempre uma boa estratégia [...].

Com a expansão de seus horizontes, você redefinirá os limites de seu mundo aparente. Em breve, ideias e oportunidades baterão à sua porta, e sua aprendizagem naturalmente se completará".

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 *Texto extraído do capítulo II, do livro "Maestria", de Robert Greene, editora Sextante- 2013 - Rio de Janeiro

segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Maestria: seja o melhor na sua profissão, qualquer que seja ela

“Vocação é a felicidade de ter como ofício a paixão pelo o que você faz” (Stendhal)

Robert Greene é conhecido pelo seu espetacular livro “As 48 Leis do Poder” que até hoje está entre os livros mais vendidos praticamente no mundo todo. Em “Maestria”, Greene nos apresenta um guia infalível de como alcançar a maestria e ser o melhor em qualquer profissão que seja. Formado em Estudos Clássicos, o autor mergulhou em pesquisa profunda sobre a vida dos grandes mestres da humanidade e traçou os pontos em comum desses mestres nos revelando quais eram os métodos que eles utilizaram para alcançar à maestria profissional a tal de ponto de revolucionar as áreas nas quais atuavam. De quais mestres estamos falando?

Estamos falando de: Leonardo da Vinci, Albert Einstein, Wolfgang von Goethe, Mozart, John Coltrane, Ingmar Bergman, Os irmãos Wright, Marcel Proust, Marta Graham, Henry Ford, Teresita Fernández e muitas outras personagens contemporâneas. Quais pontos ligam esses mestres? O que eles têm em comum? A resposta é fácil: é a metodologia de trabalho utilizada em comum por todos eles. Essa metodologia envolve um pacote (e bem pesado!) de ferramentas diversas que todas essas figuras se utilizaram para atingir a maestria profissional.

Em primeiro lugar, Greene esclarece que para se atingir a maestria não é possível alcançá-la de maneira fácil, pelo contrário, o processo é longo e pode levar anos, em média 10 anos para se dizer o mínimo. A própria biografia de cada mestre desses citados assinala que todos eles não alcançaram a maestria num estalar de dedos. Em segundo, o sucesso financeiro de cada um deles nunca foi o alvo a ser atingido e sim a consequência natural do que eles produziam.

Vamos enumerar aqui alguns pontos que se traduzem em ferramentas e hábitos em comum desses mestres:

- Descubra a sua vocação .A sua vocação é a sua missão de vida

- Cultivar diversos campos do conhecimento e estabelecer conexões entre eles. Isso se dá através de muitas leituras, estudo e pesquisa incansável.

- Cultivar o hábito de possuir cadernos de anotações para registrar as lições aprendidas dos temas estudados para criar uma justaposição de fragmentos.

- Tomar nota imediatamente quando ocorrer uma ideia. Para isso é necessário estar sempre munido de um caderno ou caderneta de anotação.

- Expandir os conhecimentos. Ser um armazém de conhecimentos de nada adianta se esses conhecimentos não forem passados adiante. Ensinar o que se sabe é uma maneira de fortalecer o domínio do tema em questão. Quanto mais se ensina mais o tema é dominado.

- Ter paixão pelo que faz.

- Criar o hábito de lidar com questões complexas e incômodas. Com o tempo essa postura vai criar habilidade para se sentir à vontade diante de qualquer situação caótica.

- Se afastar das qualidades negativas que autor denomina “As 7 características Fatais”, que são: inveja, conformismo, rigidez, egocentrismo, preguiça, inconstância e agressão passiva.

Pois bem, esses e outros pontos citados no livro são pontos em comum de todos esses mestres citados entre outros. Porém, a chave que abrirá portas e caminhos para a maestria reside no seguinte ponto e que vale repeti-lo: - Cultivar diversos campos do conhecimento e estabelecer conexões entre eles. Isso se dá através de muitas leituras, estudo e pesquisa incansável. Isso quer dizer que de nada adianta armazenar conhecimentos em diversas áreas e deixa-los estanques ou estacionados. É imprescindível estabelecer correlação entre eles. Foi estabelecendo conexões entre os conhecimentos adquiridos que essas pessoas se tornaram grandes mestres em suas profissões.

Só para citar o escritor Wolfgang Goethe, autor dos clássicos “Fausto” e “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, estudou por conta própria diversos campos de seu interesse e que o tornou expert em Economia, História, Literatura, Óptica, Geologia, Ciência Política, Botânica, Química, Estética e Meteorologia. Ao lermos Goethe é fácil perceber a presença desses campos do conhecimento em suas obras.

Os Irmãos Wright (Wilbur e Orville), inventores e pioneiros da aviação, desenvolveram a primeira máquina  voadora mais pesada que o ar eram proprietários de uma oficina que consertava bicicletas. Praticamente não tinham nenhum recurso financeiro e nem contavam com subsídio do governo para a invenção do planador. Por conta própria, se debruçaram sobre o estudo de Física, Matemática, os desenhos e esboços de Leonardo Da Vinci sobre planadores e muitos livros sobre pássaros. O resultado foi o Wright Flyer autopropelido que efetuou o primeiro voo controlado em 17 de Dezembro de 1903.

E nada mais oportuno do que encerrar essa resenha citando o mestre Nietzsche:

“Os gênios, por mais que façam primeiro aprenderam a juntar tijolos para depois aprender a construir, e sempre buscam materiais ao redor dos quais sejam capazes de desenvolver-se”.

E você que já descobriu a sua vocação e quer atingir a mestria na sua profissão? Então, marca texto na mão, comece agora pela leitura desse fantástico livro.


segunda-feira, 29 de julho de 2024

As 16 lições do sucesso de Napoleon Hill



Seguem abaixo as 16 lições, também denominadas leis para se atingir o sucesso propostas pelo escritor Napoleon Hill em sua obra magna “A Lei do Triunfo”.

