segunda-feira, 26 de junho de 2023

A História da (in) felicidade – Richard Schoch - Leitura Recomendada


 “Somos o homem que se recusa a ficar na praça e levar tapas. Como ele, não podemos imaginar como nos tornar felizes”.


Não, não se trata de mais um livro de autoajuda que promete a busca da felicidade através de fórmulas rápidas e mágicas engana trouxas e propostas por couches oportunistas de plantão, muito pelo contrário. Richard Schoch é professor de História da Cultura na London University e também é diretor da graduação em Ciências Humanas e Sociais. Em “História da (in) felicidade”, o autor mapeia o tema da felicidade tão caro aos seres humanos, partindo desde os primórdios da humanidade até os dias atuais nos quais a felicidade perdeu o seu sentido original a tal ponto de ser banalizada em prazeres imediatos e fugazes.

Schoch discorre totalmente em sentido contrário dos autores de autoajuda e através de vasto estudo e ampla pesquisa, ele demonstra que a felicidade sempre foi compreendida no contexto de crenças religiosas (e até mesmo místicas) e um tema estudado profundamente pela Teologia e Filosofia. Felicidade não é um conceito único, cada pessoa depende de sua cultura e de suas crenças para alcança-la, além de ela estar sempre indissociável da transcendência espiritual.

A percepção da felicidade é analisada através de quatro perspectivas: Felicidade e Prazer (Epicuristas e Utilitaristas); A Conquista do Prazer (Hinduísmo e Budismo); A Transcendência Espiritual (Cristianismo e Islamismo) e Sofrimento (Estoicismo e Judaísmo).

Uma galeria de grandes pensadores que se debruçaram sobre o tema “Felicidade” são fartamente citados nessa obra, entre os quais: Cícero, Epicuro, Marco Aurélio, Aristóteles, Al Ghazali, Tomás de Aquino, Jeremy Bentham, John Stuart Mill, etc. Cada um deles mergulhou profundamente em algum momento de suas vidas sobre a percepção da Felicidade.

Buda, por exemplo, ensinava os oito passos (caminho óctuplo) para se atingir o nirvana; o sufismo (o lado místico do Islamismo) entendia que a felicidade só podemos encontrar no “encontro consigo mesmo”, e isso é demonstrado no belíssimo e famoso poema “A Conferência das Aves”, escrito no século XII pelo escritor persa Fariduddin Attar; o filósofo estoico Epicteto ensinou que “a felicidade é a virtude da indiferença para com qualquer coisa que esteja além de nosso controle”.

Vejamos um pequeno trecho do livro:

“Numa cultura que preza pelos efeitos imediatos, dificilmente parecerá valer a pena cultivar pacientemente a percepção de uma realidade mais elevada. Queremos felicidade, porém a queremos agora”.

Portanto, temos em mãos um livro que mapeia historicamente e culturalmente a percepção da felicidade pelos povos através dos tempos. E uma prestimosa lição que podemos absorver dessa leitura talvez seja um pouco indigesta para alguns. É que a Felicidade não é algo que se encontra disponível para qualquer pessoa no momento em que ela queira, pois para alcançá-la é preciso antes atravessar caminhos espinhosos, os estoicos denominavam esses caminhos de sofrimento, (in)felizmente.


segunda-feira, 19 de junho de 2023

EAD - formação profissional a um clique do seu mouse



A questão da formação profissional e da empregabilidade em cidades do interior dos estados já deixou de ser um sério problema.  Até pouco tempo atrás nessas cidades, não existiam escolas de formação profissional e vagas de emprego para absorver todos os seus residentes. Os jovens deixavam suas cidades para estudar, obter formação profissional e arrumar trabalho nas capitais. A internet mudou radicalmente essa história porque atualmente ela está presente nos mais distantes rincões do Brasil. Ela trouxe as instituições do Ensino à Distância-EAD e a possiblidade do trabalho remoto ou virtual.

