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terça-feira, 8 de setembro de 2026

Filme: Miss Sloane aborda: estratégia, ética profissional, vício em trabalho, lealdade entre parceiros de profissão




"Fazer lobby é sobre previsão, é sobre antecipar o movimento do seu oponente e elaborar um contra ataque. Trata-se de garantir que você os surpreenda" (Elisabeth Sloane)


Não são muitos os filmes que tratam de questões pontuais no dia a dia no ambiente corporativo, mesmo porque, a maioria dos cinéfilos prefere relaxar com uma divertida comédia, suspense ou ficção. Entretanto, quem aprecia temas corporativos às vezes um tanto quanto pesados, vai extrair desse belíssimo filme, Miss Sloane (Armas na Mesa) de 2016, lições de estratégia, sagacidade, lealdade, conduta ética (ou a falta dela) e sobretudo, o preço caro que se paga quando se trata de uma workaholic, no caso, a intrigante, dona de um humor ácido e inteligentíssima protagonista, Elisabeth Sloane, interpretada magistralmente pela atriz Jessica Chastain, que inclusive foi indicada ao prêmio Globo de Ouro pela brilhante atuação.

O roteiro é uma história fictícia elaborada por um advogado, porém segundo ele próprio, a construção da personagem de Sloane foi baseada numa pessoa real. Sim, existem pessoas viciadas e obcecadas em trabalho e de uma sagacidade perturbadora como Elisabeth Sloane a tal ponto de arquitetar a sua própria prisão forjando um documento que lhe incriminaria (sim, ela vai ser presa, mas esse spoiler é necessário) para ganhar uma causa (e ganhou! outro spoiler necessário). Sloane é uma lobista famosa, muito disputada no mercado e premiada pelo seu trabalho atuando há 11 anos na consultoria de lobby, a Cole Kravitz & Waterman, que presta serviços para o congresso americano.

A consultoria na qual Sloane trabalha é contratada por congressistas republicanos para trabalhar num projeto de lei cuja pauta é aprovar para que qualquer cidadão americano possa adquirir uma arma sem qualquer tipo de restrição. Sloane é designada para trabalhar na campanha dessa pauta (convencer senadores/políticos, etc para aderirem à pauta). No entanto, quando é chamada para a reunião, Sloane se recusa a assumir o caso e ainda faz chacota ridicularizando os autores da proposta. O dono da empresa chama Sloane em sua sala e dá-lhe um ultimato: ou ela assume o caso ou pode cair fora da empresa. Ela responde que só trabalha em causas em que ela acredita e no que tange às armas ela já tem opinião formada.

A notícia que Sloane não assumiu a pauta corre rápido e ela é abordada na rua por um homem que ela pensa ser um jornalista, só que tratava-se do CEO Rodolfo Schmidt (Mark Strong) da agência, Perterson Wyatt que assumiu outro projeto de lei (Lei Heaton-Harris) justamente oposta à dos republicanos. É a pauta dos democratas cuja proposta era o controle de armas, ou seja, endurecer mais ainda quem quisesse adquirir porte de arma. Schmidt tenta recrutar Sloane para defender o projeto e pergunta a ela como ela se defini como lobista. A frase que Sloane diz é anotada num papel por Schimidt que no verso desse bilhete  escreve o valor que Sloane ganhará pelos serviços. Esse é o ponto nevrálgico do filme, esse bilhete virá à tona no final.

No dia seguinte Sloane chega ao trabalho, se demite e revela que vai assumir o projeto de lei Heaton-Harris (contra o porte de armas) defendido pela consultoria concorrente. Ela leva junto toda a sua equipe, porém, justamente (MUITA ATENÇÃO AQUI!) a sua braço direito e que aprendeu tudo com ela, Jane Molloy (Allison Pill) se recusa a ir com ela alegando que Sloane vai assumir uma causa perdida. As duas batem boca, Sloane responde que não perde causa e que não terá compaixão com  Jane que decide ficar. Hum, será que temos aqui um problema de falta de lealdade por parte da sua fiel escudeira Jane? Eu creio que não, veremos isso no final.

Já na agência Peterson Wyatt, Sloane vai utilizar de todas as suas habilidades (algumas delas questionáveis) para conseguir adesão de senadores ao projeto de lei Heaton-Harris. Quando ela expõe ao CEO Schmidt o seu plano, ele naturalmente se assusta, não concorda com o plano invocando os limites éticos da empresa e proíbe Sloane de utilizar seus métodos eticamente questionáveis. Mas, endiabrada como é, ela vai em frente e faz tudo o que o CEO não aprovou, afinal, ela sabe o que faz, custe o que custar. Estranho dizer isso, mas Sloane se valeu até mesmo de uma barata "espiã" (é, um inseto) para ganhar a causa e deu certo: um plano que ela denominou "earthquake", ou seja, plano terremoto.

Temos então Sloane em plena ação para convencer políticos para adesão ao projeto Heaton-Harris. A cena do debate transmitido pela TV de Sloane X seu ex-patrão é impagável, debate no qual ela obviamente saiu vitoriosa. A sua própria equipe e o seu chefe Schmidt, atônitos, não acreditavam no que estavam ouvindo. Sloane fez tudo diferente do que estava combinado e mais uma vez surpreendeu a todos. Ela jogou pesado expondo  no debate  problemas pessoais de sua colega de trabalho, Esme (Gugu Mbatha-Raw) sem que a mesma a autorizasse. Após o debate, Schimidt diz a Sloane que ela passou dos limites e ameaça tirá-la da campanha. Ela responde que entrou na causa para ganhar e para que Schmidt cheque a quantidade impressionante de senadores que aderiram à proposta após o debate na TV. Então, o que parecia uma causa perdida começa a virar em favor de Sloane. o que deixou seu ex-patrão e os senadores republicanos em polvorosa. 