Lei I:

Desenvolver uma mente mestra - o conceito de Master Mind

Lei II:

A criação de um propósito ou objetivo principal definido

Lei III:

Ter confiança em si próprio

Lei IV:

Adquirir o hábito da economia

Lei V:

Ter iniciativa e liderança

Lei VI:

Explore a sua imaginação

Lei VII:

Alimentar constantemente o entusiasmo

Lei VIII:

Ter autocontrole sobre as emoções

Lei XIX:

Fazer sempre mais que o esperado, fazer mais que a obrigação

Lei X:

Desenvolva uma personalidade empática e atraente

Lei XI

Pensar com precisão

Lei XII:

Criar foco e concentração em tudo que fizer

Lei XIII:

Usar o poder da cooperação

Lei XIV:

Tirar proveito dos fracassos

Lei XV:

Ser tolerante

Lei XVI:

Siga a Regra de Ouro (aqui o autor se refere a ter um código de conduta Ética)

As 16 lições estão desenvolvidas e detalhadas minuciosamente nas 671 páginas do livro "A Lei do Triunfo", editora José Olympio.


segunda-feira, 27 de maio de 2024

Algumas notas sobre Napoleon Hill e sua obra "A Lei do Triunfo"




Quem acompanha os meus artigos sabe que sou um crítico contumaz da literatura de autoajuda (que eu chamo também de literatura de fancaria), pois o propósito da maioria dos autores desse segmento é levar o termo autoajuda ao paroxismo e, portanto, engordar a sua própria conta bancária fazendo de seus leitores as suas próprias vítimas. Porém, como toda regra tem a sua exceção eu deixo de fora desse clube da pilantragem pouquíssimos autores cujas obras escritas contribuíram realmente para o desenvolvimento profissional e pessoal seja como empregado ou como empreendedor. Um deles que vale a pena ler é o polêmico escritor americano, Napoleon Hill.

Napoleon Hill (1883-1970) naturalmente dispensa comentários. Apesar de receber muitas críticas e ser considerado por alguns até mesmo um picareta e charlatão, três livros dele valem muito a pena: “Quem Pensa Enriquece”, “Mais Esperto que o Diabo” e “A Lei do Triunfo”. Este último é a sua magnum opus, de leitura obrigatória é um dos livros mais estudados no mundo. Quanto aos dois primeiros citados, é preciso estuda-los utilizando alguns filtros, mas nem por isso de menos importância.

Os detratores de Hill o acusam de não colocar em prática o que ele próprio ensinava em seus livros. Como não?  A trajetória de Hill transitava do céu ao inferno em curto espaço de tempo, talvez por não ser um bom administrador de seus negócios. Foi traído por seus sócios, teve bens bloqueados, procurado pela justiça, chegou a ser preso, fato que ele mesmo narra em "A Lei do Triunfo". Ora residia em mansões e desfilava de Rolls-Royce, ora morava de favor com seus filhos. Então, há que se perguntar: como é que Hill se recuperava facilmente e refazia a sua vida em tão curto espaço de tempo? Fácil resposta: colocando em prática o que ele ensinava em seus livros, ou seja, transformava os fracassos em experiências motivadoras que recomeçar praticamente do zero.

Vejamos uma passagem de sua obra “A Lei do Triunfo”.

“Seja qual for a nossa ocupação, todos os dias nos encontramos diante de uma oportunidade para ser útil aos outros, independentemente dos nossos deveres habituais. Prestando um serviço adicional, sabemos naturalmente que não podemos esperar por pagamento. Prestamos esse serviço porque ele nos proporciona meios de exercitar, desenvolver e tornar mais forte o espírito de iniciativa que devemos possuir, a fim de alcançar uma posição de destaque no campo da atividade que escolhemos”.

Hill foi um leitor voraz do filósofo Ralph Waldo Emerson e seus livros são permeados por diversas citações do filósofo americano. Hill foi o criador do conceito “Master Mind”, as lições que Hill transmite em seus livros não são fórmulas mágicas para se se dar bem na vida ou ficar rico. Seus ensinamentos têm como foco princípios e valores, tais como: a formação do caráter, a conduta ética profissional, honestidade inegociável, cultivar a autoestima, a dedicação no trabalho para atingir a excelência profissional e estar sempre pronto a perdoar inimigos ou detratores. Seguindo rigorosamente esses princípios, não é difícil se reerguer de negócios que não deram certo e transformar situações de fracassos em experiência motivadores. E isso Hill fez muito bem, a sua história e trajetória de vida falam por si.

Portanto, afirmar que Hill não usou de seus próprios conhecimentos em sua trajetória é uma tremenda falácia, uma inverdade, caso contrário ele não teria dado a volta por cima facilmente em todas as situações difíceis pelas quais passou. Os seus ensinamentos serão sempre necessários seja na vida pessoal ou na vida profissional na condição de empregado ou empreendedor. Napoleon Hill é sempre um autor bem vindo, nos momentos mais difíceis, ele sempre nos entregará sábias lições de como lidar com fracassos ou adversidades. Em algum momento de nossas vidas, tropeçamos algumas vezes nessas situações e as lições de Napoleon Hill são fortes antídotos contra elas e um dos mais eficazes é sem dúvida alguma a sua mais importante obra, "A Lei do Triunfo". Use e abuse, não há contraindicação.


segunda-feira, 23 de outubro de 2023

O Salário do Medo – Georges Arnaud (Leitura recomendada)

 



“A sensibilidade não deixa de ter lugar ao volante de um caminhão” (Georges Arnaud)


O Salário do Medo foi o romance de estreia do escritor francês Georges Arnaud. Escrito no ano de 1950, imediatamente recebeu aplausos da crítica e do público sendo traduzido para diversas línguas tornando-se um best seller mundial. A história se passa numa cidadela da Guatemala com toques autobiográficos em razão do escritor ter residido algum tempo naquele país tendo contato com alguns dos personagens da trama. Quatro corajosos motoristas aceitam fazer um transporte de nitroglicerina em caminhões precários, verdadeiras latas velhas e detonados, dirigindo por estradas esburacadas e lamacentas no fio da navalha dos precipícios. Um solavanco mais forte e tudo irá pelos ares.