A mudança dos jovens das cidades do interior para as grandes capitais com os propósitos de estudo/formação e também de trabalho já não é mais atrativa nos dias atuais. Na verdade essa mudança de cidade sempre teve o seu lado traumático, pois a distância da família, dos amigos e das raízes culturais é uma experiência bastante dolorosa que o jovem sente na alma. Muitos desistem no meio do caminho e retornam frustrados para suas cidades.

Residir atualmente nas capitais ou mesmo nas grandes cidades, ditas metrópoles que ficam no entorno das capitais é uma experiência bem diferente do que era até alguns anos atrás. Os altíssimos custos com alimentação, moradia, mensalidade da faculdade, materiais de estudo e despesas pessoais são absolutamente inviáveis, ainda que o jovem arrume um emprego ou bico provisório e os pais enviem um plus financeiro para completar o orçamento.

Mas não é só isso, atualmente a alarmante falta de segurança e a consequente violência que permeiam as grandes metrópoles são assustadoras. A segurança oferecida pelo Estado é absolutamente ineficiente e precária. O próprio ambiente universitário se tornou tóxico, um reduto de traficantes, drogados e militontos, beócios deslumbrados com ideologias nefastas que nada agregam ao conhecimento, sobretudo nos cursos na área de Ciências Humanas e Sociais, embora o vírus dessas ideologias gnósticas já tenha também contaminado as áreas de Ciências Exatas e das Ciências Biológicas e da Saúde.

Os cursos oferecidos pela modalidade EAD estão disponíveis nos mais diversos campos profissionais. São mais de 100 cursos que abrangem desde os cursos livres de curta ou média duração (que trazem uma formação profissional praticamente imediata); cursos técnicos e cursos de formação superior, todos reconhecidos pelo MEC e oferecidos por instituições de ensino muito bem conceituadas no mercado.

De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira-INEP, o EAD cresceu 474% em uma década. A cada ano, a oferta de desses cursos só tende a aumentar. O último censo registrou que as instituições privadas ofertaram 96,4% das vagas e a rede pública foi responsável pela oferta de 3,6% das vagas. Obviamente que nos cursos nos quais se exigem a presença dos estudantes, como é o caso de Medicina e outros cursos que requerem trabalho em laboratório a opção pelo ensino à distância não é possível. Por enquanto, isto porque essa realidade tende a mudar a médio ou mesmo a curto prazo.

Isto posto, após a formação profissional, obter um emprego pela modalidade remota (Home-Office) é praticamente líquida e certa. Dependendo da profissão, de uma cidade no sul ou no norte do país é possível prestar serviços para qualquer cidade do Brasil. E melhor, perto da família, dos amigos, das suas raízes culturais e usufruindo de dois itens, atualmente caríssimos e inacessíveis para quem reside nas capitais: segurança e qualidade de vida.

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Adjetivos compostos: as cores*




Por Maria Tereza de Queiroz Piacentini

"Ao falar das cores, em primeiro lugar é preciso dizer que há duas classes gramaticais que as designam: o adjetivo e o substantivo. Se digo as toalhas amarelas, estou usando amarelas como adjetivo; se falo a pasta rosa, estou usando um substantivo para indicar a cor da pasta, pois rosa é nome de flor. 

Vejamos algumas das cores que são realmente adjetivos, com o respectivo plural: amarelo/amarelos, azul/azuis, branco/brancos, marrom/marrons, preto/pretos, roxo/roxos, vermelho/vermelhos, verde/verdes.

Além das cores em si, são também adjetivos os vocábulos claro, escuro, castanho, que têm o plural claros, escuros, castanhos. Rosa, laranja, violeta, açafrão, cinza, gelo, areia, vinho, ferrugem, entre outros, são elementos que emprestam seu nome a uma cor para precisar uma de suas tonalidades. São originalmente substantivos; transformam-se em adjetivos por derivação imprópria. Neste caso, ficam invariáveis: vidros laranja, luvas canário, paletós creme, saias cinza, paredes malva, tons pastel. Pastel aqui não se refere à comida, e sim uma planta crucífera (isatis tinctoria) cultivada no sul da França na Idade Média e muito valorizada porque sua tinta corante permitia “obter azuis indeléveis, violetas, verdes e pretos inigualáveis”. O comércio do pastel entra em declínio quando o índigo – substância extraída do indigueiro e que serve para tingir de anil – começa a tomar conta do mercado europeu no século XVI.