Mas o ex-patraão de Sloane também joga pesado e armará uma cilada para uma funcionária, a Esme, colega de trabalho de Sloane. Essa cilada faz com que muitos senadores retirem a adesão ao projeto Heaton-Harris que Sloane defende.

Os senadores republicanos perdendo o jogo ainda exigem para que o ex-patrão de Sloane  acabe com a carreira dela. Para isso é preciso que encontrem algum erro grave que ela cometeu no passado para incriminá-la, o que na prática seria (seria!) praticamente impossível em razão do perfeccionismo de Sloane. Para isso entra em cena a ex-escudeira de Sloane, Jane Molloy que encontrará um documento (aquele documento que a própria Sloane forjou antes de se demitir) que compromete a sua carreira profissional. Pronto, Sloane será intimada a depor no congresso acusada de suborno. Ela é orientada pelo advogado da empresa (que diga-se de passagem a considera uma pessoa desprezível), mas ela fará tudo diferente que o advogado a orientou. Nos depoimentos ela vai deliberadamente cometer perjúrio e apresentar provas obtidas por meios ilegais. Sim, aquela baratinha "espiã" (plano terremoto) está prestes a fazer um estrago daqueles com transmissão em tempo real em rede nacional pela internet.

Então chegamos na parte final do julgamento de Sloane no congresso. Numa jogada de mestre, Sloane vira o jogo novamente a seu favor obviamente causando espanto em todos ali presentes. É o  xeque-mate final que fará com que posteriormente a lei Heaton-Harris seja aprovada. Sloane calculou cada passo desde o início, lance por lance, sempre dois ou até três passos a frente de seus adversários. Aquele bilhete escrito pelo CEO Rodolfo Schmidt naquele noite na rua volta à tona e explica tudo. O que está escrito no bilhete?

Na frente do bilhete está a frase que Sloane ditou à Schmidt:

"Uma lobista convicta não pode acreditar apenas em sua capacidade de vencer"

No verso do bilhete o valor dos honorários que Sloane receberia pelos serviços:

"Pelos serviços prestados, Peterson Wyatt oferece a você $0"

O bilhete estava nas mãos da sua fiel e sempre escudeira, Jane Molloy que o entregou ao ex-patrão de Sloane e se demitiu. Lembremos que uma noite antes de se demitir, Sloane telefonou para Jane e marcou uma reunião. O bate boca entre as duas foi apenas teatrinho, Jane era uma infiltrada e o tempo todo estava trabalhando para Sloane! Temos aqui uma das mais comoventes provas de lealdade entre a pupila e sua mestra absoluta!

Pois então, Sloane não ganhou um tostão sequer, não foi por dinheiro, nem por convicções políticas, Sloane impôs a si própria o maior desafio da sua carreira sabendo desde o início que a única maneira de fazer com a lei Heaton-Harris fosse aprovada ela teria que arquitetar a sua própria prisão. E como ela disse já na prisão ao advogado, "funcionou, não?" Ela sabia o que estava fazendo, desde o início porque ela só assumia causas em que ela acreditava. Ela venceu! Condenada a 5 anos de prisão por perjúrio e obtenção de provas por meios ilegais (a baratinha "espiã", o plano earthquake), cumpriu apenas 10 meses (até isso ela previu!), o seu advogado conseguiu a concessão da liberdade condicional. 

A última frase que Sloane disse ao advogado é enigmática: "não foi suicídio da carreira quando o suicídio pela carreira é uma opção"

Meu comentário: A lealdade é uma virtude às vezes cara entre os colegas de trabalho. A lealdade de Jane Molloy, sua pupila e braço direito foi fundamental para a vitória de Sloane. Esse foi o ponto alto do filme que mais me chamou a atenção. A lealdade para com os parceiros de trabalho ou de profissão é um valor incondicional.

Você contrataria Elisabeth Sloane ou Jane Molloy? As duas?


segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Filme Recomendado: O Ônibus Perdido (The Lost Bus): baseado em fatos reais




 “963. Minha previsão de chegada é de 2 minutos.” (Kevin McKay)


O filme “O ônibus Perdido” é uma das grandes boas surpresas cinematográficas deste ano, pois foi baseado em fatos reais cujo herói protagonista é Kevin McKay, um jovem motorista, profissional acima da média de transporte escolar interpretado pelo excelente ator Matthew McConaughey de volta às telas numa atuação impecável. O filme também é inspirado no livro “Paradise: One Town’s Struggle To Survive Na American Wildfire”, da repórter Lizzie Johnson, redatora do jornal San Francisco Chronicle. Ela se mudou para a cidade logo após o incêndio devastador para fazer a cobertura jornalística da tragédia relatada em seu livro.

A tragédia ficou conhecida como “O Incêndio de Camp Fire”, ocorrido no ano de 2018 no condado de Butte, norte da Califórnia. 85 pessoas perderam a vida e muitas desapareceram e onze mil casas destruídas completamente. O incêndio começou por volta das 8:00 horas da manhã na zona rural causado pela queda de uma torre de transmissão de energia elétrica em mau estado de conservação. Em razão das fortes rajadas de vento o fogo se espalhou rapidamente pela vegetação rural vindo a alcançar em pouco tempo as ruas da área urbana. O caos estava instalado mobilizando bombeiros e equipes de resgate daquela região. A cidade estava praticamente cercada e emboscada pelas chamas.

Os bombeiros deslocavam as pessoas para o único local seguro, um grande pátio no centro da cidade que ainda estava isolado do fogo. As escolas tiveram que ser esvaziadas rapidamente e a partir daí é que entra em cena o nosso herói, Kevin, um dos motoristas dos ônibus escolares, ele conduzia o ônibus de prefixo 963. Nesse dia, antes do incêndio, Kevin após deixar as crianças na escola estava conduzindo seu ônibus para uma oficina de manutenção. Depois ele iria para casa de sua mãe que estava doente. No entanto, ele foi avisado sobre o incêndio pelo rádio e que deveria retornar rapidamente para buscar as crianças que havia deixado numa das escolas. Ele estava longe da escola e as chamas já se espalhavam pelas ruas. Ainda assim, Kevin consegue chegar e carregar as 22 crianças restantes na escola mais duas professoras, Mary Ludwig e Abby Davis.