A trama se passa numa pequena cidade pobre de nome Las Libras. A única empresa local é uma multinacional americana chamada Crude que explora poços de petróleo naquela região. Fora os habitantes indígenas nativos, a maioria dos outros habitantes é formada por marginais egressos de outros países, tais como, desertores, ex-marinheiros, ex-mercenários, contrabandistas, fugitivos foras da lei, etc. Toda essa gente foi para lá numa situação emergencial para ficar poucos dias. Entretanto, entrar na cidade é fácil, mas para sair o valor da passagem seja por balsa ou avião particular é um preço absurdo e praticamente impossível de se conseguir. A única diversão local é um boteco do tipo “pé sujo” de nome “Corsário Negro” no qual esse pessoal se encontra para se embebedar e trocar suas mágoas.

Ocorre um incêndio em dos poços de petróleo. Evidentemente que esse fogo não vai se apagar facilmente. Os engenheiros então decidem que a solução é a explosão total do poço em chamas e para isso precisarão de mil e quinhentos quilos de nitroglicerina que serão transportados por caminhões.  Da sede da companhia de onde partirão os caminhões são quinhentos quilômetros de distância. Elaboram então um anúncio para o recrutamento dos motoristas:

“Contratam-se excelentes motoristas de caminhões. Trabalho perigoso. Salários elevados. Dirigir-se ao RH da Cia.”

Vinte candidatos se apresentam, quando tomam conhecimento do tipo de carga metade desiste da vaga. Os dez restantes fazem os testes. Quatro são aprovados: o francês Gérard Sturmer, o romeno Johnny Mihalescu, o italiano Luigi Stornatori e o espanhol Juan Bimba. O transporte será feito em dois caminhões modelo KB7. Gérard revezará o volante com Johnny e Luigi revezará com Bimba. O francês Gérard é o principal personagem central e Johnny em seguida. O autor do livro não dá mais informações sobre Luigi Stornatori e Juan Bimba. Cada um dos motoristas receberá a importância de mil dólares por viagem.

Gérard Sturmer já trabalhava como peão de obra na Cia de petróleo Crude. É um fugitivo da lei, foi garimpeiro, contrabandista, motorista de fuga e pode-se dizer exímio motorista, um ás no volante. Já dirigiu pesados caminhões subindo e descendo ladeiras escarpadas nos Andes, atravessou pontes de madeira podre sobre rios, fazia os diabos ao volante. Gérard tem uma namorada chamada Linda que é garçonete no boteco Corsário Negro. Johnny Mihalescu foi chofer na Romênia, entende de mecânica de autos, se meteu com o crime organizado, assassinou uma pessoa e teve que fugir vindo parar em Las Libras.

Os dois caminhões (que não têm amortecedores!) já carregados partem no começo do anoitecer e deverão chegar ao destino antes do sol nascer, pois a carga não poderá aquecer para não entrar em combustão e explodir. Luigi e  Bimba saem na frente, Gérard e Johnny partem meia hora depois. Gerárd e Johnny têm perfis completamente opostos; Gérard é sarcástico e muito seguro ao volante; Johnny é o tipo reclamão, meio dandi, fala diversas vezes em desistir durante o trajeto e sente-se bem desconfortável quando tem que assumir o volante no revezamento. Os dois não se entendem muito bem.

As situações de perigo chocantes que essa dupla passou ao volante deixarei para o leitor saborear na leitura desse instigante livro. Posso adiantar que graças às habilidades, perícia e sensibilidade acima da média que Gérard demonstrou no domínio do caminhão beira ao surreal. O cara realmente foi um monstro ao volante durante o trajeto. Porém, ocorre um incidente grave: já próximo ao destino o KB7 atolou na lama e empacou. Johnny desce do caminhão para guiar Gérard enquanto este acelerava e virava o volante e nada de sair do atoleiro. Está muito escuro, Johnny escorrega na lama, cai de costas e a roda direita do caminhão passa sobre sua perna. Não havia caixa de primeiros socorros, apenas uma garrafa de rum. Gérard esta fora si, banhado de suor, as mãos já em carne viva de tanto esterçar o volante; Johnny terá poucos minutos de vida. Antes de falecer, Johnny revela um truque a Gérard que vai tirar o caminhão do atoleiro. O truque consiste em amarrar uma corda no eixo das rodas traseiras e a outra ponta num tronco de árvore. O truque funciona, o caminhão salta da lama, mas Johnny já não vivia mais. Gérard coloca o corpo de Johnny na boleia e segue em frente, falta pouco, o dia está quase amanhecendo. 

Por fim, o caminhão de Gérard chega ao alojamento, ele é o único que conseguiu! Sim, Luigi e Bimba não conseguiram, o caminhão foi pelos ares, Gérard e Johnny viram ao longe a bola negra de fogo subindo aos céus. Gérard é recebido e aplaudido pelos supervisores que o esperam. Exausto ele toma um banho e descansa enquanto a carga é descarregada. Johnny é enterrado, o supervisor considera que foi um incidente inevitável e dá a Gérard o valor que Johnny receberia. Gérard pega o cheque de dois mil dólares que trocará quando chegar na Cia. Para ele basta, ele não fará outra viagem, pedirá demissão ao chegar, mas não diz nada ao supervisor. O supervisor lhe oferece um chofer para leva-lo de volta, mas Gérard não aceita, ele mesmo quer voltar dirigindo aquela geringonça.

