segunda-feira, 6 de abril de 2009

Abaixo o Diploma

por Charles Murray*

A proposição que lhes apresento hoje nessa exposição é que faculdade é coisa do demônio. Cursos universitários causam danos à maioria dos jovens, são absolutamente ineficientes como fontes de informação para os empregadores e têm parte no surgimento de uma divisão de classes.

Antes de explicar o porquê, deixem-me exemplificar algumas coisas que não estou discutindo.

Não estou reclamando de muitas pessoas terem acesso à educação após o ensino médio. Pelo contrário, sou favorável à educação pós-ensino médio para os jovens.

Não estou negando que a posse de um diploma de graduação esteja estatisticamente associada a uma renda maior ao longo da vida – e que esse benefício econômico permaneça mesmo quando são consideradas as medidas do capital humano (por exemplo, o QI do avaliado), campo de estudo e outras variáveis de sua formação.

Não estou depreciando o valor de uma educação liberal clássica. Pelo contrário, acredito que poucos jovens têm sido expostos às questões da educação liberal (esse é o assunto do qual eu falarei pouco nessa apresentação. No meu recente livro há uma longa discussão sobre educação liberal.)

Por que o sistema atual não faz sentido

Quais são, então, as minhas reclamações em relação ao sistema atual? Talvez a forma mais fácil de apresentar meu argumento seria pedir para você se imaginar como membro de uma força-tarefa designada a planejar o sistema de ensino superior americano a partir do nada. Um de seus colegas faz a seguinte proposta:

Em primeiro lugar, vamos determinar um objetivo único para representar o sucesso educacional, que levará quatro anos para ser alcançado, independentemente do que for ensinado. Associaremos a ele uma recompensa econômica que, em geral, não terá nenhuma ligação com o que foi aprendido. Estimularemos um grande número de pessoas que não possuem a capacidade adequada para tentar atingir esse objetivo, a esperar até que tenham gasto uma enorme quantidade de tempo e de dinheiro, e então o negaremos a elas. Estigmatizaremos todos aqueles que não atingirem esse objetivo, que chamaremos de “diploma.”

Você pensaria que seu colega estava sendo cruel, para não dizer louco. Mas esse é o sistema que temos. Ele não faz o mínimo sentido. E essa é a razão:

...que levará quatro anos para ser alcançado, independentemente do que for ensinado.

Quatro anos de estudo fazem sentido para estudantes que estão tentando obter uma educação liberal e, dessa maneira, precisam de alguns cursos de filosofia, religião, literatura clássica e moderna (inclusive a história da ciência), adquirir fluência em uma língua estrangeira, e participar de alguns cursos básicos de ciências sociais. Qual a porcentagem de estudantes que desejaria fazer isso? Dez por cento? Talvez seja um número muito otimista. Quaisquer que sejam os números exatos, é certo que são uma pequena minoria.

Para todos os outros, estudar por quatro anos é ridículo. Supondo um sistema semestral, com quatro cursos por semestre, quatro anos de aulas significam trinta e dois cursos. As profissões que exigem trinta e dois cursos são raras. Na realidade, eu não consigo pensar em nenhum exemplo. Mesmo as escolas de medicina e os cursos de Ph. D. não necessitam de quatro anos de curso. Para o estudante que deseja se tornar um bom administrador de hotéis, designer de software, contador, administrador hospitalar, agricultor, professor de ensino médio, assistente social, jornalista, oftalmologista, designer de interiores ou técnico de futebol, os cursos necessários para a base acadêmica de sua capacitação levam um ou dois anos. Na verdade, o tempo necessário para que alguém se torne um bom profissional é bem maior; porém, a competência em qualquer profissão é em geral adquirida no exercício dela. As faculdades comunitárias de dois anos e os cursos online oferecem opções mais flexíveis do que as faculdades com cursos de quatro anos, ao adequar seus cursos acadêmicos às necessidades reais dos estudantes.

Nós associaremos a ele uma recompensa econômica que, em geral, não terá ligação alguma com o que foi aprendido...

A graduação realmente garante um adicional ao salário médio do trabalhador, mas não existe uma razão que justifique esse fenômeno.