A partir daí o drama começa porque todas as ruas já estavam tomadas pelas labaredas de fogo, não havia como passar. Kevin, conhecedor de todos os atalhos possíveis e impossíveis da região, colocou as suas habilidades em ação para tirar o ônibus daquele caos e salvar aquelas crianças e as duas professoras que transportava. 

E o que vemos na sequência é muito mais do que um motorista habilidoso rompendo labaredas de fogo, fagulhas em brasa, estradas de terra acidentadas, labirintos de fumaça negra, desviando de grossos troncos de árvores que tombavam pelo caminho entre rajadas de vento e escuridão. Vemos diante de nós a bravura e coragem de um homem cujo único propósito era salvar a vida daquelas crianças que estavam no ônibus 963.

O spoiler é inevitável. Enquanto todos naquele pátio, inclusive os resgatistas já consideravam o ônibus escolar 963 como “perdido”, eis que surge ao longe um ônibus todo chamuscado pelo fogo e bastante danificado. Sim, Kevin conseguiu entregar todas as crianças e as duas professoras sem um único arranhão. Sem mais spoilers, não vou citar aqui as iniciativas e tomadas de decisões nos momentos mais críticos que Kevin teve que tomar para seguir em frente em meio às chamas para trazer as crianças em segurança.

Nos dias que se seguiram, Kevin foi notícia em todo o país e recebeu das autoridades locais as devidas e merecidas homenagens. Kevin completou seus estudos e se tornou professor do ensino complementar. Atualmente ele dá aulas para crianças na Fair View High, no Colorado. Em uma de suas entrevistas, Kevin disse o seguinte: 

"o que define a humanidade são aqueles que escolhem ajudar os outros em situações muito difíceis, e a capacidade dos seres humanos de se doarem para ajudar os outros, tendo ou não um bom motivo para fazê-lo".

Uau! O mundo precisa de muitos Kevins. Eles existem, estão espalhados por aí e é justamente nesses momentos trágicos que os encontramos.

OBS: Esse artigo é uma homenagem a todos os profissionais que em algum momento de suas profissões fizeram a diferença, sobretudo para salvar vidas.


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Filme recomendado: Jogo de Espiões (Robert Redford e Brad Pitt)


Entre inúmeros filmes que Redford foi o protagonista sempre em grande estilo, este blog escolheu para homenageá-lo o filme "Jogo de Espiões, um clássico do gênero ação/espionagem". Outro filme que aborda a relação às vezes muito complicada entre mestre e pupilo. No entanto, o personagem de Redford (o agente da CIA Nathan Muir) nos entrega lições de ética, inteligência, sagacidade, redenção e amizade incondicional para com seu ex-pupilo Bishop. Há muitos anos não mais se econtraram após severa divergência entre eles pelo método muito questionável que Muir conduzia as missões. Ainda assim, Muir utilizou de toda sua experiência para libertar da prisão chinesa o ex-pupilo.

Jogo de Espiões é mais uma obra prima dirigida com brilhantismo pelo saudoso mestre Tony Scott. O filme tem como protagonistas, Robert Redford (Nathan Muir) e Brad Pitt (Tom Bishop). Redford em uma de suas mais brilhantes performances é um agente da CIA em seu último dia de trabalho e Pitt é seu ex-pupilo que encontra-se detido numa prisão na China.

Lançado em 2001, tornou-se um clássico no gênero, mais do que um filme espetacular de ação e suspense de tirar o fôlego, o diretor foca no personagem Nathan Muir (Redford) que nos dará formidáveis lições de lealdade, inteligência, sagacidade, amizade e redenção. 

Num passado remoto, Muir recruta Bishop, um exímio atirador que havia se apresentado como voluntário. Muir fica impressionado com a determinação e as habilidades de Bishop e resolve treiná-lo para as missões mais obscuras da CIA. Podemos dizer que Muir se sentia quase um pai para Bishop e disso resultou uma cumplicidade fraterna.

Muir começou a passar missões para Bishop e dava ordens que Bishop não estava de acordo. Chegaram a discutir algumas vezes pelos métodos muito violentos e nada ortodoxos determinados por Muir. Bishop então se afasta de Muir. Porém, algum tempo depois, uma missão em Beirute para eliminar um perigoso terrorista coloca Muir e Bishop novamente juntos. Os dois saem para tomar um café e Bishop dá um presente de aniversário para Muir. É uma garrafinha portátil de bebida que Bishop confiscou numa operação chamada “jantar fora” ("jantar fora", guarde bem essa expressão!).Muir disse a Bishop que ia se lembrar disso.


Acontece que Bishop (disfarçado de fotógrafo) conhece no campo de feridos uma enfermeira voluntária, Elizabeth Hadley (interpretada pela atriz Catherine McCormack). Na verdade, Elizabeth é uma ex-ativista política britânica, porém ela não revela esse fato a Bishop e nem Bishop revela que está em missão pela CIA. Os dois se envolvem e têm um romance. Muir levanta a vida de Elizabeth e revela a Bishop que ela é uma perigosa ativista que participou de atentado em Londres e que resultou na morte do filho de um ministro chinês. Era verdade. Muir e Bishop discutem novamente. Após a missão cumprida em Beirute com a morte do terrorista numa exagerada operação comandada por Muir, os dois agentes rompem a amizade definitivamente para nunca mais se encontrarem. Nesse dia, Bishop retorna ao apartamento de Elizabeth e o encontra vazio. Um bilhete (forjado por Muir) escrito por ela revelando que realmente ela era uma ativista perigosa. Sem Bishop saber de nada, Muir entrega Elizabeth para os chineses em troca de um diplomata que estava capturado. Elizabeth pega prisão perpétua na China.