Gérard agora vai feliz da vida com o cheque de dois mil dólares, valor suficiente para ir embora de Las Libras. Não há mais carga perigosa, então agora ele vai fazer essa lata velha decolar. Pisa fundo, pé no talo, oitenta, noventa por hora, faz as curvas em duas rodas cantando pneus. A lata velha obedece, ele agora já pode chama-la de sua, porque ele é bom no que faz, acariciando o volante de madeira, é muito bom motorista, subiu e desceu as ladeiras escarpadas nos Andes, atravessou altas pontes de madeiras podres sobre as águas com o caminhão carregado e agora tinha no currículo um transporte de nitroglicerina. Gérard quer chegar rápido e zarpar com sua namorada Linda dessa espelunca para sempre. Faltam apenas dezesseis km para chegar. O KB7 voa na estrada a cem por hora porque Gérard é o melhor motorista do mundo, ele é o cara! Só que não! Gérard num reflexo vê a placa passar como um raio indicando “Reduza, fim de pista!” Gérard reduz a marcha desesperadamente, o diferencial geme, os pneus uivam, o cardan de transmissão se rompe e o caminhão entra em roda livre. Apenas trinta metros o separa do precipício, sessenta por hora, mas ainda é excessiva, os pedais não obedecem mais, não há mais nada a fazer, o destino de Gérard, o melhor motorista do mundo é selado ali inacreditavelmente!

Dessa leitura podemos tirar algumas lições. Escolhi duas:

1-Muitos que leram o livro chegaram a conclusão de que o valor pago por viagem (mil dólares) é um valor ultrajante e ridículo haja vista a periculosidade da carga e as péssimas condições dos caminhões e da estrada. No entanto cada um dos motoristas tinha o seu propósito, queriam se mandar o mais rápido possível de Las Libras e talvez aceitassem fazer o transporte até por um valor menor. Eu conversei com dez caminhoneiros, seis homens e quatro mulheres, perguntei a eles se aceitariam esse tipo de transporte de nitro naquelas condições e a resposta foi surpreendente: apenas três não aceitariam, os outros sete disseram que sim sem titubear, mesmo com aquele tipo de caminhão KB7, embora cobrariam um valor mais alto. Mentiram? Não há como saber.

2-Excesso de autoconfiança nunca é recomendável, ele costuma ocorrer justamente com os melhores profissionais. Gérard era um baita motorista!  No entanto, o melhor cozinheiro tem o seu dia de errar no tempero e o melhor músico pode errar algumas notas. Gérard no seu retorno cometeu um lapso em desconsiderar a situação de perigo da estrada e daquele caminhão, ele teve um surto de excesso de confiança que acabou custando-lhe a vida. Deveria ter aceitado a oferta do chofer. Como disse o autor do livro, Gérard foi vítima de seu entusiasmo. Uma pequena dose de medo é sempre bem vinda em algumas ocasiões, uma gota sutil que poderá alterar a situação. Eu diria que uma pitada de prudência foi a marcha que faltou entrar para Gérard parar aquele caminhão.


Notas:

1- Em 1953, o diretor Henri-Georges Clouzot filmou "O Salário do Medo" fiel ao roteiro com Yves Montand no papel principal do motorista Gérard Sturmer. No entanto, o diretor deu  destaque também para o personagem Bimba interpretado pelo ator Peter van Eyck que ganhou o prêmio de ator coadjuvante por essa interpretação.

2- Em 1977, William Friedkin (falecido em agosto desse ano) fez uma refilmagem com o nome "Sorcerer" (no Brasil, "O Comboio do Medo) não tão fiel ao livro alterando algumas passagens. No entanto, as cenas dos caminhões são as mais impressionantes filmadas até hoje e o filme é considerado um dos melhores de ação/suspense de todos os tempos. Roy Scheider fez o papel do motorista principal. A trilha sonora é da banda alemã Tangerine Dream!

3- A Netflix divulgou em Abril desse ano um remake do roteiro original baseado no livro de Georges Arnaud. O filme é dirigido pelo cineasta Julien Leclercq e terá um mulher como motorista de um desses caminhões. O papel é da atriz Ana Girardot. Aguardemos!!


Abaixo as impressionantes cenas dos caminhões sobre a ponte, trailer do filme Sorcerer -O Comboio do Medo- de 1977. Os dois caminhões conseguem passar.



segunda-feira, 26 de junho de 2023

A História da (in) felicidade – Richard Schoch - Leitura Recomendada


 “Somos o homem que se recusa a ficar na praça e levar tapas. Como ele, não podemos imaginar como nos tornar felizes”.


Não, não se trata de mais um livro de autoajuda que promete a busca da felicidade através de fórmulas rápidas e mágicas engana trouxas e propostas por couches oportunistas de plantão, muito pelo contrário. Richard Schoch é professor de História da Cultura na London University e também é diretor da graduação em Ciências Humanas e Sociais. Em “História da (in) felicidade”, o autor mapeia o tema da felicidade tão caro aos seres humanos, partindo desde os primórdios da humanidade até os dias atuais nos quais a felicidade perdeu o seu sentido original a tal ponto de ser banalizada em prazeres imediatos e fugazes.

Schoch discorre totalmente em sentido contrário dos autores de autoajuda e através de vasto estudo e ampla pesquisa, ele demonstra que a felicidade sempre foi compreendida no contexto de crenças religiosas (e até mesmo místicas) e um tema estudado profundamente pela Teologia e Filosofia. Felicidade não é um conceito único, cada pessoa depende de sua cultura e de suas crenças para alcança-la, além de ela estar sempre indissociável da transcendência espiritual.

A percepção da felicidade é analisada através de quatro perspectivas: Felicidade e Prazer (Epicuristas e Utilitaristas); A Conquista do Prazer (Hinduísmo e Budismo); A Transcendência Espiritual (Cristianismo e Islamismo) e Sofrimento (Estoicismo e Judaísmo).

Uma galeria de grandes pensadores que se debruçaram sobre o tema “Felicidade” são fartamente citados nessa obra, entre os quais: Cícero, Epicuro, Marco Aurélio, Aristóteles, Al Ghazali, Tomás de Aquino, Jeremy Bentham, John Stuart Mill, etc. Cada um deles mergulhou profundamente em algum momento de suas vidas sobre a percepção da Felicidade.

Buda, por exemplo, ensinava os oito passos (caminho óctuplo) para se atingir o nirvana; o sufismo (o lado místico do Islamismo) entendia que a felicidade só podemos encontrar no “encontro consigo mesmo”, e isso é demonstrado no belíssimo e famoso poema “A Conferência das Aves”, escrito no século XII pelo escritor persa Fariduddin Attar; o filósofo estoico Epicteto ensinou que “a felicidade é a virtude da indiferença para com qualquer coisa que esteja além de nosso controle”.