Cores compostas

Também as cores podem formar palavras compostas. A propósito delas, devemos registrar que;

I – Fica invariável o composto quando um dos elementos é uma cor derivada de um substantivo:

 O colar tinha três grandes pedras azul-turquesa de valor incalculável.

São verde-oliva os uniformes do exército.

Os canários mais bonitos da exposição eram amarelo-ouro e cor de abacate.

Usou tons rosa-claro e verde-musgo na decoração da sala.

Gosto de ternos pretos mas prefiro os cinza-chumbo.

São famosos seus olhos violeta-escuro.

II – Só flexiona o segundo elemento quando os dois são originalmente adjetivos (como em qualquer caso de adjetivo composto):

Tinha a tez pálida e os lábios vermelho-claros.

Fez o retrato falado de um moço com olhos pretos, barba rala e cabelos castanho-escuros.

A gravata tem listras bordô e verde-claras.

Exceções

Azul-marinho e azul-celeste ficam invariáveis apesar de marinho e celeste serem adjetivos. Diz-se, pois: uniformes azul-marinho e mantos azul-celeste.

O plural de infravermelho é infravermelhos – varia como qualquer adjetivo. Já ultravioleta é adjetivo de dois gêneros e dois números por causa da palavra violeta, que como vimos é invariável:

Os raios ultravioleta e infravermelhos são necessários à vida".

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Excerto extraído do capítulo II, do livro "Manual da Boa Escrita - vírgula, crase, palavras compostas", de Maria Tereza de Queiroz Piacentini, editora Lexicon, 2015-RJ

 

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Você sabe como pedir aumento salarial da forma correta?




Todo funcionário em algum momento de sua trajetória profissional sentiu que era hora de pedir um aumento salarial. “Estou precisando de um aumento”, é uma frase que ouvimos nas empresas entre colegas praticamente todos os dias. Os motivos que levam o funcionário a reivindicar esse aumento podem ser os mais variados possíveis: dívidas financeiras, aumento do preço dos bens de consumo, reajuste de aluguel ou da prestação do imóvel próprio financiado, um filho que vem chegando e obviamente, um reconhecimento pelos serviços prestados e por acreditar ser um bom colaborador.

Muitos trabalhadores costumam confundir aumento salarial com reajuste salarial, porém são situações diferentes. O reajuste salarial está previsto no artigo 611 da Consolidação das Leis do Trabalho - CLT, através de Convenção Coletiva de Trabalho que poderá ser anual ou bienal, dependendo da categoria profissional a qual o trabalhador está enquadrado. Já o aumento salarial poderá ocorrer em razão de algumas situações específicas tais como, promoção, mérito, substituição, efetivação do funcionário após o período probatório, transferência de local de trabalho e até mesmo por uma solicitação do próprio funcionário.

No caso de aumento por solicitação do funcionário, obviamente que a situação é mais delicada e desconfortável. Normalmente ela é feita de maneira errada sendo que, a resposta da empresa é quase sempre o indeferimento do pedido deixando o funcionário frustrado e desmotivado. Na verdade, a solicitação de aumento salarial deve ser muito bem planejada estrategicamente. Aqui seguem algumas regras básicas e pontuais que o funcionário deve cumprir antes de solicitar o seu aumento salarial:

- Estar atento se a saúde financeira da empresa encontra-se estável. Se a empresa estiver passando por uma fase de corte de gastos internos, demissões, extinção de departamentos, enxugamento de insumos, não é uma boa hora para pedir aumento. Neste caso o funcionário deverá aguardar o momento em que a situação seja mais favorável.

