segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Relações de Trabalho no Brasil de 2024 a 1943



Esse é o número mágico: 13.467/2017! Um número fabuloso que nunca, jamais esquecerei e acredito, meus parceiros de profissão também não. Sim, é o número da lei da Reforma Trabalhista sancionada por um mestre de nosso vernáculo, o elegante e gentleman ex-presidente Michel Temer. O ano de 2017 me trás a saudade do avanço das relações de trabalho no Brasil impulsionadas pela Reforma Trabalhista. Após anos de CLT (Chicote no Lombo dos Trabalhadores), a reforma trouxe o melhor antídoto de alívio das marcas ardidas e dolorosas perpetradas pela CLT, seja para empregados, seja para empregadores. E como estamos hoje?

Sete anos se passaram, a reforma trabalhista , apesar de alguns equívocos já apontados por este que vos escreve, produziu os seus efeitos positivos no âmbito trabalhista, muito mais do que negativos. Foi um pequeno avanço, tímido, mas que trouxe novos ares dando um fôlego excepcional no mercado de trabalho. Gerou milhões de empregos, possibilitou novas modalidades de contrato de trabalho, liberou a terceirização, colocou os sindicatos e rábulas nos seus devidos lugares, extinguiu a sinistra contribuição sindical e muito mais.

Foi um pequeno avanço que de dois anos para cá vem retrocedendo de maneira assustadora. Só para citar alguns fatos, tivemos o retorno da contribuição assistencial obrigatória; uma PEC protocolada no senado por um influencer do tik tok que nunca trabalhou ou produziu pedindo o fim da jornada 6X1 (ainda que essa jornada 6X1 não esteja prevista em nenhum diploma legal); a perseguição à plataforma Uber e como sempre tem uma cereja amarga do bolo, o TRT 2 que condenou a IFood a reconhecer o vínculo empregatício de todos os seus parceiros e ainda a pagar uma indenização de 10 milhões. Ainda que os parceiros da IFood nunca pediram vínculo empregatício. Obviamente que a IFood vai recorrer.

A insegurança jurídica no setor trabalhista é uma nuvem escura, cumulonimbus que pairam sobre empregados e empregadores prontas para desabarem em raios, trovões, granizo e borrascas contínuas e infinitas. Em razão disso, centenas de empresas encerram suas atividades por ano, milhões de postos de trabalho são extintos incluindo os informais.

Isto posto, as relações de trabalho no Brasil aos invés de entrarem em 2025, retroagem  ao ano de 1943 quando uma claque de "iluminados" elaborou um manual de tortura trabalhista que castiga empregados e empregadores sem dó nem piedade sob a tutela estatal. Num malabarismo retórico castigos e severas punições foram relativizadas e apresentadas aos incautos como direitos trabalhistas irrenunciáveis. Assim sendo, as relações de trabalho no Brasil caminham a passos de caranguejo, ou seja, um passo para frente e 81 anos para trás.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Um poema de Natal do escritor T.S Eliot


O Cultivo das Árvores de Natal


T.S.Elliot*


Há diversas atitudes de se encarar o Natal,

Algumas das quais podemos desconsiderar:

A social, a indiferente, a estritamente comercial,

A ruidosa (os bares ficam abertos até meia-noite)

E a pueril – que não é a da criança

Para quem a vela é uma estrela, e o anjo dourado,

Cujas asas se distendem no topo da árvore,

Não apenas um enfeite, mas um anjo.

A criança se extasia diante da Árvore de Natal:

Deixemo-la permanecer no espírito de êxtase da Festa

Que é tanto um evento inaceitável quanto um pretexto;

De modo que o cintilante enlevo, o assombro

Causado pelas primeiras lembranças de uma Árvore de Natal,

De modo que as surpresas, o deleite com os novos bens

(Cada um deles com seu peculiar e excitante odor),

A expectativa do ganso ou do peru assado

E o pasmo previsto diante de seu aspecto,

De modo que a veneração e o júbilo

Não se percam na experiência futura,

No hábito enfadonho, na fadiga, no tédio,

Na consciência da morte e do malogro,

Ou na piedade do convertido

Que pode ser tentado pela presunção

De ofender a Deus e desrespeitar as crianças

(E aqui recordo também com extrema gratidão

Santa Lúcia, seu cântico de Natal e sua coroa de fogo):

De modo que antes do fim, no octogésimo Natal

(Entenda-se por ‘octogésimo’ qualquer que seja o último),

As lembranças acumuladas da emoção anual

Possam ser cristalizadas numa grande alegria

Que será também um grande medo, como naquele instante

Em que o medo se apodera de cada alma:

Porque o princípio nos lembrará do fim

E a primeira vinda da segunda vinda.

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*Thomas Stearns Eliot (1888-1965) foi um poeta, dramaturgo e crítico literário da língua inglesa, um dos mais importantes representantes do modernismo literário. Prêmio Nobel de literatura de 1948.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Jeniffer: lição de civilidade, elegância e controle emocional



Uma situação banal que ficou conhecida como “o caso da moça do avião” e que gerou uma viralização absurda sendo notícia em toda mídia e principalmente nas redes sociais, trouxe uma lição prestimosa cuja protagonista, Jeniffer, ficará no imaginário popular ainda por algum tempo. Acredito que essa situação será exemplo nos mais diversos cursos que abordam o comportamento humano diante de situações de conflito, isto porque, a leitura correta a ser feita desse episódio e que está em primeiro plano diz respeito ao que conhecemos como Inteligência Emocional. Sim, Jeniffer nos deu uma aula de refinada elegância e controle emocional. Vejamos:

Quando os primeiros vídeos da situação subiram para as principais redes sociais e começaram a viralizar, quais foram os primeiros comentários e impressões que as pessoas estavam percebendo? Os primeiros comentários foram maciçamente elogiando a reação de Jennifer diante de uma situação absurdamente agressiva e intimidatória protagonizada por uma passageira que a estava filmando, enquanto outras pessoas que compraram um imbróglio que não lhes dizia respeito lhe dirigiam grosserias. Numa hipótese que ela partisse para o revide certamente a situação se complicaria e as comissárias de bordo teriam que intervir. No entanto, Jeniffer manteve o sangue frio, inabalável e foi justamente isso que incomodou algumas pessoas.