Vejamos um pequeno trecho do livro:

“Numa cultura que preza pelos efeitos imediatos, dificilmente parecerá valer a pena cultivar pacientemente a percepção de uma realidade mais elevada. Queremos felicidade, porém a queremos agora”.

Portanto, temos em mãos um livro que mapeia historicamente e culturalmente a percepção da felicidade pelos povos através dos tempos. E uma prestimosa lição que podemos absorver dessa leitura talvez seja um pouco indigesta para alguns. É que a Felicidade não é algo que se encontra disponível para qualquer pessoa no momento em que ela queira, pois para alcançá-la é preciso antes atravessar caminhos espinhosos, os estoicos denominavam esses caminhos de sofrimento, (in)felizmente.


segunda-feira, 3 de abril de 2023

O Obstáculo é o Caminho – Ryan Holiday (Leitura recomendada)



“Devemos estar dispostos a lançar os dados e perder. Estarmos preparados para nada funcionar no fim das contas” (Ryan Holiday)


Quando leio na orelha de livros frases do tipo, “esse livro vai revelar os segredos de como...”, pronto, já fico com um pé atrás porque sei que lá vem bomba. É óbvio que essa frase é apenas uma estratégia de marketing que é colocada em praticamente todos os livros de autoajuda. Felizmente, não é o caso desse espetacular “O Obstáculo é o Caminho”, de Ryan Holiday, um excelente manual de introdução ao estoicismo e que não teria necessidade alguma de se colocar essa jocosa e já manjada frase. Um livro que já bateu recordes de vendas e já está na segunda edição de 2022.

O título do livro, na verdade foi inspirado numa frase do imperador estóico Marco Aurélio: “O que impede a ação antecipa a ação. O que está no caminho, torna-se o caminho”. E sinceramente, não encontrei ainda no mercado editorial um livro que oferecesse a filosofia estóica de maneira tão prática e acessível como é o caso desse livro do Ryan Holiday. Isto porque, a escola estóica de filosofia não é de fácil assimilação na sua linguagem crua e original, sendo ela apenas acessível exclusivamente aos alunos que cursam Filosofia, mesmo assim, somente apara aqueles que se interessar em se aprofundar no tema.

Nos cursos de Filosofia, o estudo das principais escolas filosóficas da Grécia é passado rapidamente, não se aprofunda muito sobre cada uma delas, nem há tempo suficiente para isso. Se o estudante quiser se aprofundar em uma delas terá que pesquisar por fora e por conta própria. Foi exatamente o que ocorreu comigo quando cursei Filosofia na PUC. Ao tomar contato com o Estoicismo, ele  caiu como uma luva, eu já atuava no setor de Recursos Humanos, eu sabia que o Estoicismo iria pautar uma conduta profissional que me acompanha até hoje. Por isso posso afirmar sem sombra de dúvidas que ler e compreender as obras do estoicismo no original não é uma tarefa confortável, mesmo porque as traduções para o português são sofríveis e truncadas na maioria das vezes.

Ler as obras dos principais filósofos estóicos, Marco Aurélio, Sêneca e Epiteto é bastante complicado, sobretudo Epiteto. Posso afirmar que Sêneca é o mais acessível. No entanto, o autor Ryan Holiday soube sintetizar com muita maestria as lições desses principais mestres estóicos que nos deixaram um precioso e inestimável legado sobre o estoicismo como conduta de vida. 

São lições práticas divididas em três partes: Percepção, Ação e Vontade. Os subtópicos de cada parte tratam do controle das emoções, viver o momento presente, a disciplina da ação, persistência, estar sempre pronto para o pior, o amor fati, a perseverança, entre outros temas.

O autor cita uma galeria de personagens que tiveram em algum momento de suas vidas superar pesadas adversidades tendo como ponto de apoio a leitura dos estóicos. Entre elas, temos Abraham Lincoln, Theodore Roosevelt, Steve Jobs, Thomas Edison, Barack Obama, Margaret Thatcher, Beatrice Webb, Dwight Einsenhower, Laura Ingalls Wilder, Michel de Montaigne, Ambrose Bierce, Eugène Delacroix, Tim Ferriss, James Stockdale entre outros. Este último, James Stockdale foi um piloto e almirante americano que ficou detido como prisioneiro de guerra no Vietnã por sete anos. A leitura dos estóicos o ajudou a suportar os sete anos em que foi prisioneiro e torturado.

Um trecho do livro:

“A vida é um processo de superar obstáculos – uma série de linhas fortificadas que devemos romper. A cada vez, você aprenderá uma lição. A cada vez, você desenvolverá força, sabedoria e perspectiva. A cada vez, um pouco mais de competição desaparecerá. Até que tudo o que restará será você: a melhor versão de si mesmo. Como diz o provérbio haitiano: atrás das montanhas há mais montanhas.” (pag.201).

Portanto, eis aqui um autêntico manual de estoicismo prático destinado àqueles que nunca tiveram contato com a filosofia dos estóicos. Composto de inúmeras ferramentas que auxiliarão nos mais diversos momentos de adversidades, seja na vida profissional, social ou familiar. Use e abuse em doses cavalares, não há contra indicação.

 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

A crise nas disciplinas de Humanas (por Roger Kimball)*


Nenhum autor está imune às depredações de uma crítica ideologicamente motivada, o que significa dizer que a nossa preocupação com a integridade do cânone de ser uma preocupação também com o ensino responsável. Também deve ser dito que a luta desordenada para redigir listas de leitura aprovadas teve o infeliz efeito de sugerir a alguns que os que apoiam o cânone desejam impor um tablete imutável de textos previamente certificados a alunos desconhecidos. Na verdade, nenhum comentador sério acredita – ou disse – que o cânone é um catálogo sacrossanto de livros que nunca possa ser alterado ou ter-lhe algo acrescentado. Mas isso não é negar que existe um corpo de textos de tradição ocidental que deve ser o centro de uma formação em humanidades, trabalhos que personificam o que Roger Shattuck, um dos nossos pesquisadores capitais de literatura francesa moderna, chamou de “versões aceitas de grandeza”, “escalas da eminência humana, qualidades a se admirarem e, talvez, emular”. 