- O pedido de aumento nunca deve ser feito próximo à data base de reajuste salarial. Por exemplo, se a data de reajuste da categoria ocorre todo dia 1º de Março de cada ano, o pedido de aumento terá mais chance de ser aprovado se ele for solicitado nos meses de Setembro, no máximo Outubro. É sempre oportuno contar 6 a 7 meses entre o período do reajuste anual.

- E agora, a regra mais importante: ter sempre em mente que aumento salarial,  produtividade e resultados são termos que andam juntos, inseparáveis e de mãos dadas. E é justamente a partir desse ponto que o funcionário irá montar um plano de proposta de aumento da seguinte maneira:

O funcionário vai escrever num caderno ou digitar um rascunho de todos os seus resultados positivos nos últimos doze meses, por exemplo: o aumento de produtividade de sua equipe (caso seja um supervisor ou gerente), formulários criados que ajudaram a agilizar a comunicação entre departamentos, exibir o percentual do aumento nas vendas, a adesão de novos clientes, percentual de redução de gastos e despesas, criação de rotinas que contribuíram para a redução de erros e melhorou a comunicação entre departamentos, etc. Nada deve passar batido, todo resultado positivo deve ser anotado. E quanto deve ser o valor do aumento? Recomendo que se pesquise nas plataformas específicas que sempre mantém atualizados os cargos e salários comparativos nas diversas regiões do país.

Feito isso, passar a limpo e elaborar um formulário criado no Excel com os respectivos gráficos coloridos, percentuais, etc. de tudo o que foi rascunhado. A apresentação desse documento deve ser impecável e esteticamente atraente. Depois será impresso (em duas ou mais vias) e colocado numa pasta planilha. Depois é só agendar um horário de reunião com o supervisor imediato ou se for o caso, diretamente com o sócio proprietário para tratar do assunto. Não recomendo o uso de slides ou PowerPoint, isto porque dificilmente o diretor terá tempo para assisti-los.

Todo esse processo meticuloso ainda não quer dizer que o aumento será concedido, entretanto, fazendo dessa maneira, ou seja, expondo dados concretos de resultados positivos mediante um relatório bem elaborado com gráficos e percentuais, as chances de aprovação aumentarão exponencialmente. Mesmo assim se não ocorrer nenhum aceno positivo seja de aumento, de promoção ou outra contraposta é hora de procurar outro emprego.

O que tem que ficar bem claro é que nunca se deve pedir aumento salarial usando como argumentos o aumento das despesas pessoais ou por ser um funcionário pontual que nunca falta, não chega atrasado, trabalha nos feriados, sábados, domingos, etc., pois são argumentos fracos que nunca justificarão um aumento salarial. O que justifica, é bom reiterar aqui, são os resultados obtidos, as atitudes e ações criativas que fizeram com que esse funcionário fizesse a diferença alinhado com a cultura e a missão da empresa. Lembrando mais uma vez que não se pode falar em aumento salarial sem citar as duas palavras que fazem milagres: produtividade e resultados.

 

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Quem atua como freelancer deve entregar a declaração de Imposto de Renda




No dia 31 de Maio próximo, encerra-se o prazo para o envio da Declaração de Imposto de Renda 2023. Está obrigado a declarar o imposto de renda 2023 quem recebeu rendimentos tributáveis em 2022 em valores superiores a R$ 28.559,70 ou ganhou mais de R$ 40 mil em rendimentos isentos, não tributáveis ou tributados na fonte no ano, como indenizações trabalhistas ou rendimento de poupança. Mas, e o profissional que atua como Freelance (ou frila) deve entregar a declaração ou não? Sim, deve entregar, vejamos:

Bem, o Freelancer é aquele profissional autônomo (liberal ou não) que atua sem vínculo empregatício, não tem empresa constituída e trabalha de forma independente, principalmente no setor de prestação de serviços os mais diversos possíveis, por exemplo: tradutores, relações públicas, consultores, fotógrafos, músicos, marchands, doulas, cozinheiros, TIs, etc.