Em primeiro lugar, considere as profissões que dependem do que se aprende na faculdade, como engenharia, ciências e cursos ligados às áreas administrativas as empresas. Vejamos o caso específico da contabilidade. É possível graduar-se em ciências contábeis. Existe também um exame que deve ser feito para que o graduado se torne um Contador Público Autorizado (CPA). Esse teste é abrangente (quatro seções, em um total de quatorze horas de prova). A obtenção dos pontos necessários para aprovação indica a sua competência (a taxa de aprovação é menor que 50% em todos os quatro testes). A pontuação dos candidatos é registrada juntamente com sua aprovação/reprovação. Assim, os empregadores podem avaliar onde está a fraqueza do candidato em sua capacidade contábil. Se eu sou o empregador dos contadores e posso escolher entre um candidato com um resultado medíocre no teste, mas com um curso de graduação em ciências contábeis e outro que estudou online, que não tem curso superior, mas que obteve um resultado extraordinário no teste, não vejo razão pela qual minha escolha deveria tender para o candidato que possui o diploma.

Os méritos do exame para se tornar um CPA se aplicam a qualquer curso superior cujo diploma seja utilizado como qualificação profissional. Para dar apenas alguns exemplos: jornalismo, justiça criminal, serviço social, administração pública e vários cursos amparados sob o nome de gestão de negócios, ciências da computação, engenharia, engenharia tecnológica e educação. Esses cursos totalizam quase dois terços dos diplomas de bacharelado conferidos em 2005. Em cada um desses casos, um bom teste de certificação informaria mais aos empregadores a respeito da capacidade dos candidatos do que seu diploma.

Agora, considere os candidatos a uma vaga de emprego que tiveram uma formação universitária que era, digamos, apenas indiretamente relacionada com o seu desempenho profissional. Refiro-me a pessoas como eu (graduado em história russa), pessoas graduadas em ciências políticas, sociologia, literatura inglesa, belas artes e filosofia, sem mencionar os cursos mais excêntricos (por exemplo, estudos de gênero). Para pessoas como nós, apresentar uma graduação como essa a nossos empregadores corresponde a apresentá-los uma indicação grosseira de nossa inteligência e perseverança. Se tivermos cursado uma universidade de elite, isso geralmente indica que fizemos um grande ensino médio (entrar em Harvard e Duke é bem difícil, mas formar-se em Harvard ou Duke, caso você não estude matemática ou ciências, é bem fácil).

Sim, o adicional salarial também está associado a cursos de graduação, mas, por favor, não me diga que isso acontece porque os empregadores acreditam que as universidades aumentam o nosso capital humano. Os empregadores não são ignorantes. Eles sabem que as universidades podem ter aumentado nosso capital humano. De vez em quando, as universidades realmente ensinam seus alunos a escrever e pensar de forma mais rigorosa e esses são recursos úteis para levar ao mercado de trabalho. No entanto, os empregadores também sabem que seria ingênuo supor que um típico formando procurou sempre os professores mais exigentes e trabalhou duro na lógica e na sintaxe de seus trabalhos semestrais. Uma implicação mais provável da graduação é que seus detentores possuem certa capacidade intelectual crua que o empregador pode ser capaz de utilizar após um treinamento apropriado.

Finalmente, considere as centenas de milhares de estudantes que vão à universidade apenas por terem colocado em suas cabeças, desde sua infância, que é necessário um diploma para se obter um bom emprego. O adicional salarial que aparece nas equações regressivas pode se aplicar a eles ou não. Em Real Education [Educação real], mostro um exemplo mais amplo, envolvendo um jovem hipotético, terminando o ensino médio, que está no septuagésimo percentil em capacidade intelectual – inteligente o bastante para obter um diploma de graduação no mundo de hoje – mas apenas na média em capacidade inter e intrapessoal. Está no nonagésimo quinto percentil nas habilidades visuais, espaciais e motoras boas para ser um eletricista de primeira. Ele está decidindo se vai para universidade, fazer um curso em administração de empresas e tentar se tornar um executivo, ou se vai tornar-se um eletricista.