Claro, o número de livros que pertencem a esse centro é bem maior do que muitos alunos vorazes poderiam esperar dominar mesmo se lhe fossem dadas muitas vidas. Nesse sentido, “formar-se” é um ideal a que muitas pessoas somente poderiam aspirar. Ainda assim, quando se trata do conteúdo de formação das humanidades – isso é, quando se trata de trabalhos e das obras que devem ser estudadas durante os quatro anos de carreira de graduação de alguém -, decisões precisam ser tomadas. O critério, antes de tudo, não é se determinado trabalho está incluído em alguma lista imaginária de grandes livros, mas se ele se mostrou como sendo de permanente interesse. Alguns trabalhos demonstram o seu insight, a sua beleza ou verdade para tantas pessoas eruditas por tanto tempo que falhar em lê-los é o mesmo que consignar a si mesmo a categoria de não erudito. O meu ponto de vista pessoal é que uma educação em humanidades deve concentrar-se tão rigorosamente quanto puder em obras que provaram ter valor permanente; na prática, isso significa dizer que pouquíssimas obras contemporâneas devem fazer parte do currículo da graduação. Isso não quer dizer que alunos não devem ler a ficção ou a crítica contemporânea, nem que eles não devam ir ao cinema, ouvir música contemporânea e mergulharem, em geral, na vida do momento. Na verdade, qualquer pessoa jovem que seja intelectualmente ativa e curiosa fará todas essas coisas, naturalmente. A questão principal é que a cultura contemporânea não deve formar a base da educação universitária. Deve-se olhar para o passado, não para as ruas, olhar para a substância do currículo de humanidades. [...]

O imperativo multicultural segue sob a suposição de que toda a vida cultural deve ser explicada em termos políticos. [...]

A noção tradicional da educação das humanidades é inquestionavelmente elitista, no sentido de que ela se concentra no pináculo da conquista humana e intelectual. Também se deve admitir que  nem todo mundo está interessado ou é capaz de tirar proveito da educação liberal concebida nesses termos. A Verdadeira tirania é privar os alunos do melhor que foi pensado e dito em nome de uma outra versão de retidão política. [...]

Nós também descobrimos que as humanidades não se tornaram mais politizadas, elas simplesmente despertaram para o fato de que “tudo é política”. Tampouco as humanidades abandonaram as grandes obras, elas apenas expandiram a definição do que conta como grande. E assim por diante. [...] 

Como o germanista John Ellis recentemente observou, “há vinte anos ninguém teria acreditado que justamente os professores um dia defenderiam que as universidades devam ter uma função explicitamente política”. É a sovietização da vida intelectual, em que o valor de uma obra é determinado não pelas suas qualidades intrínsecas, mas pelo grau de apoio a uma determinada linha política.

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*Roger Kimball é o editor responsável pela publicação do The New Criterion, articulista do The Wall Street Journal, do Spectator  e do The Times Literary Supplement - Londres. Lecionou em Yale e  no Connecticut College.

Exertos extraídos do livro "Radicais nas Universidades", editora Peixoto Neto, 1ª edição, São Paulo, 2009.

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Leitura recomendada: O Sono Eterno - Raymond Chandler (Excelência profissional / Ética / Lealdade)


 “O brilho do sol era tão vazio quanto o sorriso de maitre d’hotel” (Philip Marlowe)

Romances policiais nem sempre são entretenimento para passar o tempo. “O Sono Eterno” (The Big Sleep), de 1939, uma verdadeira obra de arte do escritor e roteirista americano e um gênio do estilo, Raymond Chandler (1888-1959) é uma prova disso. O protagonista da história é o famoso detetive particular Philip Marlowe, cuja ética moral, a conduta e a excelência profissionais estão acima dos honorários que recebe pelos serviços prestados. Um personagem construído (alter ego do autor?) magistralmente por Chandler e que juntamente com Philo Vance (S.S. Van Dine) e Sam Spade (Dashiell Hammett) acabaram inspirando outros detetives particulares que vieram depois como protagonistas dos romances policias

Perfil de Philip Malowe: hábil jogador de xadrez, deixa sempre em seu escritório um tabuleiro armado pra analisar lances que joga contra si próprio. Lê muita poesia, gosta de de conhaque, é sarcástico, irônico, sagaz, detentor de uma calma estóica, não se abala com ameaças, destrói seus oponentes com respostas rápidas elaboradas de uma construção lógico-analítica assustadora. Às vezes responde com o silêncio. Seus traços mais fortes são a conduta moral inabalável, a lealdade e a busca da excelência profissional.

A trama do livro: Marlowe é chamado por um general aposentado que está sendo chantageado por um desconhecido chamado Geiger. Este lhe envia fotos comprometendo uma de suas filhas. O chantagista pede muito dinheiro. O general tem duas filhas, Carmem e Vivian. Na entrevista, o general simpatiza com  Marlowe e o contrata, enquanto as duas filhas abominam o detetive. Para atrapalhar, o ex-marido de Vivian, Rusty Reagan era um ex-traficante que desapareceu sem mais nem menos sem deixar rastro. Seu carro foi encontrado numa garagem em local ermo da cidade. Nunca mais deu notícias. O general o tinha como um filho.

O que parecia ser um simples caso de chantagem fácil de resolver acaba se transformando em um quebra-cabeça complexo cada vez que Marlowe está prestes a capturar o chantagista. Muitas mortes aparentemente sem nexo ocorrem. Marlowe acaba envolvido num cenário no qual estão presentes uma livraria de fachada que vende livros pornográficos e objetos de arte falsificada, a máfia de cassinos, ruas escuras onde sempre está chovendo. É perseguido e emboscado por carros e pessoas estranhas que não querem que Marlowe descubra a verdade que está por trás da chantagem e do desaparecimento do genro do general.