Nas relações de trabalho e interpessoais do dia a dia, situações de conflito surgem por minuto, seja num prazo apertado para execução de tarefas e projetos, seja por pressão de gerentes e supervisores, estes, aliás, suportam pressão praticamente o tempo todo. Então, como as pessoas lidam com as mais diversas situações de conflito no ambiente de trabalho? Lembrando que situações de conflito ocorrem também fora do ambiente de trabalho a todo instante como foi o caso envolvendo a Jeniffer assim inesperadamente, do nada que envolveu um menino birrento e um acento na janela.

Temos que estar preparados para situações de conflito, é preciso utilizar nessas horas doses maciças de resiliência, ter presença de espírito, equilíbrio, sangue frio, ser estoico e sobretudo possuir Inteligência Emocional. Não devemos revidar de maneira  grosseira ou agressiva e como diz a sabedoria popular, “não tocar tambor para maluco dançar”. 

Quanto à questão de Jeniffer não ter cedido o acento, é assunto de segundo plano, isto porque desde que surgiram os transportes de passageiros, seja em ônibus, balsas, trens, metrôs e aviões, atritos por causa de acentos, bagagens, bolsas, malas, esbarrões entre outros mais sempre ocorreram, o episódio da Jennifer não foi o primeiro e nem será o último.

Por uma coincidência, recentemente publiquei um artigo neste blog discorrendo sobre a lei nº 4 (FALE APENAS O NECESSÁRIO), do livro "As 48 Leis do Poder", do escritor Robert Greene. Mesmo que Jeniffer não tenha lido esse livro, ela aplicou essa lei com muita eficácia. Ainda que ela não tenha conhecimento da filosofia estoica, ela se portou estoicamente diante da situação na qual foi envolvida. Ela  nos entregou lições prestimosas de civilidade, educação, elegância e um incrível controle emocional. Não tenho dúvida alguma que ela seja uma excelente profissional em seu trabalho. Ela foi gigante e pavimentou um caminho de sucesso em sua vida fazendo de um limão uma saborosa limonada.

Entretanto, nem tudo são flores, pois esse episódio também nos passou algo sombrio e perigoso, isto porque queiramos ou não, podemos ser protagonistas de um reality show o qual não pedimos para participar, basta um celular nas mãos de pessoas irresponsáveis, rastaqueras deslumbradas e nossos rostos estarão expostos instantaneamente. Seremos a notícia do dia da maneira mais cruel possível em todas as mídias, em todas as redes sociais e viralizaremos pela web, pelo mundo. Vai ver, já estamos e nem ainda saibamos disso porque nas mãos de gente irresponsável o celular chega a tremer.



segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Lei que proíbe celular em sala de aula não vai pegar: vai sobrar para os professores!



"uma lei injusta simplesmente não é lei" - Santo Agostinho


Acaba de sair da fornalha louca cuspidora de leis, a Lei nº 18.058/05/2024, que proíbe o uso de celulares e outros dispositivos eletrônicos que tenham acesso à internet em salas de aula. Sancionada pelo governador Tarcísio de Freitas, a dita cuja foi publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo em 07/12/24. Ainda ardendo em brasa e soltando fumaça, já está torrando os miolos de muita gente e dividindo opiniões. Como a maioria das leis brazucas, ela mais obscurece do que clareia, mais retroage do que avança no que tange às questões pedagógicas. Vejamos:

Na verdade essa lei é uma atualização da Lei nº 12.730, de 11 de outubro de 2007 que dispõe sobre o uso de celulares no ambiente escolar. Vamos analisar os dois principais artigos que tiveram as redações alteradas:

Artigo 1º

Fica proibida a utilização de celulares e outros dispositivos eletrônicos pelos alunos nas unidades escolares da rede pública e privada de ensino, no âmbito do Estado de São Paulo.

Parágrafo único - Para os fins desta lei, consideram se dispositivos eletrônicos quaisquer equipamentos que possuam acesso à internet, tais como celulares, tablets, relógios inteligentes e outros dispositivos similares.

Artigo 2º - Os estudantes que optarem por levar seus celulares e outros dispositivos eletrônicos para as escolas deverão deixá-los armazenados, de forma segura, sem a possibilidade de acessá-los durante o período das aulas, assumindo a responsabilidade por eventual extravio ou dano, caso exerçam essa opção.

§1º - Nos casos referidos no caput deste artigo, as secretarias municipais, bem como a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo e as escolas da rede privada, deverão estabelecer protocolos para o armazenamento dos dispositivos eletrônicos durante todo o horário escolar.

Bem, vimos que a lei abrange escolas públicas e privadas e aqui já começa o imbróglio. Em tese (em tese!), alunos de escolas particulares não têm problemas em cumprir ou obedecer regras; por outro lado, alunos de escolas públicas e que residem na periferia da capital tendem a ser mais refratários em cumprirem regras. Então, há que se perguntar: como o professor vai lidar com alunos relapsos e rebeldes? Esta aí uma tremenda batata quente para o professor segurar. E em caso de desobediência persistente por parte dos alunos? A lei é omissa quanto a essa questão.

Como serão os protocolos estabelecidos pela Secretaria de Educação para o armazenamento dos aparelhos, que é bom lembrar, não são apenas celulares, mas qualquer outro dispositivo que tenha acesso à internet? Como e em que condições os dispositivos ficarão armazenados?

E a cereja amarga do bolo é que em caso de dano ou extravio desses dispositivos  o Estado lavou as mãos imundas como sempre atribuindo a responsabilidade total do prejuízo nas costas do aluno, o que significa a conta bancária dos pais. Risadas? Aplausos? Devemos aplaudir isso sorrindo e ajoelhados?

Num primeiro momento, muitos professores, pais de alunos e mesmo alguns alunos acenaram positivamente com essa lei da proibança (essa palavra inventei agora), porém parece-me que existe um contingente bem maior desfavorável a essas medidas restritivas e invasivas. Quando um eleitor vota em determinados políticos não é naturalmente para receber na cara leis violentas desse teor.

É óbvio que a utilização de celulares em sala de aula é prejudicial e desvia sobremaneira a atenção dos alunos, existem inúmeros estudos científicos que comprovam esse fato. No entanto, apresentar uma lei com esse teor é absolutamente descabido, invasivo e de uma extrema violência que alcança um bem privado de alto valor e que hoje representa um acessório indispensável na vida das pessoas, sobretudo de jovens estudantes. Não cabe ao Estado legislar sobre bens privados.