Muitos anos se passam e no último dia de trabalho de Muir na CIA ele é informado que seu antigo pupilo foi capturado na China e ia ser executado no dia seguinte. Bishop conseguiu rastrear Elizabeth e tentou resgatá-la (isso passa logo no início do filme) numa operação mal sucedida e acabou sendo preso. Os chefões da CIA questionam Muir sobre o que Bishop foi fazer na China. Muir disse que não fazia ideia (mas é claro que sabia!) e nunca mais teve contato com ele. Como não era uma missão autorizada, a CIA lava as mãos e não vai salvar Bishop. Bishop seria executado logo ao amanhecer. Muir é colocado como suspeito e é investigado por um comitê de investigadores. Ele não poderá mais sair do prédio até que esclareça as suas missões com Bishop.

É a partir daí que Muir entra em ação para salvar Bishop sem a CIA saber. O plano que Muir elabora é uma verdadeira lição de criatividade, sagacidade e ousadia. Dentro das dependências da CIA, Muir passa a noite forjando documentos, invadindo salas, telefonando para amigos, falsificando assinatura do diretor da CIA até que ele consegue um contato na China através de um amigo. A operação para livrar Bishop não vai sair barato, vai custar 500 mil dólares! Aonde Muir vai conseguir esse valor? Sim, ele vai usar de sua própria conta bancária, economias que ele juntou ao longo dos anos.

Enquanto isso, ao mesmo tempo, Muir responde impassível com firmeza e muita frieza as perguntas dos investigadores. Ele conta superficialmente sobe a relação de Bishop com Elizabeth, dando poucos detalhes. Por fim, ele fingiu também estar de acordo com o lavar de mãos da CIA para não libertar Bishop, pois foi uma missão não autorizada. Muir então é liberado, mas antes um investigador lhe faz uma última pergunta, o que considero uma dos pontos altos do filme. O investigador lhe pergunta que se ele soubesse que Bishop foi à China a fim de libertar Elizabeth, se ele contaria isso a seus superiores. Muir demora a responder, olha fixo para um ponto qualquer da sala e responde, NÃO! Reflita bem sobre esse “não”, pois isso já valeria o filme.

Nesse mesmo momento, enquanto Muir já havia saído do prédio da CIA, a operação para resgatar Bishop e também Elizabeth está em curso. Um blackout total é provocado no presídio e finalmente Bishop e Elizabeth são resgatados por soldados americanos. E aqui é o que considero o outro ponto alto do filme. O piloto do helicóptero comunica pelo rádio que a missão “jantar fora!” foi cumprida. Bishop escuta e pede para o piloto repetir o que disse. E o piloto repete, “operação jantar fora, senhor”. Impossível não se arrepiar.

Além das lições de inteligência, sagacidade e lealdade ao antigo pupilo que o personagem de Muir nos passa, a maior lição que fica é que sempre há tempo para se redimir de um erro cometido no passado e na maioria das vezes,  o erro nunca sai barato. Mas Muir se redimiu,  (ainda que Bishop estivesse a milhas de distância), com muita inteligência, inabalável, estoico sob a pressão da comissão que o investigava, e como num jogo de xadrez, Muir jogando na defesa com as peças pretas acabou dando um xeque-mate numa jogada de mestre!


segunda-feira, 8 de setembro de 2025

À Altura (The Match): filme recomendado que aborda a difícil relação entre mestre e aluno




"Não importa olhar um para o outro, mas ambos olharem na mesma direção, para frente e mais para o alto" (Saint-Exupéry)


À Altura (The Match) está sendo considerado como um dos melhores filmes do gênero drama lançados esse ano pela Netflix.  Baseado em fatos reais, o filme conta a história dos dois maiores campeões nacionais e internacionais de “Go”, respectivamente, Cho Hun-hyun e seu aluno e futuro campeão, Lee Chang-ho, ambos sul-coreanos. Go é um complexo jogo de tabuleiro criado na China há mais de 2.500 anos sendo provavelmente o jogo mais antigo do mundo e que trata do cerco e domínio de territórios representados no tabuleiro por peças brancas e pretas.

Os protagonistas dão um show de interpretação, o professor e campeão Cho é interpretado pelo talentoso ator Lee Byung-hun e seu aluno Lee é interpretado por Yoo Ah-in (já adulto) e Kim Kang-hoon (garoto), ambos atuam magistralmente. A semelhança física com os campeões reais é impressionante. A direção é do competente cineasta e roteirista Kim Hyeong-ju, conhecido por alcançar resultados surpreendentes ainda que sempre trabalhe com baixo orçamento. Destaca-se também o cenário e a fotografia impecáveis da ambientação do filme na década de 80 ocasião em que se deu o encontro entre mestre e aluno.

Cho, após vencer mais um campeonato conhece um garoto (Lee) prodígio que costuma jogar GO nas praças da cidade e vencer todas as partidas disputadas ao mesmo tempo com diversos jogadores. Cho o observa jogar, reconhece que o garoto tem enorme talento, provavelmente vê nele um futuro campeão de Go, porém o garoto precisa de mais sutileza e treinamento apesar de jogar muito bem. Cho lhe faz um convite para treiná-lo em sua casa. Lee então, feliz da vida, aceita o convite e se muda para a casa do campeão e mestre Cho.

A relação entre mestre e aluno é bastante conflitante. Cho é duríssimo e implacável com Lee nas lições que compreendem as aberturas, ataques e defesas das partidas. Lee é admitido no clube de Go da cidade e vai ganhando todas as partidas que disputa, não há páreo para ele a não ser o seu mestre Cho que sempre demonstra insatisfação com o estilo de jogo de seu pupilo. 