Estamos diante de uma trama que se passa em cinco dias em que o chantagista é apenas o fio condutor para camuflar o desaparecimento inexplicável de Rusty Reagan, o genro do general. Marlowe, sagaz que é, e sem autorização do general que o contratou, tenta montar esse quebra-cabeça e segue a pista do desaparecimento de Rusty Reagan, embora o general não tenha pedido isso. No entanto, nenhuma peça se encaixa e na medida em que o tempo passa mais difícil fica buscar um sentido para tudo, aonde está o ponto de conexão, aonde uma peça se encaixa. E nunca se encaixa. Marlowe não encontra Rusty Reagan.

Então o detetive se apresenta ao general, sabe que prestou um serviço insatisfatório, segundo ele próprio. É duramente repreendido pelo general Sternwood e em razão disso se propõe a devolver o valor recebido pelos serviços prestados:

“Gostaria de oferecer o seu dinheiro de volta, talvez não significaria nada para o senhor, mas significaria muito para mim”.

Este é Philip Marlowe! Mas a trama, é claro, não termina aí. O cliente não aceitou a devolução que Marlowe propôs e ainda pediu que ele fosse em frente. E assim Marlowe o fez, usando toda a sua habilidade de exímio jogador de xadrez. Assim  sendo, Marlowe termina esse jogo brindando o leitor com um cheque mate surpreendente e arrasador, digno de um mestre enxadrista.

Temos aqui então um romance que não se resume apenas a uma trama policial, mas nos trás com muita inteligência e humor ácido lições de fidelidade ao cliente, a busca da excelência profissional e uma conduta ética profissional que não se encontra tão fácil por aí na qual um profissional altamente qualificado se dispõe a devolver os honorários por não ter executado um serviço de maneira satisfatória. Será que encontramos por aí um tipo como Philip Marlowe? Ou Marlowe é o tipo de profissional que apenas reside dentro os romances policias?



terça-feira, 19 de julho de 2022

Leitura recomendada: Michael Kohlhaas – Heinrich von Kleist

Título: Michael Kohlhass
Autor: Heinrich von Kleist
Tradução: Marcelo Backes
Editora: Civilização Brasileira
Páginas: 172

"Nada lhe desagradava mais no governo com o qual era obrigado a lidar do que a aparência de justiça que este fazia questão de demonstrar, quando na verdade violava a anistia que lhe havia concedido..."


“Michael Kohlhaas é uma das maiores novelas da literatura universal. Franz Kafka disse que era seu livro favorito, que se sentia “parente consanguíneo” do personagem de Heinrich von Kleist, e que a obra o teria incentivado a se tornar escritor.

Michael Kohlhaas é um comerciante de cavalos da Alemanha, no século XVI. Sua vida é pacata e próspera, até que lhe acontece uma desgraça: um homem poderoso, o barão Wenzel von Tronka, se apodera de dois de seus cavalos e os submete ao trabalho desgastante na lavoura. Sem conseguir reaver os animais, Kohlhaas se vê obrigado a buscar o que é seu por direito, e se depara com um Estado falho e corrupto, que impõe a ele uma série de humilhações, em meandros burocráticos kafkianos. É então que vemos crescer um personagem incrível – Michael Kohlhaas se transforma em um guerreiro obsessivo, um dragão em busca da justiça a qualquer custo. Messias do apocalipse, ele recorre ao terror para fazer justiça, e se mostra justo ao praticar atos terríveis, bailando entre a busca de uma modernidade equitativa que aponta para o futuro e a barbárie do embate homem a homem, anterior às primeiras leis, que favorecem apenas a nobreza abastada.

Michael Kohlhaas é uma porta aberta à interpretação, ampla e evasiva. As contradições são extremas, e todo mundo lê no herói o que quer, insere no texto a ideia que melhor lhe aprouver. Mais do que qualquer outra, Michael Kohlhaas é uma “obra aberta”, um palco em que qualquer um se julga no direito de fazer dançar suas próprias ideias, por mais absurdas que sejam".

Meu comentário: A edição original desse clássico da literatura foi editada no século XIX no ano de 1810. Uma obra perturbadora que revela a impotência, bem como a coragem e a luta de um homem em busca de seus direitos diante de um Estado absurdamente tirânico, ineficaz, corrupto e no qual uma claque de burocratas burlescos nunca tem nada a ver com nada, pois sabe ela que essa luta já tem um vencedor, a saber, o próprio Estado. Estamos no século XXI, no ano de 2022 e nada mudou, ou seja, o que temos não é justiça, apenas uma aparência dela provando que o Estado sempre foi e continuará sendo o nosso mais feroz inimigo.


terça-feira, 29 de março de 2022

Agradeça aos agrotóxicos por estar vivo: Leitura Recomendada!

Eis aqui um livro que com certeza é um dos mais completos sobre o tema “agrotóxicos” (explicarei as aspas mais adiante) já publicados no Brasil. O autor, o jornalista Nicholas Vital com muita coragem construiu uma obra prima única e autêntica, isenta de qualquer viés ideológico e tal como um brutal trator, passa por cima, esmaga e estraçalha todos os mitos criados e bobagens ditas sobre o assunto, sobretudo por celebridades midiáticas. Sem mais delongas, vamos ao resumo:

- Não é “agrotóxico”, o nome correto é defensivos agrícolas

Pouquíssimas pessoas sabem, mas o termo agrotóxico só existe no Brasil! Sim, essa aberração de termo foi criada pela Lei nº 7.802/1989 e sancionada pelo governo de José Sarney por pressão do lobby dos ambientopatas. A lei define que, herbicidas, acaricidas, inseticidas, fungicidas etc. usados na agricultura e agropecuária deverão ser denominados com o termo agrotóxicos. No restante do planeta os termos usados para esses produtos são: defensivos agrícolas, produtos fitossanitários ou mesmo agroquímicos. Por essas e outras marimbondadas (alguém aí se lembra do Marimbondo de Fogo?) é que o Brasil sempre foi a chacota da vez no exterior.