Antes de baixar uma lei violenta como essa, fazer uma pesquisa de como outros países lidaram com essa situação seria o mínimo a fazer. Trata-se de uma questão que requer um longo estudo minucioso na intenção de encontrar alternativas possíveis que não interfiram no projeto pedagógico, não prejudiquem alunos e não coloquem em risco a integridade física dos professores. Reiterando aqui que essa batata quente vai acabar nas mãos dos professores que diga-se de passagem já sofrem demais em salas de aula  com alunos indisciplinados e violentos.

Portanto, até que essa lei bizarra seja reformada ou até mesmo revogada, que o remédio prescrito por Henry David Thoreau, a desobediência civil venha ao socorro dos alunos em sua forma mais pacífica que consiste em não cumprir leis injustas que estejam em desacordo com a lei moral. A LEI MORAL antecede qualquer lei positivada porque àquela não pode existir sem esta. O bom legislador é aquele que ao invés de criar leis bizarras revoga as injustas que já existem. Essa lei não vai pegar como muitas outras leis pífias que não pegaram. Se o objetivo de uma lei é aplicar a justiça, quando ela é injusta ela se torna uma não-lei e assim sendo, não deve ser cumprida simplesmente porque ela já nasceu natimorta.

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Diga sempre menos do que o necessário (Lei nº 4)*


Para um ministro, é ainda mais prejudicial dizer tolices do que cometê-las

(Cardeal de Retz, 1613-1679)


O texto a seguir trata-se da Lei nº 4 do fabuloso livro "As 48 Leis do Poder", de Robert Greene. Pode ser aplicado com grande utilidade e sabedoria por líderes, supervisores, gerentes e demais cargos de chefia. Pode também ser aplicado (com alguma cautela) por candidatos nas entrevistas de emprego, dependendo do cargo obviamente.

LEI Nº 4

Quando você procura impressionar as pessoas com palavras, quanto mais você diz, mais comum aparenta ser, e menos controle da situação parece ter. Mesmo que você esteja dizendo algo banal, vai parecer original se você o tornar vago, amplo e enigmático. Pessoas poderosas impressionam e intimidam falando pouco. Quanto mais você fala, maior a probabilidade de dizer uma besteira.

A Lei observada.

Na corte do rei Luís XIV, nobres e ministros passavam dias e noites discutindo questões do Estado. Conferenciavam, discutiam, faziam e desfaziam alianças e discutiam de novo, até que finalmente chegava o momento crítico: dois eram escolhidos para representar os diferentes lados do problema para Luís, que era quem ia decidir o que fazer. Depois que estas pessoas eram escolhidas, todos discutiriam mais um pouco: como falar? O que agradaria a Luís, o que o aborreceria? Em que hora do dia os representantes deveriam procura-lo, e em que parte do palácio de Versalhes? Que expressão teria em seus rostos?

E aí, depois de tudo definido, era a hora crítica. Os dois homens se aproximavam de Luís – sempre um problema delicado- e, quando, finalmente, conseguiam a sua atenção, falavam sobre o que tinham discutido, explicando as opções em detalhes.

Luís escutava em silêncio, uma expressão enigmática no rosto. No final quando os dois terminavam as suas apresentações e lhe pediam a sua opinião, o rei olhava para eles e dizia, “Verei”. E se afastava.

Os ministros e cortesãos não ouviam mais nenhuma palavra do rei sobre o assunto. Simplesmente viam o resultado, semanas depois, quando ele tomava uma decisão e agia. Ele não se preocupava em consulta-los de novo.

Interpretação

Luís XVI era um homem de pouquíssimas palavras. Sua observação mais famosa é “L’état, c’ est moi” (O Estado sou eu); nada poderia ser mais enérgico e, no entanto, mais eloquente. Seu infame “Verei” era uma das várias frases extremamente curtas que ele usava para todos os tipos de solicitação.

Luís nem sempre foi assim; quando jovem era conhecido por falar muito, encantado com a própria eloquência. Posteriormente, ele mesmo se impôs essa taciturnidade, uma representação, a máscara que ele usava para deixar em suspenso todos que estavam abaixo dele. Ninguém sabia exatamente o que ele pensava, ou seria capaz de prever suas reações. Ninguém podia tentar enganá-lo, dizendo o que achavam que ele desejava ouvir, porque ninguém sabia o que ele desejava ouvir. Enquanto falavam e falavam para o silencioso Luís, revelavam cada vez mais sobre si mesmos, informações que ele mais tarde usaria contra eles com grande proveito.

No final, o silêncio de Luís mantinha as pessoas ao seu redor aterrorizadas e sob o seu domínio. Como Saint-Simon escreveu, “Ninguém como ele sabia vender suas palavras, seus sorrisos, até seus olhares. Tudo nele era valioso porque ele criava diferenças, e sua majestade se acentuava com a escassez de suas palavras [...]

Ficar em silêncio e dizer menos do que o necessário são técnicas que devem ser praticadas com cautela, portanto, e na ocasião certa [...]

As palavras, depois de pronunciadas, não podem ser tomadas de volta. Mantenha-as sob controle. Cuidado particularmente com o sarcasmo: a satisfação momentânea que se tem proferindo frases sarcásticas será menor do que o preço que se paga por elas".

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*Excertos do livro "As 48 Leis do Poder", Robert Greene, editora Rocco -Rio de Janeiro -1988

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

O processo de Recrutamento e Seleção é discriminatório por excelência




O debate sobre atitudes discriminatórias por parte dos empregadores sempre esteve presente na ordem dia pelos mais diversos veículos da mídia. Muito se fala e escreve sobre essa questão que na verdade, trata-se de um debate inútil simplesmente porque o próprio processo de recrutamento e seleção é um procedimento discriminatório em sua essência e por excelência. Vejamos:

Primeiramente, vamos partir do ponto inicial do processo de seleção que começa com um anúncio que a empresa disponibiliza em seu próprio site, nas agências de empregos e nas diversas plataformas das redes sociais. Vejamos o anúncio abaixo:




Logo de início percebemos que o artigo 442-A da Consolidação das Leis do Trabalho-CLT ("Para fins de contratação, o empregador não exigirá do candidato a emprego comprovação de experiência prévia por tempo superior a 6 (seis) meses no mesmo tipo de atividade.”) já foi pelos ares, bem como, o artigo 1º da Lei nº 9029/95 que trata de práticas discriminatórias nas relações de trabalho para efeitos admissionais também foi neutralizado. Vamos analisar o anúncio:

Obviamente que um profissional que tenha apenas 6 meses de experiência como dispõe o artigo 442-A da CLT não reúne os requisitos solicitados no anúncio e como tal já está eliminado e discriminado do processo seletivo. Aqueles que também não possuem veículo próprio e nem estejam disponíveis para viagens já estão também eliminados e discriminados. Observamos também que o anúncio não diz “ambos sexos”, essa é uma informação confidencialíssima que somente a empresa dispõe.

