domingo, 19 de maio de 2013

Sobre recrutamento, treinamento e lideranças*

“A liderança diz respeito à vida; no entanto,muitos locais de trabalho concentram mortos-vivos. Neles, as pessoas são roubadas de suas energias, de sua vontade, de seu desejo de se superar; toda criatividade é expulsa, até que se instala a mediocridade, por meio do conformismo. É por isso que chamei esses lugares de saladeros, palavra que se refere ao local em que empregados salgavam a carne enquanto imperceptivelmente se excluíam da vida. A tecnologia de conservação pode ter mudado, mas não o processo de morte lenta.

Contrapus os saladeros à liberdade ilimitada dos gaúchos Fierro e Sombra, que percorreram o continente tirando lições de liderança e administração a partir das revoltas populares. Escolhi as revoltas porque podem ser encaradas como organizações, e optei principalmente pelas do século XX porque elas vieram antes da “administração científica americana”. Assim pude mostrar como os latino-americanos costumavam se administrar antes da multinacionais botarem o pé na região e exigirem conformidade às técnicas de administração estrangeiras, criadas principalmente através da observação de estrangeiros, e não de gente do local.

Nem tudo está errado na administração das multinacionais, mas, apesar de toda conversa moderna sobre a adoção de uma fisionomia local, suas subsidiárias permanecem estrangeiras. São estrangeiras porque decisões de investimento, inclusive as relativas à inovação e estratégia, são tomadas principalmente no exterior, excluindo assim os administradores locais dos desafios que lhes permitiriam desenvolver ao máximo seu potencial de liderança. Como resultado, vemos chefes atrofiados que oferecem escassa inspiração aos administradores mais jovens em ascensão. Essa situação produz cinismo e falta de empenho entre os liderados, que permanecem afastados do processo de aprendizagem, gerador da autêntica liderança, e confinados ao conformismo diante de uma morte lenta, longa e inglória.

Grande parte do mundo empresarial de hoje acha que manter as pessoas na mira do revólver, fazendo-as se perguntar se serão as próximas a serem eliminadas, é a forma de extrair o máximo delas. Os maus chefes não percebem que as pessoas tratadas com desdém não darão o máximo de si, mas darão de si o mínimo necessário para não serem eliminadas.

Recrutar onde a mensagem empresarial se encaixa nos desejos dos aspirantes é uma lição que muitos recrutadores empresariais modernos não entenderam. Tentando imitar o perfil dos funcionários da sede nas subsidiárias, os recrutadores das subsidiárias concentram seu recrutamento nos melhores colégios locais, atraindo jovens vencedores que sobreviveram à batalha mais dura que podiam enfrentar nessa etapa: formaram-se com honra nos melhores colégios de suas cidades.

No entanto, todo o trabalho que as subsidiárias têm a oferecer é nos saladeros, mais adequado a quem já está morto. É por isso que a rotatividade nos saladeros é alta. A maioria das subsidiárias deveria estar recrutando mais nas escolas menos famosas, quando não nos pontos de ônibus, onde o que as subsidiárias oferecem é visto como um prêmio para quem, como os gladiadores, trabalhou sob as mais adversas condições. Ali algumas competências, como o domínio das línguas estrangeiras e eventualmente até as boas maneiras, podem ser mais escassas, mas tudo isso pode fazer parte do treinamento para o trabalho. Talvez seja isso que faz a grandeza do banco Bradesco, do Brasil. Esse banco concentrou seu recrutamento nas camadas mais baixas da sociedade, e em seguida alimentou essa força de trabalho até ela chegar a um nível de eficiência e pertencimento que, para muitos banqueiros estrangeiros – e ouvi muitos dizerem isso-, se parece mais como uma seita do que com um conjunto de bancários. O fato é que já encontrei muitos ex-bancários dirigindo táxis, mas nenhum saído do Bradesco.”

*Texto extráido do capítulo 12 do livro, Fuzilar Heróis e Premiar Covardes - O caminho certo para o desastre organizacional, do professor Alfredo Behrens, editora BEI


Meu comentário: Concordo plenamente com autor na questão do Bradesco. Com certeza o banco que possui os melhores colaboradores em relação aos outros bancos. Isso deve-se muito a uma política de treinamento eficiente e o resultado disso é o excelente atendimento aos seus clientes sejam eles correntistas ou não. Enquanto os outros bancos, vemos funcionários mal treinados, fingindo que estão falando ao telefone, devorando biscoitos em horário de expediente e alguns até se escondendo debaixo da mesa só para não atender o cliente.

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