O tempo passa e Lee desenvolve secretamente o seu próprio estilo de jogo, estilo esse que seu mestre Cho não aprova por julgar falta de sutileza e de classe. Até que chega o dia da disputa do campeonato oficial no qual o campeão Cho terá que enfrentar o segundo jogador no ranking que é nada mais nada menos do que seu aluno Lee. É uma partida tensa, angustiante que leva quase um dia, pois dois gigantes estão disputando o campeonato mundial. Cho perde a partida para o seu aluno Lee que se sagra campeão. Lee não se empolga, muito menos comemora a vitória para o espanto dos repórteres e fotógrafos presente que acompanharam a partida.

É a partir desse ponto que o drama vai se desenrolar, pois a vitória de Lee causará mudanças nas personalidades de mestre e aluno. Lee deixa a casa de Cho e retorna para a casa de seus pais. Ele se torna um sujeito apático e melancólico enquanto Cho não consegue digerir a derrota para o ex-aluno. Até que Cho encontra um jogador de Go, Nam (Jo Woo-jin) seu ex rival de inúmeras partidas e que fará com que Cho resgate o campeão e grande mestre que ele é. Cho e Lee se encontrarão novamente para uma outra disputa de campeonato.

Bem, apesar de muitos que assistiram o filme tenham reprovado as lições duras e implacáveis que Cho impunha a seu aluno, o mestre enfim entendeu que as suas duras lições fizeram com que Lee acabasse criando o seu próprio estilo de jogo diferente de seu mestre. Mas como nos ensinou o filósofo Sócrates, não é esse mesmo o papel do mestre? Forjar o aluno para que descubra o seu próprio caminho e estilo para um dia então deixar de ser aluno e se tornar também um mestre? Entendo que Cho cumpriu o seu papel  magistralmente e com muita maestria fazendo com que Lee se tornasse um mestre de GO e campeão absoluto por anos consecutivos tal como Cho, o seu mestre. Leonardo da Vinci que foi um grande mestre sabiamente escreveu em seus cadernos de anotações:

"Triste discípulo aquele que não se esforça para ultrapassar seu mestre; e é um triste mestre aquele que se indigna de ver seus discípulos preocupados em ultrapassá-los".

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Lições de estoicismo no filme "A Livraria"

 


Aviso: contém alguns spoilers!


O filme “A Livraria” de 2017 é a adaptação para o cinema do livro de mesmo nome escrito em 1978 pela premiada romancista e poetisa inglesa Penélope Fitzgerald (1916-2000). Ambientado no ano de 1959, o roteiro adaptado é dirigido pela cineasta espanhola Isabel Coixet. Narra a história de uma viúva (Florence Green) de meia idade que se muda para Suffolk, uma pacata cidade litorânea do leste da Inglaterra para abrir uma livraria na sala de casa onde ela reside. O filme teve treze indicações de prêmios. A diretora Isabel Coixet levou o Prêmio Goya espanhol em três categorias: melhor filme, melhor direção e melhor roteiro adaptado.

Os obstáculos começam com a resistência que Florence encontra em obter o alvará para o funcionamento da livraria. A casa alugada por Florence era objeto de cobiça pela senhora Violet Gamart, uma figura maligna, poderosa e rica com muita influência política na pequena cidade na qual ela mandava e desmandava, bastava estalar os dedos. Violet obviamente não gostou da forasteira Florence muito menos da ideia da livraria.

Na pequena cidade de Suffolk os habitantes não eram muito afeitos aos livros com exceção do senhor Edmund Brundish, o único leitor voraz na cidade e que será um dos principais clientes e se tornará amigo de Florence. Outra figura de destaque (para mim depois de Florence, a principal!) na trama é a garotinha Christine que trabalhará meio período na livraria por algum tempo e também estabelecerá uma afetuosa amizade com Florence. Christine não gosta de livros, mesmo assim Florence lhe dá um livro de presente e o deixa na estante para quando Christine se interessar por ele.

A livraria até que prospera bem, o senhor Brundish é cliente assíduo, embora seja um homem recluso e nunca vai pessoalmente à livraria. Florence lhe envia todos os lançamentos pelo correio. No entanto os habitantes da cidade nunca perdem a oportunidade de hostilizar Florence quando a encontram pela rua. A sua resposta é sempre um sorriso, Florence nunca se abala com as provocações que lhe fazem o que irrita mais ainda os provocadores. Florence é uma forte personagem estoica.

Christine é proibida pela fiscalização de continuar ajudando na livraria e Florence confia então para substituir a garotinha o senhor Milo que se oferece para o trabalho, se faz de amigo num primeiro momento, mas se revelará um canalha traidor, pois é pau mandado da senhora Violet e denunciará Florence para a fiscalização.

Após a denúncia feita pelo Sr. Milo, Florence é notificada que será despejada do local. Naturalmente que tudo isso tem por trás a influência maligna e política da senhora Violet. Florence então recorre ao seu amigo, o senhor Edmund Brundish que, antigo morador da cidade, vai interceder a favor de Florence tendo uma conversa com a senhora Violet.

A conversa entre o senhor Brundish e a senhora Violet não surte efeito algum, ela o humilha sem dó nem piedade e na volta para casa, Brundish, abalado sofre um infarto fulminante. Não há mais nada a fazer, Florence tem que desocupar o imóvel sem qualquer indenização e deixar a cidade. Ela encaixota os livros, seus pertences e faz as malas. Ela deixa na estante vazia o livro que ela deu de presente para a garotinha Christine.

Uma balsa espera Florence no cais. Ela adentra na balsa que se afasta e desliza lentamente pelas águas deixando a cidade. Christine aparece correndo e abana as mãos se despedindo de Florence. Christine segura firme na outra mão o livro que Florence lhe deu de presente, antes ela esteve na livraria já vazia e pegou o livro que lá estava a sua espera.

A história toda desde o início é narrada “in off” por uma voz feminina. Trata-se de Christine que muitos anos depois já adulta, montou a sua própria livraria, uma linda livraria diga-se de passagem.