Apenas um anúncio entre centenas de outros revelam que o próprio processo seletivo é discriminatório por excelência. Aliás, seleção de candidatos significa a escolha dos melhores e dos mais adequados ao cargo anunciado. Discriminar significa selecionar ou escolher das opções disponíveis aquela que mais atende aos interesses de quem seleciona. Discriminamos desde o momento que nos levantamos pela manhã até a hora de dormir ao fazermos escolhas. Ao selecionarmos amigos, sócios ou parceiros amorosos estamos discriminando os demais que não se enquadram com as nossas afinidades, gostos e interesses.

Portanto, discriminar é selecionar, filtrar, escolher, características essas inerentes aos seres humanos. Não há lei positiva possível que possa extinguir, anular ou neutralizar tais características, ou seja, seria o mesmo que editar uma lei para neutralizar a lei da gravitação universal mais conhecida como a lei da gravidade. Impossível, humanamente impossível!


segunda-feira, 18 de novembro de 2024

PEC que acaba com a jornada 6X1 pela 4X3 na canetada impõe jornada laboral igual para profissões diferentes: não vai rolar!



Tivemos uma semana conturbada no setor das relações do trabalho com a proposta do PSOL (PSOL, tinha que ser, como não?) de uma PEC que decreta game over para a jornada de trabalho 6X1 sendo substituída por uma outra jornada de 4X3. Trata-se da alteração do artigo 7º, inciso XIII da Constituição Federal que dispõe sobre a jornada de trabalho. A proposta dessa PEC é de 8 horas diárias, 36 horas semanais com jornada máxima de 4 dias por semana. Oi? Já começou muito mal com um erro crasso de matemática ou foi muito mal redigida ou mal explicada. O erro não passou despercebido pelos jurisconsultos da matéria trabalhista. 

Bem, apesar de ser apresentada pelo PSOL, a origem dessa já carinhosamente chamada de PEC da aberração, surgiu de uma petição protocolada em Novembro de 2023 no congresso por um movimento denominado VAT-Vida Além do Trabalho. Movimento este criado por um militonto de apartamento e influencer digital que publica vídeos no Tik Tok. O nome do movimento já diz a que veio e dispensa comentários. Na verdade, gente que quer ganhar dinheiro, mas sem trabalhar, enfim, militontos de sofá que com seus Iphones querem brincar de ditador, legislar, deflagrar revoluções e “consertar” o planeta tomando todinho de canudinho. É de dar pena.

Os argumentos que fundamentam a PEC tomam como base países cujos trabalhadores laboram numa jornada 5X2 ou 4X3, como por exemplo, Dinamarca, Finlândia, Suíça, Islândia, Suécia e alguns outros que reduziram gradativamente (gradativamente!!) ao longo de décadas a jornada laboral com aumento da produtividade. Então tá, vamos aos fatos:

A redução da jornada laboral ao redor do mundo, sobretudo nos países citados na PEC nunca, jamais se deu na base da canetada estatal e sim nas livres negociações entre empregado/empregadores e algumas vezes com a participação de sindicatos. Na base da canetada estatal ocorreu uma única vez na França (que surpresa, não?) cujas consequências foram desastrosas e que inflaram as estatísticas do desemprego naquele país.

A redução da jornada laboral em diversos países não foi concedida assim do dia para a noite num estalar de dedos. Ela se deu ao longo de décadas após aumento substancial da produtividade daquele país e profundos estudos das questões sobre relações de trabalho. A produtividade pela lógica sempre vem antes e a redução da jornada laboral é uma consequência natural. Aqui no Brasil querem reduzir a jornada antes para que a produtividade venha depois. A conta não vai fechar e adivinha só que vai pagar essa conta?

Os países citados na PEC são todos de primeiro mundo onde a população varia entre 5/10milhões de habitantes no máximo e nos quais não existe: CLT, justiça do trabalho, legislação trabalhista pesada, encargos escorchantes sobre a folha de pagamento. Nesses países existe um respeito pelo empregador gerador de empregos que não é tratado como vilão e criminoso como é no Brasil. Os encargos sobre a folha de pagamento não passam de 10% (ainda assim as pessoas reclamam dos 10%!), as modalidades de contrato de trabalho são muitas à escolha do prestador de serviços sem interferência estatal, nada é compulsório tratando-se de relações de trabalho. Portanto, realidades bastante diversas que não nos servem como parâmetros.

Somente os dados que citei bastam para refutar essa PEC reduzindo suas justificativas a pó de traque. Vale lembrar aqui que a PEC 4X3 atinge também o artigo 58 da CLT, um dos mais violentos que determina jornada de trabalho igual para profissões completamente diferentes em atividades também diferentes. A PEC psolista faz a mesma coisa quando quer impor uma jornada laboral igual para todas as profissões e todas as atividades econômicas. Outra equação que nunca vai fechar. 

Para quem ainda não sabe já existe tramitando no congresso uma PEC nº 221/2019 que trata justamente da redução da jornada laboral, porém não de maneira imediata e brutal mas de forma gradual no prazo de 10 anos. Essa PEC ainda está sob análise e estudo. Particularmente rechaço qualquer PEC dessa natureza, no entanto não sou contra nem a favor da redução da jornada laboral, pois trata-se de um tema restrito e pontual às relações de trabalho e que dizem respeito apenas às partes envolvidas, ou seja, empregado/empregador, o Estado não tem capacidade para interferir ou se imiscuir nessa questão.

Isto posto, lembremos que essa aberração surgiu de um militonto de sofá bebedor de todinho com canudinho reciclado, um desocupado do Tik Tok que sequer sabe tabuada ou aprendeu a fazer contas corretamente e que acredita que 4X8 perfaz um total de 36! É esse tipo de pessoa que quer impor as suas vontades para todo o setor trabalhista via canetadas estatais. Lamento, caro "tiktoker" mas não vai rolar.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

As consequências políticas do desemprego*

Por Ludwig von Misses

"O desemprego como um fenômeno permanente e de considerável magnitude tornou-se o principal problema político de todos os países democráticos. Que milhões fiquem permanentemente excluídos do processo produtivo é algo que não pode ser tolerado, mesmo que seja por um curto período de tempo. O indivíduo desempregado quer trabalhar. Quer ganhar um salário porque considera que as oportunidades que um emprego lhes proporciona são maiores do que o duvidoso valor do ócio na pobreza. Fica desesperado porque não consegue encontrar trabalho. É entre os desempregados que os aventureiros e os aspirantes a ditador costumam recrutar as suas tropas de choque.