A base desse exemplo é que ele não pode comparar a renda média de um administrador com a renda de um eletricista. Se a configuração de suas capacidades mostra que ele poderia se graduar em uma universidade mas, no entanto, suas habilidades cognitivas e interpessoais são mínimas para uma carreira de sucesso nos negócios, ele deve reconhecer que estará em desvantagem na competição por promoções após obter seu emprego de colarinho branco. As estatísticas sobre renda são relevantes para aqueles que estão entre os menos bem pagos entre os administradores. Se a configuração de suas capacidades demonstra que ele poderia se tornar um grande eletricista, ele precisaria se concentrar na renda dos eletricistas do topo da distribuição.

Antigamente se considerava que um QI de 115 ou mais faria de alguém um “material universitário de primeira.” Essas pessoas fariam parte de uma fatia de aproximadamente 16% da população. Como 28% dos adultos possui diplomas universitários, o QI necessário para graduação hoje em dia é obviamente bem menor que 115. Porém, a capacidade cognitiva necessária para lidar com os trabalhos universitários não mudou. Um estudo recente sobre a “preparação universitária” feito pelo College Board perguntou que pontuação seria necessária no SAT para se ter 65% de chances de manutenção de uma nota média de 2.7, no primeiro ano de faculdade, em uma amostra de 41 instituições importantes, que incluíam universidades estaduais e universidades de elite. A resposta foi uma pontuação de 1180 na combinação do SAT verbal e de matemática, uma pontuação que apenas 10% dos estudantes de 18 anos obteria se todos fizessem o SAT. Essa exigência também não foi inflada pela inclusão das universidades de elite na amostra – a diferença no desempenho das universidades seletivas e não seletivas foi de apenas 23 pontos.

Então, mesmo que os cursos universitários tenham sido simplificados, ainda são intelectualmente exigentes demais para a grande maioria dos estudantes, em uma idade em que 50% daqueles que terminam o ensino médio irão para a universidade no ano seguinte. O resultado é um caminhão de fracassos. Daqueles que entraram em um curso universitário de quatro anos, em 1995, apenas 58% já tinham se graduado após cinco anos. Outros 14% ainda estavam matriculados. Se supusermos que metade desses 14% acabarão se formando, aproximadamente um terço daqueles que entram na universidade com a esperança de obter um diploma desistem no meio do caminho, em geral após acumularem grandes dívidas por conta das mensalidades.

Se esses números tivessem sido produzidos em uma cultura na qual um diploma universitário fosse algo legal de se ter, mas que não fosse nada demais, eles poderiam ser interpretados como o resultado de jovens adultos decidindo que, no fim das contas, não desejam um bacharelado. No entanto, esses números foram produzidos por um sistema no qual a graduação em uma instituição de ensino superior é algo importante, o que nos traz ao papel crescentemente preocupante dos cursos superiores como fonte de divisão de classes.

Ainda estigmatizamos todos aqueles que não atingem o objetivo

Os Estados Unidos sempre tiveram símbolos de classe e um diploma universitário sempre foi um deles. Mas durante a primeira metade do século XX houve diversas razões dignas pelas quais uma pessoa poderia não freqüentar uma faculdade – ou não ter dinheiro suficiente para pagar por elas; a necessidade de trabalhar para dar apoio a esposa, aos pais ou a irmãos mais jovens; ou a crença comum de que a entrada no mercado de trabalho era uma preparação melhor para o mundo dos negócios do que a universidade.

Enquanto o número de formados permaneceu pequeno, todos sabiam que grande parte das pessoas mais intelectualmente capazes dos Estados Unidos não possuíam formação superior. Durante o século XX, três tendências uniram forças. A primeira foi a crescente proporção de empregos que exigiam uma alta capacidade acadêmica, devido ao nível avançado de educação. - engenheiros, médicos, advogados, professores universitários, cientistas e profissionais desse tipo. A segunda foi o aumento do valor de mercado desses empregos. A terceira foi a abertura das faculdades àqueles que possuíam capacidade acadêmica para entrar em uma faculdade, em parte em razão do aumento da riqueza dos Estados Unidos, significando que um número maior de pais poderia pagar uma universidade para seus filhos em parte por causa da proliferação de bolsas de estudo e empréstimos, o que possibilitou à maioria dos estudantes a oportunidade de seguir adiante. O efeito combinado dessas três tendências foi a subversão do estado como as coisas se encontravam durante a Segunda Guerra Mundial. Agora, a grande maioria das pessoas intelectualmente capazes dos EUA possui diploma universitário.