Quais as lições estoicas que tiramos dessa bela história?

Sabemos que os quatro pilares das virtudes cardinais estoicas são: Coragem, Sabedoria, Justiça e Temperança. Florence Green revelou uma coragem impressionante para enfrentar a hostilidade de Violet e os habitantes de Suffolk. Num diálogo inesquecível com o Sr. Brundish ele a elogia e a admira pela sua coragem, coragem essa que nenhum habitante da cidade ousaria ter. Além de sua coragem, a serenidade inabalável com que enfrentou a situação nos passa até mesmo uma sensação de desconforto. Muitos que assistiram o  filme criticaram a personagem de Florence por essa postura serena ou não reativa. E aí encontramos os ensinamentos dos filósofos estoicos Sêneca e Epicteto: "concentre-se no que pode controlar, aceite o que não pode" Ou então de Marco Aurélio: "Apenas faça a coisa certa, o resto não importa". Florence fez a coisa certa e de acordo com um princípio estoico denominado Analogia do Arqueiro: "podemos aceitar o resultado porque fizemos nosso melhor, se o resultado não é satisfatório, devemos aceitá-lo facilmente e dizer, bem, eu fiz o meu melhor”. Florence deu o melhor que ela pode, ela plantou uma semente e deixou um legado que fez a diferença para uma pessoa, no caso, a garotinha Christine.

Além disso:

O filme tem mais força do que o livro, pois a belíssima e magistral fotografia confere à trama uma carga dramática fabulosa que ajuda a compreender a psicologia de cada personagem.

O filme é permeado por muitos simbolismos entre eles, os livros que aparecem durante a trama, como por exemplo, o famoso best-seller "Fahrenheit 451, de Ray Bradbury que conta a estória de um bombeiro cuja função é queimar livros.

Os atores protagonistas, Emily Mortimer (Florence Green), Honor Kneafsey (Christine), Bill Nighy (Edmund Brundish), Patricia Clarkson (Violet Gamart) e James Lance (Milo Noth) têm performances espetaculares e dão um show de interpretação.

E por fim, para os amantes e apaixonados por livros trata-se de um filme imperdível e obrigatório, na verdade os livros também são protagonistas e viram alvos de ataque por pessoas ignorantes e incultas. E a bela resposta para isso é uma frase proferida por Florence Green e depois repetida no desfecho do filme por Christine: 

"Numa livraria nunca se está sozinho"

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Filme recomendado: 16 Quadras (Mensagem a Garcia)


“Eu tentei fazer uma coisa boa” (Jack Mosley)

Às vezes alguns filmes classificados no gênero ação/policial acabam passando batidos das análises das relações de trabalho. É o caso desse magnífico filme, “16 Quadras" (2006), dirigido pelo saudoso diretor Richard Donner (Máquina Mortífera) cujo tema central envolve ética, caráter, dedicação profissional, redenção, amizade, mudança de comportamento (sim, as pessoas podem mudar), coragem nas tomadas de decisões que podem mudar a vida do profissional para sempre. Ainda que tal mudança possa custar caro.

Mensagem a Garcia

Coincidência ou não, mas o filme ilustra muito bem algo que é bastante divulgado nos cursos de administração que é a famosa Mensagem a Garcia. Grosso modo, Mensagem a Garcia é um ensaio escrito em 1899 pelo escritor e editor Elbert Hubbard e que foi traduzido para mais de 37 idiomas. Trata-se de uma exaltação a pessoas diligentes e com autonomia para executar tarefas e cumpri-las mesmo diante de adversidades de todos os tipos. Foi o que fez o policial Jack Mosley. O spoiler aqui é necessário. Sim, Jack cumpriu a missão que lhe foi dada e o preço saiu caro.

O argumento do filme

O policial Jack Mosley (Bruce Willys) recebe a missão de conduzir o preso Eddie Bunker (Mos Def) até o fórum central no qual Eddie vai prestar depoimento. Do presídio até o fórum são 16 quadras. E o trajeto que seria feito em apenas 15 minutos se transformou em duas horas de pesadelo para ambos sendo caçados pelas ruas por toda a polícia daquele distrito.

Perfil dos protagonistas

Jack Mosley (Bruce Willys na sua melhor e magistral performance na minha opinião) é um policial alcóolatra com um aspecto cansado, mal humorado e enfadonho, parece estar sempre embriagado. Porém, as expressões de seu rosto revelam sagacidade, experiência e inteligência. Fala pouco e age mais, toma decisões rápidas, precisas e improvisa com o que está disponível. Responde as perguntas de Eddie com o que conhecemos por “silêncio incômodo”.

Eddie Bunker (em grande performance do rapper Mos Def) é o oposto de Jack. É muito engraçado, um falastrão, otimista, carrega um caderno com receitas de bolos, tem como objetivo mudar de vida e abrir uma confeitaria em Seattle. Fecha um contraste perfeito em relação a Jack Mosley e confere uma leveza ao peso da trama. Os diálogos entre os dois são impagáveis e já valem o filme.

A missão

O policial Jack Mosley não estava em serviço naquela manhã e como ele pernoitou trabalhando já estava indo embora quando foi chamado pelo seu superior. Este pediu a ele que conduzisse um preso (Eddie Bunker) até o fórum local, perto dali. De início Jack relutou, mas acabou aceitando muito a contra gosto. No caminho Jack foi muito apático com Eddie e praticamente ignorou a tagarelice de Eddie que não parava de falar.

A emboscada 

Jack, alcóolatra que era, para no meio do caminho e desce do carro para tomar um trago num bar. Ele deixa Eddie algemado no banco de trás. Enquanto Jack está no bar, dois marginais cercam o carro para eliminar Eddie. Ouve-se um disparo e lá estava Jack, firme, com um olhar perturbador e com a arma em punho. Ele eliminou o marginal antes que este atirasse em Eddie. E foi a primeira vez, entre tantas outras que Jack salvou a vida de Eddie. Jack logo compreendeu que Eddie estava na mira de alguém e não se tratava apenas de um ladrãozinho que iria depor.