A opinião pública considera que essa situação de desemprego é uma prova do fracasso da economia de mercado. O público acredita que já ficou demonstrada a incapacidade de o capitalismo resolver os problemas de cooperação social. O desemprego é apresentado como o inevitável resultado das antinomias, das contradições da economia capitalista. O que a opinião pública não percebe é que a causa real do permanente desemprego em larga escala deve ser atribuída à política salarial defendida pelos sindicatos e ao apoio que o governo tem concedido a esse tipo de política. A voz do economista não chega a ser ouvida pelo público.

É crença geral, entre as pessoas leigas, que o progresso tecnológico tira de muitas pessoas a possibilidade de seu próprio sustento. Por essa razão as guildas (atualmente os conselhos de classe) perseguiam os inventores; por essa razão os artesãos destruíam as máquinas. Hoje em dia os que se opõem ao progresso tecnológico recebem o apoio de pessoas que são habitualmente consideradas cientistas. Em livros e artigos afirmam que o desemprego tecnológico é inevitável – pelo menos no sistema capitalista. Como um meio de combater o desemprego recomendam que a jornada de trabalho seja reduzida; como os salários devem ser mantidos sem alteração (ou diminuídos menos que proporcionalmente, ou até mesmo aumentados), isso significa na realidade que os salários estão sendo aumentados e, por conseguinte, também o desemprego. Recomendam que sejam implementados programas de obras públicas para gerar emprego. Mas se os recursos necessários são oriundos de arrecadação de impostos ou da emissão de títulos, a situação permanece a mesma. Os recursos usados nesses projetos são retirados de outros projetos, e o aumento da oportunidade de emprego num setor da economia é neutralizado pela redução noutro setor do sistema econômico.

Finalmente, acabam recorrendo à expansão de créditos e à inflação., Mas com preços aumentando e salários reais diminuindo, as reinvindicações sindicais por maiores salários ficam cada vez mais intensa. Não obstante, devemos mencionar que desvalorização da moeda e medidas inflacionárias semelhantes, conseguiram, em alguns casos, temporariamente, suavizar os efeitos da política salarial dos sindicatos e reduzir por algum tempo o crescimento do desemprego.

Comparado com a forma ineficaz com que é tratado o problema do desemprego em países habitualmente chamados democráticos, os ditadores conseguem ser muito mais bem sucedidos. O desemprego desaparece se forem adotadas formas de trabalho compulsório, como prestação de serviço militar, criação de campos de trabalho ou qualquer outra forma compulsória de prestação de serviços. Os trabalhadores nesses empregos terão que se dar por satisfeitos com salários bem menores do que os recebidos por outros trabalhadores. Gradativamente, uma redução dessa diferença irá ocorrer, seja pelo aumento dos salários dos que trabalham nessas frentes de serviço, seja pela diminuição do salário dos demais trabalhadores. O sucesso político de alguns governos totalitários se deve sobretudo aos resultados obtidos na sua luta contra o desemprego".

Comentário de Donald Stewart Jr.

No caso dos salários, é lugar comum serem estabelecidos valores mínimos, assim como encargos sociais bastante onerosos. O objetivo visado com essas interferências é fazer com que o trabalhador brasileiro ganhe mais e tenha mais vantagens adicionais mais generosas. Esse tipo de interferência faz com que o custo de mão de obra fique elevado para o nível de atividade da economia brasileira; a consequência inevitável é maior desemprego e uma fuga para a economia informal, que no Brasil já emprega mais de 50% da população economicamente ativa. Mais uma vez, como didaticamente preconiza Misses, os efeitos são o oposto do que se pretendia atingir.

Meu comentário: O piso salarial das categorias profissionais definidas pelos diversos sindicatos é um dos principais gatilhos do desemprego, além disso impacta de maneira brutal o valor nominal dos salários de profissionais da mesma profissão mas que atuam em empresas de atividades diferentes. Em breve, publicarei um artigo sobre essa questão.

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*Excerto do capítulo II do livro "Intervencionismo - Uma Análise Econômica", de Ludwig von Misses- IL, editora Expressão e Cultura, 1999, RJ


segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Entrevista por vídeo chamada não é eficaz no processo de seleção



Não são poucas as empresas que atualmente por motivos de custo-benefício e também comodidade optam pela utilização da modalidade vídeo chamada para entrevistar candidatos. Trata-se de uma modalidade um tanto duvidosa que dificilmente alcança um escore satisfatório de informações precisas sobre os candidatos podendo resultar em escolhas e contratações equivocadas ou até mesmo desastrosas.

Vamos analisar alguns pontos chaves que devem ser levados em consideração numa entrevista de seleção:

Trajeto residência / empresa

Pode parecer um ponto sem importância alguma, no entanto, o trajeto que o candidato percorrerá que parte de sua residência até o local da entrevista já adianta para o próprio candidato uma prévia avaliação do tempo que levou e dos custos gerados para se locomover até a empresa. Por exemplo, combustível gasto, se é preciso passar por ruas com trânsito estrangulado, engarrafamentos, etc. É uma fase importante porque se o trajeto for muito dificultoso e estressante ele poderá desistir do processo de seleção e nem perder o tempo do entrevistador.

A presença do candidato

A entrevista presencial permite ao entrevistador fazer uma leitura geral do candidato que se traduz em: postura, firmeza no aperto de mão, indumentária, empatia, desenvoltura, expressão corporal, comunicação, segurança, extroversão, introversão e tantos outros traços que jamais podem ser obtidos através de vídeo chamada.

Conteúdo, traços psicológicos

As respostas que o candidato entrega para o entrevistador numa vídeo chamada  podem dificultar na avaliação de aspectos psicológicos que envolvem o tom da voz e, sobretudo o contato visual. Esses dois importantes traços psicológicos entre outros atuam de maneira diferente numa vídeo chamada e poderão resultar numa avaliação equivocada, pois os aspectos intuitivos de uma entrevista acabam ficando difusos e se perdem na distância.