Junto com essa transformação veio um inconveniente que poucos previram. As desculpas aceitáveis para não se ter um diploma universitário se esgotaram. Quanto mais pessoas vão para a faculdade, mas estigmatizadas se tornam aquelas que não conseguiram completar o bacharelado. Hoje, se você não é formado, a maior parte das pessoas supõe que você é muito incapaz ou muito preguiçoso. Dizer “eu só tenho o ensino médio”, em 2008, é rotular-se, em algum sentido relevante, um cidadão de segunda classe. Por mais que as pessoas que gostam do sistema atual (por exemplo, pessoas que se dão bem no ambiente acadêmico) manifestem-se pelo igualitarismo, isso não mudará essa realidade – uma realidade alimentada por um pedaço de papel que, para a maior parte dos estudantes, não faz o mínimo sentido.

Testes são o ideal

Assim, aceitei minha missão de fazer tudo que posso para reduzir a importância dos cursos universitários. A boa notícia é que as condições são apropriadas para a mudança. Existe um mundo de trabalho diversificado por aí, cheio de empregos interessantes, com bons salários e absolutamente recompensadores, que não necessitam do tipo de treinamento que as universidades fornecem. Existe um mundo crescente e vital de educação online que está revolucionando as possibilidades de obtenção de educação superior.

Nenhuma barreira técnica deve impedir o caminho da evolução em direção a um sistema no qual os testes de certificação substituam o diploma universitário. Milhares de testes como esses já existem, para tudo, de inspetores do código de construção a especialidades médicas avançadas. O problema é a falta de testes que sejam nacionalmente aceitos, como o CPA. Mas quando tantos participantes se beneficiariam, existe uma oportunidade de mercado. Se uma companhia de testes conceituada como a Educational Testing Service tomasse a decisão estratégica de criar testes de certificação definitivos, ela poderia coordenar seus esforços com grandes empregadores, grupos profissionais e universidades não tradicionais para fazer de seus testes o padrão ouro. Algumas decisões-chave poderiam produzir um efeito cascata. Imagine se a Microsoft anunciasse que iria, a partir daqueles momentos, exigir determinados resultados em certas baterias de testes de certificação para todos os seus candidatos a uma vaga de programador. Os resultados daquela bateria adquiririam credibilidade instantânea para os candidatos a uma vaga de programador em toda a indústria.

Em meu sistema ideal, os campi universitários dos Estados Unidos ainda existiriam e ainda estariam cheios de estudantes. Alguns desses estudantes permanecerão por quatro anos, como anteriormente, mas vários outros chegarão e deixarão a faculdade em um calendário que faça mais sentido para seus próprios objetivos. As faculdades, em meu sistema ideal, teriam de se adaptar suas operações para dar conta das novas demandas, mas as mudanças na tecnologia da informação estão chegando tão rápido que uma grande adaptação será necessária de qualquer forma.

O maior mérito do meu sistema ideal é esse: dificilmente haverá algum emprego que tenha o diploma universitário como condição para a contratação. Os empregadores confiarão mais nas evidências diretas sobre o que o candidato ao emprego sabe e menos em onde ele aprendeu aquilo ou em quanto tempo.

Para mim, o mais importante, senão o mais intangível benefício do meu sistema ideal, é que a demonstração de competência em história européia ou em marketing seria, com razão, similar a uma demonstração de competência culinária ou mecânica. A nossa obsessão com os diplomas universitários criou uma separação ao entrarmos na idade adulta, ungindo alguns com a admissão no clube e rotulando os outros como cidadãos de segunda.

Essa é a realidade: todo mundo, em todas as profissões, começa como aprendizes. Aqueles que são bons o suficiente tornam-se artífices. Os melhores se tornam artesãos mestres. Essa é a história verdadeira de professores e executivos, bem como de chefs ou soldadores. Devemos nos livrar dos diplomas universitários e substituí-los pelas provas de competência – tratando a educação superior como estágios de aprendiz para todos – é uma forma de nos ajudar a reconhecer esse laço comum.
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*Charles Murray é Cientista Político do American Enterprise Institute e autor do livro "The Bell Curve"

Fonte: www.ordemlivre.org


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