Esse tipo de profissional está obrigado a declarar o Carnê Leão mensalmente somente no caso de recebimento de valores acima de R$ 1.903,98 por mês sem retenção na fonte, provindos de pessoas físicas ou do exterior. O contribuinte tem acesso ao seu Carne Leão através do Portal e-CAC. No carnê são registradas as receitas e despesas, o próprio aplicativo calcula o valor de imposto a ser pago e um DARF estará disponível para impressão. O valor a ser pago deverá ser recolhido até o último dia do mês subsequente.

No caso do freelancer que não está obrigado a emitir o Carne Leão em razão de seu recebimento mensal estar sempre abaixo do valor estipulado, mesmo assim a entrega da declaração de imposto de renda é essencial por uma razão bem óbvia: a declaração de imposto de renda é praticamente o único comprovante de renda deste profissional. A declaração de imposto de renda normalmente é solicitada em diversas situações, tais como:

- locação de imóveis

- empréstimo bancário

- planos de convênios de saúde

- financiamento e aquisição de imóveis

- financiamento de veículos

Em todas as situações e muitas outras nas quais quem atua como freelancer terá que comprovar o seu rendimento mensal, a apresentação da declaração de imposto de renda é imprescindível e não há nenhuma ilegalidade ou objeção na sua solicitação.

É sempre bom reiterar que independente do freelancer receber valores acima ou abaixo do valor estipulado pela Receita Federal, a declaração anual de imposto de renda deve ser entregue, pois ela é um valioso e único comprovante de renda desse profissional.

Portanto, basta juntar os informes de rendimentos fornecidos pelas instituições bancárias, os recibos de despesas, tais como, despesas com educação (até o limite de R$ 3.561,50 por pessoa), despesas médicas e de aluguel de imóvel. Recomendo a opção não pela declaração simplificada mas a completa, pois ela permite deduções de despesas que a simplificada não permite. Também evitar a declaração pré-preenchida que poderá conter erros.

Com esses documentos em mãos, o próximo passo é procurar um contador ou um profissional qualificado em tributação fiscal que ele saberá como fazer os lançamentos mensais de recebimentos da melhor forma possível e sem risco de erros.  O preço varia entre R$ 130,00 até R$ 500,00 reais, depende muito da região e da complexidade da declaração, quanto mais dependentes do declarante que trabalham mais caro será o preço. Não recomendo que a própria pessoa faça (não faça você mesmo!), salvo se ela tiver profundo conhecimento e domínio do setor tributário.

No mais, não deixe para o último dia e para a última hora, poderá haver problemas no sistema de transmissão. A entrega fora do prazo gera uma multa mínima de R$ 165,74, podendo atingir 20% do imposto devido, além de ter o nome sujo, o CPF irregular e dependendo da situação...isso mesmo, prisão, cadeia, xilindró!




segunda-feira, 22 de maio de 2023

A identidade homogênea*





Por Gaudêncio Torquato**


A identidade das empresas é, frequentemente, enfraquecida pela dualidade entre os sistemas interno e externo de comunicação. Ocorre que, quase sempre, não há correspondência entre os sistemas. A linguagem da comunicação interna não combina com as propostas estabelecidas para o sistema externo. As consequências são graves. Se não há correspondência entre a cultura de uma organização e a identidade que ela quer projetar no mercado, cria-se uma dissonância, que terá, como resultado, uma ruptura na imagem. Vamos tentar explicar.

Geralmente, a angulação que as áreas de comunicação querem dar à empresa assume conotações diferentes. No plano interno, os ângulos são apoiados em valores de humanidade, leveza, integração, participação. Procura-se mostrar um tecido sistêmico, uno e indivisível. As pessoas aparecem nas publicações internas dando entrevistas, falando de seus setores, planos, interesses e relatos de sua vida na empresa. As políticas de benefícios, os cursos de treinamento, as práticas cotidianas são exibidos dentro da moldura humanizada de uma organização que tem como meta final o homem.