Zona de conforto, Inteligência Emocional

Esse sem dúvida alguma é o pior ponto da entrevista por vídeo chamada. O candidato estará em sua residência numa condição muito favorável, ou seja, numa zona de conforto. Nesse caso é praticamente impossível para o entrevistador avaliar um dos principais pontos numa entrevista que é a inteligência emocional do candidato. Na entrevista presencial é comum o entrevistador fazer alguma pergunta que possa gerar algum desconforto no sentido de avaliar a reação do candidato. Este estando no conforto de sua residência as suas respostas e reações serão bastante diferentes do que se estivesse na presença do entrevistador.

Analisei aqui apenas alguns pontos chaves que fazem toda diferença numa entrevista que poderá se traduzir em numa entrevista de altíssima qualidade se presencial ou num tremendo fiasco se por vídeo chamada. Há muitos outros pontos que dependendo do cargo a presença do candidato é absolutamente necessária.  É óbvio que estando o candidato em sua zona de conforto ele levará uma boa vantagem nas respostas que dará ao entrevistador, inclusive podendo até mesmo se utilizar de respostas previamente prontas geradas por inteligência artificial.

Portanto, as vantagens nas entrevistas de seleção por vídeo chamada que se traduzem em agilidade, economia de tempo, facilidades, etc., sempre acabam não alcançando o principal objetivo de uma boa entrevista que é uma contratação bem sucedida. Facilidades quase nunca combinam com eficiência, pois esta só pode ser alcançada com algum esforço, tempo de dedicação e uma boa dose de dificuldade ou seja, na ausência daquelas. Aonde as facilidades residem não há espaço para a eficiência ou vice versa.




segunda-feira, 28 de outubro de 2024

CLT: regras iguais para profissões diferentes, uma fórmula que não pode dar certo


Imagine o leitor se as regras para o futebol, voleibol, basquete, tênis, natação, ginástica olímpica e outras modalidades de esporte fossem as mesmas? Nem é possível imaginar essa aberração não é mesmo? Pois a Consolidação das Leis do Trabalho-CLT é exatamente isso, quase mil regras determinadas e obrigatórias para profissões completamente diferentes. Não pode dar certo e como diz o ditado popular, a conta nunca vai fechar.

Como já mencionei em diversos artigos que escrevi, considero o artigo 58 da CLT o mais problemático e equivocado de todos os artigos contidos nesse diploma. Isto porque, o referido artigo trata da jornada de trabalho de trabalhadores das mais diversas profissões sejam elas administrativas ou operacionais. É no mínimo irracional estabelecer uma jornada de trabalho (8 horas como diz a redação do artigo 58) para profissões absolutamente diferentes entre elas que exigem tempos diferentes na execução de tarefas.

A execução de uma tarefa é algo por definição exclusiva entre o contratante e o contratado. Somente essas duas partes envolvidas é que estão aptas para definir o tempo necessário, bem como, a urgência na entrega da tarefa, repito, seja ela prestação de serviços ou operacional que requer força braçal. Esse tempo determinado não pode ser estabelecido por quem está de fora alheio às necessidades do contratante, da expertise do profissional e do que realmente trata o serviço em questão. É algo surreal que somente pode estar presente na literatura do absurdo como nos livros do escritor Franz Kafka ou no teatro do absurdo de Eugene Ionesco.

Outros artigos problemáticos que vêm no rastro do artigo é o artigo 71 que determina o tempo de refeição de cada trabalhador. Como assim? Por que no mínimo 1 hora e no máximo 2horas? Como foi que chegaram a esse tempo de pausa para refeição? E o artigo 66 que determina 11 horas de descanso entre uma jornada de trabalho e outra? E o artigo 68 que só permite o trabalho aos domingos mediante autorização prévia da autoridade competente? Esses três artigos, 71, 66 e 68 tratam de questões pessoalíssimas que somente contratante e contratado estão aptos para ajustar e não alguém de fora completamente alheio, de novo, às necessidades daquele trabalho.

A atividade econômica de cada empresa também não foi levada em conta quando a Consolidação das Leis do Trabalho – CLT foi elaborada e isso faz toda a diferença. Profissionais da mesma profissão podem precisar de tempos diferentes na execução de tarefas dependendo da atividade de cada empresa com atividades econômicas diversas. Na verdade nem o empregado e muito menos o empregador foram consultados na época se realmente havia a necessidade de um diploma tão brutal como a CLT. Trata-se, portanto de um diploma absolutamente totalitário, de cima para baixo e fora de propósito que só interessa ao governo e aos sindicatos, estes, os braços afetivos de governos totalitários como foi a gestão totalitária do ditador Getúlio Vargas.

A Consolidação as Leis do Trabalho - CLT foi elaborada por cinco juristas que provavelmente eram leitores vorazes de Augusto Comte, Saint-Simon e Giovanni Gentile. Boa coisa não poderia sair dessa mistura indigesta. Juristas, porém escritores frustrados que do alto de seus egos escreveram uma obra literária chinfrim na qual empregados e empregadores são os protagonistas que se digladiam em cada estrofe desse longo poema de péssimo gosto e muito mal escrito composto de 922 versos, ops!, artigos seriam?


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Como está o mercado de trabalho para a profissão de marchand?



É sabido e notório que há algumas décadas a Beleza foi proibida no Brasil quase que por decreto tácito. Existe uma sensação incômoda e muito presente de que a Beleza e sofisticação estão proibidas em terras tupiniquins e que vem afetando as sete Belas Artes: Música, Dança, Pintura, Escultura, Arquitetura, Literatura e Cinema. Dentro desse cenário miserável e pantanoso no qual chafurdam as Belas Artes no Brasil (apenas no Brasil!) há que se perguntar se ainda há mercado de trabalho para a tão atrativa e tradicional profissão de marchand. E a resposta é um entusiasta SIM!, Claro que sim, sempre! Vejamos:

Mas o que faz um marchand?  Para quem ainda não sabe, a palavra marchand é francesa e significa “mercador” ou profissional agenciador que negocia obras de artes, seja quadro, escultura, fotografia, colagem, assemblage, instalações. O seu foco é mais voltado para as artes plásticas. Profissional autônomo independente, ele atua como intermediário entre o artista e o mercado de arte que abrange galeristas, colecionadores, curadores, investidores de arte, museus, salões, feiras, exposições, etc. Também existem muitas galerias de arte que contratam marchands para atuarem no marketing e divulgação dos artistas que trabalham com esses galeristas.