Jack corre com Eddie para um esconderijo, no caso, um bar de um amigo. Lá, Jack pede reforço policial. Quando chega o reforço, um deles é Frank Nugent (também com uma brilhante performance do ator David Morse) ex-parceiro de Jack. Tudo indica que existem assuntos mal resolvidos entre eles. Frank quer que Jack entregue Eddie para ele que a partir dali assumiria o caso. Jack desconfia, mas não fala uma palavra. Então Frank abre o jogo para Jack. Eddie em troca de liberdade e ter a sua ficha limpa vai depor contra Jerry Shue, um policial dos mais violentos daquele distrito. Eddie tinha visto Jerry espancar e torturar um garoto nas quebradas. Se Eddie depusesse, Jerry entregaria os outros policias que faziam parte desse esquadrão corrupto, entre os quais, Frank e o próprio Jack Mosley. Sim, Jack também fez parte desse esquadrão violento.

Uma decisão certa numa hora errada.

Jack nada diz, ou responde com o seu “silêncio incômodo”. Frank acreditando que Jack entregaria Eddie, passa ordem para seus companheiros forjarem uma cena no bar dando a entender que a polícia chegou, Eddie reagiu e acabou então sendo alvejado pelos policiais. E mais vez ouve-se um disparo. Jack, pela segunda vez salva a vida de Eddie atirando na perna de Jerry Shue, policial que estava atrás de Eddie. O seu ex-parceiro Frank ficou atônito, não acreditava que Jack tinha feito isso, salvando a vida de um “ladrãozinho”. E isso muda tudo, agora a polícia ia no encalço não só de Eddie, mas de Jack Mosley também. Jack e Eddie escapam pelas portas do fundo do bar.

A partir daí Jack e Eddie são perseguidos pelas ruas, metrôs, subsolos de edifícios sempre a um triz de serem pegos. Há troca de tiros e Jack é ferido nas mãos e nas pernas. Nessa altura dos fatos, Jack Mosley já sabe que se Eddie depor, ele também será delatado pelos ex-parceiros e mesmo assim ele faz a opção de proteger a vida de Eddie.

Um lance de mestre

Jack e Eddie entram num ônibus cheio de passageiros. A polícia na perseguição atira nos pneus do veículo que acaba ficando inerte numa rua sem saída. Jack e Eddie acalmam os passageiros. A polícia tenta negociar com Jack a liberação dos “reféns”. Jack exige a presença de uma estenógrafa e da promotora de justiça. No entanto, experiente que é, ele sabe com quem está lidando, ele sabe que é fim de linha e jamais a polícia vai atender a sua solicitação. Eles serão eliminados assim que os passageiros forem liberados. Jack tem uma ideia brilhante, um lance de mestre, libera todos os passageiros. Eddie troca de roupa com um dos passageiros e sai do ônibus no meio da confusão. A polícia fica perdida. Jack fica sozinho dentro do ônibus, ele sabe que é o seu fim, então com um gravador portátil ele vai depor ali tudo o que sabe e começa: “meu nome é Jack Mosley, distintivo nº tal, eu tentei fazer uma coisa boa”... Então Eddie no meio da confusão retorna ao ônibus para salvar Jack enquanto a polícia fica sem saber o que fazer. Jack tem um plano b e arranca com ônibus que é metralhado pelos policiais.

O desfecho

Jack e Eddie ainda conseguem fugir. Eddie Bunker foi atingido, sangrava muito. Mas Jack mais uma vez salva a sua vida acionando a sua irmã que era enfermeira policial. Dentro da ambulância Eddie recebe os primeiros socorros, alguns pontos e fica bem. Jack diz a Eddie que ele não vai depor e revela que ele não era um policial legal e que fazia parte desse grupo de policias que Eddie iria denunciar. Porém, Jack libera Eddie para que ele siga o seu caminho para Seattle para então abrir a sua confeitaria finalmente em paz. Jack iria depor em seu lugar e assim o fez. Jack ainda teve que enfrentar uma ríspida discussão com seu ex-parceiro Frank que o espera no subsolo do fórum. Jack sabiamente gravou a confissão de seu ex-parceiro e se apresentou pontualmente à promotora confessando tudo, ou seja, o envolvimento dos policias corruptos, inclusive ele próprio. Em troca, Jack pediu à promotora que limpasse a ficha de Eddie Bunker. Fechado!

Jack pegou dois anos de prisão, não fica claro se ele foi exonerado ou não, mas o que isso importa?  O que importa é que ele cumpriu a missão, protegeu a vida de Eddie, a missão foi cumprida (Mensagem a Garcia). Ele poderia ter entregue Eddie ao seu ex parceiro Frank naquele bar, teve outras oportunidades para isso, mas ele fez a coisa certa, optou pela boa conduta ainda que isso poderia lhe custar a prisão e o emprego, como custou.

Após os dois anos, Jack está com sua irmã e amigos em casa comemorando seu aniversário quando recebe uma encomenda numa caixa, no caso, um bolo. Junto com o bolo, as fotos de Eddie e sua confeitaria cujo nome Eddie batizou de "Eddie & Jack's Good Sign Bakery". Em cima do bolo estava escrito quatro nomes de pessoas que fizeram coisas ruins no passado mas mudaram de vida: Chuck Berry, Barry White, Eddie Bunker e Jack Mosley. Nunca é tarde para se tentar fazer uma coisa boa, mesmo que seja num dia de folga.


segunda-feira, 24 de maio de 2021

Filme recomendado: Jogo de Espiões


Mais uma obra prima dirigida com brilhantismo pelo saudoso mestre Tony Scott. Jogo de Espiões tem como protagonistas, Robert Redford (Nathan Muir) e Brad Pitt (Tom Bishop). Redford em uma de suas mais brilhantes performances é um agente da CIA em seu último dia de trabalho e Pitt é seu ex-pupilo que encontra-se detido numa prisão na China.


