terça-feira, 20 de junho de 2017

Enfermeira é chefe do setor de Recursos Humanos. E daí?


Dia desses recebi solicitação de consulta trabalhista de uma funcionária que labora numa clínica particular. Ela estava muito brava e se queixava da incompetência da responsável pelo setor de RH da empresa que não fazia nada certo, errava no pagamento das horas-extras e descontava valores indevidos de seu salário. Também pudera, segundo a consulente, a chefe do setor não tinha formação profissional para ocupar o cargo de chefe de RH, pois era enfermeira de formação (sic). E qual seria então a formação profissional adequada? E será que isso realmente importa? Vejamos:

Conheço um gerente de importante banco privado, excelente profissional, diga-se de passagem, cuja formação acadêmica é em Engenharia Química; o mais aclamado professor de História Antiga e Medieval que tive na faculdade era médico de formação; uma das mais brilhantes gerentes de vendas que conheço é formada em Artes Plásticas; um renomado chef de restaurante estrelado é bacharel em direito; um dos mais sagazes e competentes consultores do setor financeiro que conheço é formado em... nada, tem apenas o segundo grau e claro, muita leitura e muitos cursos paralelos. Eu poderia fazer infinitas citações dessa natureza.

Por outro lado, conheço advogados trabalhistas que ignoram de quantas convenções da Organização Internacional do Trabalho -OIT, o Brasil é signatário; pedagogas que desconhecem Frank Laubach e o método ALFALIT de alfabetização (mas conhecem Paulo Freire, como não?); economistas que acham que budget e forecast são xingamentos, artista gráfico que não sabe fechar um arquivo para impressão em quatro cores e por aí vai.

Nem toda pessoa exerce a profissão proveniente do curso universitário em que é formada e não há nada de errado nisso. Há milhares de pessoas estudando num determinado curso superior, porém trabalhando em área totalmente diferente. Ainda existem muitas pessoas que optam por um curso superior apenas por obter riqueza de conhecimentos sobre uma área de seu interesse que não seja necessariamente sua área de atuação profissional.

Na verdade, quando surgiram as primeiras instituições de ensino superior não tinham como objetivo formar profissionais para o mercado de trabalho, mas a busca do conhecimento, cultura, erudição e elevação do Ser e Pessoa. As disciplinas estudadas eram as chamadas Artes Liberais, ou seja, Lógica, Gramática e Retórica (Trivium); Aritmética, Música, Geometria e Astronomia (Quadrivium).

Voltando ao ponto em questão, não importa se a chefe de RH daquela empresa é enfermeira, contadora, advogada, pedagoga, engenheira ou psicóloga. Poucas pessoas hoje saem da faculdade e vão exercer a profissão na qual se formaram. Os motivos são tantos que vale até outro artigo para analisar a questão. É sabido e notório que no Brasil, curso superior, sobretudo na área de Humanas não prepara o aluno para o mercado de trabalho, muito pelo contrário, formam militontos esquerdistas e politicamente corretos sem a mínima chance de atuarem na área de formação.

A falta de preparo e expertise em determinadas funções não estão relacionadas diretamente à formação superior do profissional, mas sim pela falta de empenho, treinamento, dedicação e estudo para desempenhar as funções pertinentes ao cargo que exerce. Naturalmente que a chefe de RH em questão merece duras reprimendas por não se empenhar nas suas funções, independente da sua formação acadêmica que, se ela não a exerce é um problema que só diz respeito a ela.

Portanto, querer atribuir ao profissional não ter formação adequada (e qual seria ela?) para exercer um cargo em razão do mesmo cometer erros é um equívoco grosseiro, porque se assim fosse, pessoas que atuam na profissão em que se formaram não cometeriam erro algum, no entanto, cometem. E muitos.

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