Não existe formação específica para atuar como marchand, no entanto a pessoa não se torna marchand assim num estalar de dedos. É preciso que o “vírus” (no bom sentido, naturalmente) da arte esteja inoculado em seu corpo desde tenra idade. O marchand é um apaixonado por arte e deve ter um profundo conhecimento da História da Arte, possuir uma acentuada percepção estética, conhecer todos os movimentos artísticos desde a arte rupestre até os dias atuais muito bem representados pela arte generativa ou art block feita por algoritmos de sistemas computacionais. Ter crescido e vivido num ambiente no qual se fomentava a arte é praticamente condição sine qua non para atuar como marchand.

Podemos afirmar que até o século XX, atuar como marchand era uma exclusividade de homens com raras exceções. No entanto, no início do século XX, a americana Peggy Guggenheim teve a coragem de virar essa chave e se transformar numa das mais importantes colecionadoras de arte e mecenas ao divulgar para o mundo uma infinidade de talentosos artistas, inclusive brasileiros. Atualmente existe uma quantidade prolífica de jovens mulheres atuando com muita competência no mercado de arte como marchands, colecionadoras de arte e galeristas. Muitas delas já conseguiram boa fama e reputação no métier artístico como por exemplo, Susi Kenna,  Nadia Samdani, Komal Shah, Luba Michailova e tantas outras.

É o marchand responsável pela elaboração do portfólio de cada artista para divulgação cujo objetivo é a impulsionar a carreira de cada um. Conhecer todas as técnicas de pintura, a qualidade dos materiais utilizados para saber avaliar a qualidade de uma obra de arte. Ele deve dominar a dinâmica do mercado´de arte primário e secundário, emitir certificado de autenticidade da obra, bem como dominar o sistema NFT (non-fungible token) de certificação digital. Para isso ele deve contar com um poderoso network de clientes e saber adequar o gosto pessoal de cada um deles à obra ou estilo do artista. As redes sociais é um auxiliar fundamental nas quais o marchand interage com galeristas e artistas do mundo todo, inclusive participando de leilões online nas diversas modalidades artísticas. 

E quanto ganha um marchand? Bem não é possível dar uma resposta taxativa para essa questão, pois vai depender do tipo de artista para o qual o marchand presta assessoria, por exemplo: se o artista já tem um nome conhecido no mercado de arte, se é um novato, estilo de pintura e alguns outros fatores. Podemos dizer que o marchand fica com 50% do valor de cada obra vendida. No entanto, o marchand independente que é não tem exclusividade com um só pintor, ele pode representar vários artistas se for o caso ou mesmo ser o sócio proprietário de uma galeria de arte.

O Brasil sem sombra de dúvidas é um celeiro riquíssimo em produzir excelentes e talentosos pintores a nível internacional. A História da Arte é a maior prova documental na qual estão registrados todos os nomes de nossos talentosos pintores, escultores e demais profissionais das artes plásticas cujas obras esplendidas e magníficas decoram as paredes de colecionadores e apreciadores de arte ao redor do mundo. Sim, na maioria dos países o gosto pelas artes começa muito cedo fazendo parte do currículo escolar desde os primeiros anos do ensino.

Isto posto, ainda que bom gosto, sofisticação e a Beleza tenham sido canceladas e até mesmo proibidas por consenso tácito aqui no Brasil, efeito nefasto de bandeiras ideológicas mofadas e tacanhas e mesmo a má vontade de estudar e falta de interesse pelas Belas Artes, esses fatos não representam impedimento para atuação de marchands no mercado de artes. A Arte como investimento segue impávida atravessando séculos e obstáculos impostos por pessoas toscas, insensíveis às Belas Artes e que impõem as suas tosquices na ordem do dia (leia-se mídia). Não só pessoas físicas investem em arte, seja pela beleza ou como investimento; empresas investem em obras de arte e assim sendo sempre haverá um marchand para atender a ambos, isto porque o trabalho do marchand tal como a obra de arte, Libertária em sua essência, não se limita a territórios, ambos atravessam fronteiras.


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Chef habilidosa improvisa pernil de cordeiro ao molho de laranja, sem laranja!


E aqui está novamente o tema “improvisação” na ordem do dia. Como eu sempre escrevo aqui, a improvisação faz parte de muitas atividades profissionais. Hoje ela vem da gastronomia através de uma jovem criativa e competente chef de um bistrô. Esse episódio ocorreu num bistrô de uma famosa e pequena cidade turística no interior de um estado no sul do Brasil. Omitirei os respectivos nomes da cidade, do estado, do bistrô e da jovem chef por motivos óbvios. A chef é graduada em gastronomia e participou de uma das edições do reality Hell Kitchen-Cozinha sob Pressão, programa de culinária exibido em uma emissora de TV no qual ela foi muito bem ganhando algumas provas mas não chegou na final.

Bem, segundo a chef me contou, era uma noite chuvosa de final de inverno e não havia muito movimento na cidade. Passava da meia noite e ela já estava se preparando para fechar o restaurante quando um carro adentra no estacionamento do estabelecimento. Era um casal de meia idade e uma adolescente. Perguntaram se ainda havia refeição e a chef confirmou. No cardápio daquela noite uma das opções era pernil de cordeiro ao molho de laranja, opção essa que foi escolhida pelos clientes. Pedido feito, mãos à obra.

Na cozinha os preparos para o prato começam. Tudo corria muito bem. Só que não! Na hora da cozinheira preparar o molho de laranja, cadê a laranja? Ninguém se deu conta  que a laranja havia acabado. Era quase uma hora da manhã, cidade do interior, tudo fechado, não havia aonde comprar laranja naquele horário. A chef então passou uma mensagem para sua casa (cidade pequena é tudo perto), ela iria bem rápido de carro buscar as benditas laranjas. E de novo, só que não! A sua mãe lhe respondeu que não havia laranjas em casa. Então a chef pensou em oferecer uma segunda opção aos clientes. Mas antes ela deu uma última olhada no freezer e o que ela viu? Ela viu latinhas de refrigerante de laranja! Isso mesmo, refrigerante de laranja e com gás!

Bem, então ela tomou as rédeas, pegou as latinhas e colocou em prática toda a experiência que adquiriu no ramo da gastronomia. Primeiro ela providenciou um processo para neutralizar todo gás do refrigerante. Aqueceu, emulsionou, colocou um tempero aqui, outro ali, umas ervas, encorpou o molho com araruta, fez aquela alquimia de sabores que só ela sabia e voilà, nasceu um molho de laranja sem as laranjas! Naturalmente que todo pessoal da cozinha provou antes de servir sobre o pernil de cordeiro.