- Rigor na aprovação do uso de defensivos agrícolas

No Brasil, a legislação para aprovar o uso de defensivos agrícolas é uma das mais rigorosas do mundo. Para que um produto seja aprovado ele necessariamente passa por três órgãos: Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura. O primeiro analisa a toxidade do produto para o uso do ser humano, o segundo analisa o impacto do produto no meio ambiente e o terceiro providencia o registro e a liberação para o seu uso.

- Brasil é recordista no uso de defensivos agrícolas

Sim, é verdade e isso é muito bom por dois motivos: o primeiro é que o Brasil abastece com alimentos saudáveis praticamente 20% da população do planeta;  segundo, o Brasil é o único país do mundo que devido ao clima tropical favorável ao plantio é possível plantar nas quatro estações do ano, pois por aqui não temos nevadas brutais nem camadas de gelo que blindam o solo nas estações de inverno como em outros países. Matematicamente é óbvio que plantando nas quatro estações do ano a utilização de agroquímicos é vultuosa. Além disso, existe a exigência dos importadores de alimentos para que os produtos estejam impecáveis e livres das pragas agrícolas.

- Agroquímicos estão dentro do Limite Máximo de Resíduos (LMR)

Todos os agroquímicos aprovados estão rigorosamente dentro do índice LMR, que representa o limite máximo de resíduos químicos suportados pelo corpo humano. Não há registro de mortes relacionado ao consumo de alimentos tratados com agroquímicos, sendo que o nível de toxidade de tais produtos é infinitamente mais baixa em relação ao século passado. As áreas de plantio ocupam três vezes menos espaço em relação ao ano de 1980. Houve aumento da expectativa de vida. Nós ingerimos o tempo todo substâncias químicas suportáveis para o corpo humano, tais como, zinco, mercúrio, alumínio, chumbo, etc., eles estão presentes até mesmo na água que bebemos.

- Produtos orgânicos, a coqueluche das celebridades midiáticas

A moda e a divulgação dos produtos orgânicos, produzidos de maneira rudimentar e primitiva não teve nada a ver com questões de saúde. Teve início na Franca no início da década de 70 tendo como suas principais divulgadoras a atriz e celebridade (sempre elas) Catherine Deneuve e a primeira dama francesa, Claude Pompidou. A intenção era dar uma áurea de excentricidade e luxo restritas às classes de alto poder aquisitivo. A moda chegou até os Estados Unidos, foi abraçada ingenuamente pela comunidade hiponga (como não?) e hoje está aí sendo divulgada por pessoas de alto poder aquisitivo e midiáticas que nada entendem de agricultura ou agropecuária. Entre elas, encontramos Bela Gil, Paola Carosella e Marcos Palmeira.

- Produção de orgânico é de apenas 1% do total e 270% mais caro do que o convencional

A produção de orgânicos representa apenas 1% do total de alimentos produzidos no Brasil, tendo os seus custos operacionais absurdamente elevados fazendo com eles cheguem ao mercado custando 270% mais caro do que o alimento produzido de maneira convencional. O total de orgânicos produzidos no país abasteceria a cidade de São Paulo por apenas 5 dias. Além disso, não existe diferença nutricional ou de sabor em relação aos produtos convencionais, fato comprovado cientificamente.

- Você sabe o que é guano? É um composto com fezes de morcego!

O guano é um fertilizante usado exclusivamente na produção de orgânicos, feito a base de fezes de aves marinhas, morcegos e focas. É!! Também são usados enxofre, sulfato de cobre, permetrina, carvão em pó, pó de fumo e óleo de neem* que é fatal se consumido em doses altas. Isso as celebridades midiáticas não falam. Não falam porque não sabem disso e se sabem por que não falam?

- Contaminação de orgânicos pelo uso intensivo de esterco animal

A OMS apontou causas de intoxicação alimentar atribuídas às bactérias identificadas nos alimentos orgânicos, entre as quais, salmonela, E. Coli, norovírus e fumonisina. Esta última trata-se de uma toxina que inibe a absorção de ácido fólico podendo causar malformação de fetos, problemas cardiovasculares e edema pulmonar.

- Produtores de orgânicos jogando a toalha

Em razão dos custos elevadíssimos operacionais na produção de orgânicos que exige mais espaço para o plantio, os pequenos produtores já estão jogando a toalha porque estão ficando no prejuízo. Muitos estão retornando à produção convencional. E com isso abriu-se uma lacuna para as grandes corporações investir nesse nicho. O problema é que na produção de orgânicos dessas corporações já foram encontrados pela fiscalização agroquímicos que são usados nos produtos convencionais o que torna os orgânicos não tão orgânicos assim. E agora?

- As celebridades pseudocientíficas

Como a maioria dos brasileiros acredita em tudo que assiste na televisão, sobretudo quando celebridades midiáticas deitam falação sobre o que não sabem, citemos um trecho do livro: “o Brasil pode ser considerado um paraíso para propagadores de mentiras científicas. Some-se a isso o desconhecimento do assunto até mesmo entre estudantes universitários e pessoas com boa formação. O resultado não poderia ser diferente: seja qual for a bobagem sensacionalista publicada nos jornais ou compartilhada na internet, ela certamente não será questionada pela maioria dos brasileiros”.

- Conclusão

Celebridades midiáticas criaram um problema artificial para demonizar os defensivos agrícolas, santos remédios para pragas diversas da lavoura, para  vender uma solução restrita a nichos de excêntricos e que não é nada barata, pois os orgânicos sempre serão consumidos pelos soças riquinhos e inteligentinhos do Leblon e os descolados da Vila Madalena, provando com A+B que a pior praga mesmo que existe atende pelo nome de ideologia. Ou seria toxideologia? E hoje ela tem cor: é verde por fora, vermelha por dentro e recheada de amebas.

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*Óleo de Neem: inseticida natural obtido a partir da prensagem a frio de sementes da espécie Azadiretcha Indica, originária da Índia, e que possui mais de 150 compostos bioativos, um produto eficientíssimo no combate de insetos. Seu uso pode ser fatal para o ser humano.


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