Lançado em 2001, tornou-se um clássico no gênero, mais do que um filme espetacular de ação e suspense de tirar o fôlego, o diretor foca no personagem Nathan Muir (Redford) que nos dará formidáveis lições de lealdade, inteligência, sagacidade, amizade e redenção. 


Num passado remoto, Muir recruta Bishop, um exímio atirador que havia se apresentado como voluntário. Muir fica impressionado com a determinação e as habilidades de Bishop e resolve treiná-lo para as missões mais obscuras da CIA. Podemos dizer que Muir se sentia quase um pai para Bishop e disso resultou uma cumplicidade fraterna.


Muir começou a passar missões para Bishop e dava ordens que Bishop não estava de acordo. Chegaram a discutir algumas vezes pelos métodos muito violentos e nada ortodoxos determinados por Muir. Bishop então se afasta de Muir. Porém, algum tempo depois, uma missão em Beirute para eliminar um perigoso terrorista coloca Muir e Bishop novamente juntos. Os dois saem para tomar um café e Bishop dá um presente de aniversário para Muir. É uma garrafinha portátil de bebida que Bishop confiscou numa operação chamada “jantar fora” (jantar fora guarde bem essa expressão!).Muir disse a Bishop que ia se lembrar disso.


Acontece que Bishop (disfarçado de fotógrafo) conhece no campo de feridos uma enfermeira voluntária, Elizabeth Hadley (interpretada pela atriz Catherine McCormack). Na verdade, Elizabeth é uma ex-ativista política britânica, porém ela não revela esse fato a Bishop e nem Bishop revela que está em missão pela CIA. Os dois se envolvem e têm um romance. Muir levanta a vida de Elizabeth e revela a Bishop que ela é uma perigosa ativista que participou de atentado em Londres e que resultou na morte do filho de um ministro chinês. Era verdade. Muir e Bishop discutem novamente. Após a missão cumprida em Beirute com a morte do terrorista numa exagerada operação comandada por Muir, os dois agentes rompem a amizade definitivamente para nunca mais se encontrarem. Nesse dia, Bishop retorna ao apartamento de Elizabeth e o encontra vazio. Um bilhete (forjado por Muir) escrito por ela revelando que realmente ela era uma ativista perigosa. Sem Bishop saber de nada, Muir entrega Elizabeth para os chineses em troca de um diplomata que estava capturado. Elizabeth pega prisão perpétua na China.



Muitos anos se passam e no último dia de trabalho de Muir na CIA ele é informado que seu antigo pupilo foi capturado na China e ia ser executado no dia seguinte. Bishop conseguiu rastrear Elizabeth e tentou resgatá-la (isso passa logo no início do filme) numa operação mal sucedida e acabou sendo preso. Os chefões da CIA questionam Muir sobre o que Bishop foi fazer na China. Muir disse que não fazia ideia (mas é claro que sabia!) e nunca mais teve contato com ele. Como não era uma missão autorizada, a CIA lava as mãos e não vai salvar Bishop. Bishop seria executado logo ao amanhecer. Muir é colocado como suspeito e é investigado por um comitê de investigadores. Ele não poderá mais sair do prédio até que esclareça as suas missões com Bishop.


É a partir daí que Muir entra em ação para salvar Bishop sem a CIA saber. O plano que Muir elabora é uma verdadeira lição de criatividade, sagacidade e ousadia. Dentro das dependências da CIA, Muir passa a noite forjando documentos, invadindo salas, telefonando para amigos, falsificando assinatura do diretor da CIA até que ele consegue um contato na China através de um amigo. A operação para livrar Bishop não vai sair barato, vai custar 500 mil dólares! Aonde Muir vai conseguir esse valor? Sim, ele vai usar de sua própria conta bancária, economias que ele juntou ao longo dos anos.


Enquanto isso, ao mesmo tempo, Muir responde impassível com firmeza e muita frieza as perguntas dos investigadores. Ele conta superficialmente sobe a relação de Bishop com Elizabeth, dando poucos detalhes. Por fim, ele fingiu também estar de acordo com o lavar de mãos da CIA para não libertar Bishop, pois foi uma missão não autorizada. Muir então é liberado, mas antes um investigador lhe faz uma última pergunta, o que considero uma dos pontos altos do filme. O investigador lhe pergunta que se ele soubesse que Bishop foi à China a fim de libertar Elizabeth, se ele contaria isso a seus superiores. Muir demora a responder, olha fixo para um ponto qualquer da sala e responde, NÃO! Reflita bem sobre esse “não”, pois isso já valeria o filme.


Nesse mesmo momento, enquanto Muir já havia saído do prédio da CIA, a operação para resgatar Bishop e também Elizabeth está em curso. Um blackout total é provocado no presídio e finalmente Bishop e Elizabeth são resgatados por soldados americanos. E aqui é o que considero o outro ponto alto do filme. O piloto do helicóptero comunica pelo rádio que a missão “jantar fora” foi cumprida. Bishop escuta e pede para o piloto repetir o que disse. E o piloto repete, “operação jantar fora, senhor”. Impossível não se arrepiar.


Além das lições de inteligência, sagacidade e lealdade ao antigo pupilo que o personagem de Muir nos passa, a maior lição que fica é que sempre há tempo para se redimir de um erro cometido no passado e na maioria das vezes,  o erro nunca sai barato. Mas Muir se redimiu, com muita inteligência, impassível e sorrindo.


Obs: há um versão desse filme disponível no youtube em português, embora a qualidade do som não seja aquelas coisas, vale a pena dar uma conferida.


Liderança Compartilhada: empregadores e empregados estão preparados?

As relações do trabalho no Brasil ainda caminham bem devagar quase in slow motion no que diz respeito às alternativas modernas de liderança....