No plano externo, geralmente procura-se dourar as pílula com tons de seriedade, segurança, fortaleza, inovação tecnológica, porte empresarial, grandeza estatística, expansão e tradição. Fotografa-se uma realidade profundamente formal e normativa. Exibe-se a empresa com cores carregadas de tons neutros. A descontração da cultura é, geralmente, escondida. Chega-se ao ponto de muitos empregados sentirem-se em empresas diferentes: uma, que eles conhecem, porque lá trabalham e convivem; outra, a que vêem e percebem por meio dos apelos externos da mídia e pelas mensagens propagandísticas.

Essa dissonância ocorre por diversos motivos. Primeiro, porque os profissionais de comunicação que trabalham na área de comunicação interna não sãoos mesmo que trabalham na área externa. Com visões diferenciadas, é normal que as coberturas de imagem, planos e ângulos também o sejam. Segundo, porque, há, historicamente, um erro de conceito. Trata-se da distorção de imaginar que a empresa deve abrigar duas imagens: uma interna e outra externa. Equivaleria ao erro de imaginar que a cozinha de uma casa não tem nada a ver com a sala de estar. Ora, ambas as áreas pertencem ao mesmo sistema. O mínimo de coerência arquitetônica deve haver entre elas.

Essa falha deve ser imediatamente combatida. Entramos numa fase de completa claridade e transparência. O empregado passa a exigir situações coerentes e práticas harmônicas. Se a empresa está em greve, por exemplo, ela não aceita que, para efeito externo, pinte-se um quadro de tranquilidade, harmonia, bem estar e muita paz. Quando isso ocorre, estimula-se o descrédito. E não é raro que pessoas que, antigamente, confiavam na empresa, deixem de fazê-lo.

Os sistemas de comunicação, portanto, devem interligar-se. A interdependência precisa ocorrer no terreno das linguagens, valores, conceitos, processos, pessoas. Isto é, a empresa precisa encontrar uma linguagem média, intermediando as posições interna e externa, a fim de trabalhar com ela em todos os planos. As publicações externas, as campanhas, os projetos de identidade externa não podem aspectos da cultura interna. É muito louvável inserir em propostas externas a linguagem ou aspectos de cultura interna. Essa particularidade pode conferir diferencial à imagem de uma empresa.

Comunicadores internos e externos devem se unir. A hora não é de racha, mas de atuação em comum. Não podemos perder tempo com briguinhas por mais espaço ou por melhor status. Se a imagem de uma empresa, interna ou externamente, corresponder à sua verdadeira identidade, todos estarão de parabéns. O importante é a percepção de que há lugar para todos que trabalham no sistema de comunicação. E hoje, mas que ontem, a exigência básica é a da qualidade de trabalho.

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*Texto extraído do livro, "Cultura - Poder - Comunicação e Imagem: Fundamentos da Nova Empresa", Gaudêncio Torquato, editora Thomson Pioneira.

**Gaudêncio Torquato, jornalista, consultor político e professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e autor de diversos livros sobre comunicação nas organizações.





segunda-feira, 15 de maio de 2023

Não faça você mesmo – Parte V



Quem me segue já há algum tempo sabe que o “faça você mesmo” ou “DIY” (Do It Yourself) é um dos meus temas favoritos. Para falar contra, é claro! Sempre tive restrições e muitas objeções em relação ao DIY já descritos nos quatro artigos anteriores que escrevi em meu blog a respeito desse tema. Os motivos que as pessoas alegam para essa prática são: economia doméstica e o prazer de ter um hobby, porém ambos são facilmente refutados se utilizarmos do bom senso e a razão. Vamos ver primeiro como surgiu essa praga.

O Do it Yourself (DIY) Surgiu nos Estados Unidos (ora, como não?) no ano de 1912 como um movimento popular e até que a intenção foi muito positiva para a época. O objetivo era que as pessoas reformassem suas próprias casas e seus móveis de interiores. E aqui vem o pulo do gato: vamos lembrar que a maioria das casas nos EUA, sobretudo no interior são feitas em madeira, não existem por lá casas em alvenaria. E agora o gato vai pular mais uma vez e bem alto: noventa por cento dos americanos aprendem marcenaria desde a infância, todos possuem em suas casas uma oficina ou uma garagem com ferramenta$$$ as mais variadas possíveis para a prática dessa atividade. Portanto, fazer móveis, reformar casas é um hábito já arraigado na cultura dos americanos há mais de um século. Além disso, desde cedo também aprendem botânica e jardinagem cuidando de seus próprios jardins. Podemos conferir isso em praticamente 100% dos filmes americanos.

O movimento ganhou força a partir de 1950 e muitas das pessoas que praticavam essa modalidade se transformaram em pequenas empresas no comércio de móveis e na construção de casas de madeira. A ideia do DIY acabou se expandindo para diversos países, sobretudo com o surgimento da internet. As pessoas acreditam que essa prática pode ser utilizada nos mais diversos tipos de atividades tais como, hidráulica, costura, pintura, alvenaria, mecânica automotiva, etc. Só que não! É preciso estudo, muito treinamento e experiência para se aventurar em fazer por si próprio o que um profissional bem treinado executa muito melhor. Além disso, ter à disposição um arsenal de ferramentas que custa os olhos da cara e que será usado uma única vez para depois ficarão enferrujando num quartinho de despejo.

Um vídeo no youtube cuja duração é de 18 minutos no qual uma moça simpática ensina a restaurar e pintar uma escrivaninha de madeira, na verdade ela levou quase uma semana para concluir o trabalho. Isto porque, para cada demão de selador e tinta deve-se aguardar 24 horas para a secagem para fazer uma segunda demão. Um trabalho que requer amplo espaço, bancadas, jornais para forrar o chão porque a sujeira é infinita; materiais específicos que incluem lixas (a moça utilizou uma lixadeira elétrica profi$$ional!!), pincéis, além de três latas de tintas (cada uma de uma cor que ela misturou para se obter uma cor final) de boa marca, selador e verniz. Fiz uma consulta de preços desses materiais usados e cheguei a um valor estimado entre R$ 450,00 a R$ 520,00 reais (sem a lixadeira elétrica!), dependendo da marca dos produtos e do fornecedor. 

Vale a pena? Gastar tempo, ter um espaço próprio, na verdade uma oficina, encarar uma sujeira brutal, gastar dinheiro com materiais que será usado uma única vez e depois ficarão esquecidos e estragando no quartinho de despejo porque nunca mais serão usados? Sem contar que o resultado poderá ser um desastre? A mesa da youtuber ficou bacana, nota 10! Mas por que será? Alguém adivinhou? Pois é, a moça é simplesmente uma restauradora profissional, tem uma oficina própria e todo tipo de ferramentas necessárias para restauração de móveis, coisas que um aventureiro amador de final de semana metido a sabichão não vai ter não. Ao menos que a pessoa queira ser um profissional como a youtuber, terá que investir em cursos, livros, ferramentas caras e praticar bastante.

E aqui eu reitero o que sempre digo sobre o DIY: não devemos seguir fórmulas mágicas de tutoriais duvidosos que habitam nos mais diversos canais da net,  confie no trabalho de um profissional habilitado, qualificado e bem treinado para fazer o serviço. O custo benefício vai compensar e no mínimo o resultado vai ficar melhor que o seu. Se alguém me apontar 100 motivos para defender o “faça você mesmo”, eu apontarei 1000 motivos para não fazê-lo, os prós jamais suplantarão os contras. Outros artigos virão sobre o tema, não vejo a hora, o notebook chega a tremer!


No trabalho do Freelancer não pode haver relação de subordinação

Existem muitas dúvidas razoáveis de Freelancers que atuam no mercado de trabalho. Tais dúvidas se traduzem principalmente em reclamações pel...