Pratos servidos, clientes satisfeitos, não notaram nada de errado. Segundo a chef, apreciaram , elogiaram e deixaram uma boa gorjeta para ser dividida com a garçonete e a cozinheira. Ela ainda me disse que improvisar na cozinha é algo bem comum no dia a dia. Ela já tinha feito antes experiências com caldos feitos a base de refrigerante e segura de sua habilidade, sabia que iria dar certo.

Após ela me contar esse episódio, eu ainda tinha uma dúvida e perguntei a ela: "e se não tivesse latinhas de refrigerante de laranja no freezer?” Ela não pensou muito e me deu uma resposta inacreditável: “eu teria feito o molho com suco em pó, aquele do envelopinho e ia ficar tão bom quanto”!! Provado está então que um tempero indispensável na rotina de chefs de grande talento e habilidade não é uma latinha de refrigerante, mas uma boa dose de improvisação!

segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Lições que aprendemos com personagens do cinema




Em artigo recente escrevi sobre a importância da literatura na formação pessoal e profissional dos indivíduos. Neste artigo indicarei cinco filmes cujos personagens protagonistas de cada um deles nos entregam lições de vida inestimáveis, sobretudo porque suas ações e atitudes estão diretamente conectadas no ambiente de trabalho no qual atuam. São lições de habilidade, sagacidade, lealdade, serenidade, liderança, resiliência, assertividade, inteligência emocional, autocontrole e, sobretudo de ética profissional.  Vamos a eles:

1 - 16 Quadras – (2006)

"Eu só quis fazer uma coisa boa" (Jack Mosley)

Temas: Mensagem a Garcia (missão dada, missão cumprida), lealdade, redenção, personagem estoico.

O policial Jack Mosley (Bruce Willis em brilhante atuação) em seu dia de folga (ele é alcóolatra e está levemente embriagado) recebe de seu superior uma ordem para transportar o preso Eddie Bunker (Mos Def) até o fórum aonde ele vai depor contra policias corruptos. Da delegacia até o fórum o trajeto é de apenas 16 quadras nas quais a dupla será emboscada pelos policiais corruptos que serão delatados por Eddie. Numa certa altura Jack Mosley descobre que ele está na lista dos policias que serão delatados, ainda assim ele segue em frente muito calmo e inabalável e vai até o fim porque a liberdade do preso dependerá do depoimento contra os policiais.

2 – Jogo de Espiões – (2001)

"Operação Jantar Fora" (Tom Bishop)

Temas: lealdade, amizade, sagacidade, suportar pressão

Em seu último dia de trabalho na CIA, o agente Nathan Muir (Performance monstruosa de Robert Redford) um pouco antes de passar pela roleta de saída descobre que seu antigo protegido, um mercenário avulso, Tom Bishop (Brad Pitt) foi capturado pelos chineses e será executado no dia seguinte. A CIA lavou as mãos porque não reconhecia Bishop como membro (ele foi recrutado como Free Lancer por Muir sem o conhecimento da CIA). Muir desiste da aposentadoria e retorna ao seu gabinete e elabora um plano absolutamente insano para resgatar Tom Bishop sem a CIA saber. Detalhe: há mais de 10 anos que Muir e Bishop romperam a amizade e nunca mais se viram.

3 – Incontrolável – (2010)

"não precisa me demitir, eu já estou cumprindo aviso prévio e hoje é o meu último dia de trabalho" (Frank Barnes)

Temas: lições de perícia, tomada de decisão, amor à profissão, comunicação eficaz entre veterano e novato.

A história é baseada em um fato verídico que ocorreu no dia 15 de Maio de 2001 nos Estados Unidos em Ohio e ficou conhecido como “O Incidente do CSX 8888”, prefixo do trem desgovernado. O veterano maquinista Frank Barnes (magistral performance de Denzel Washington) e seu ajudante Will Colson (Chris Pine) estavam conduzindo tranquilamente uma composição de trem quando são avisados pelo rádio que um comboio desgovernado estava vindo de encontro a eles. O experiente maquinista Frank decide então que vai parar o comboio de qualquer maneira. Para isso ele terá que quebrar muitos protocolos de segurança. O proprietário da empresa rechaça a decisão de Frank e o demite pelo rádio. Frank desobedece e segue determinado com o seu plano. Os maquinistas reais foram condecorados pelo presidente da república e foram os consultores na gravação do filme. Até hoje trabalham para a mesma companhia.

4 - Um dia e Meio -(2023) 

"Você pediu alguém, e eu vim" (Lukas)

Temas: inteligência emocional, liderança, sagacidade, personagem absurdamente estoico

História também baseada em fatos verídicos. Um homem armado, Artan (Alex Manvelov) que acaba de sair da cadeia invade a clínica aonde sua ex-esposa Louise (Alma Pöysti) trabalha e a obriga a leva-lo até o local onde está a sua filha, no caso, na casa dos pais de Louise. A polícia é acionada e para atender a ocorrência é designado (não por acaso!) um policial, Lukas (Fares Fares) para leva-los na viatura até o local aonde se encontra a criança. Da clínica até o local de fuga exigido por Artan leva o tempo de um dia e meio. A postura do policial Lukas é absurdamente serena, inabalável, de poucas palavras e tão estoica que chega a causar incômodo para quem está assistindo. Lukas nos entrega uma aula impressionante de ardil, autocontrole e liderança.

5 – Conduta de Risco (Michael Clayton)

"Eu não sou o cara que você mata, sou o cara que você compra" (Michael Clayton)

Temas: Ética Profissional, Expertise  Profissional, Sagacidade

Michael Clayton (George Clooney em sua mais brilhante atuação) é um inteligente e habilidoso advogado que presta serviços há muitos anos para um famoso escritório de advogados associados. O escritório defende uma grande indústria química, U-North que produz um herbicida suspeito de causar câncer nas pessoas que o utilizam. O advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson também em atuação magistral) que trabalha no escritório e amigo de Clayton tem acesso a um documento da U-North assinado pelo presidente da empresa no qual reconhece que o herbicida produzido realmente tem agentes em sua composição que causa doenças. De posse do documento, Arthur ameaça mudar de lado. A CEO da U-North, Karen Crowder (Tildal Swinton que levou um Oscar pela brilhante atuação), contrata mercenários para assassinar Arthur. Após a morte de Arthur, Michael Clayton entra no caso e com toda a sua experiência e habilidade nos entrega uma lição pertubadora de Ética Profissional.

Todos os filmes têm resenha neste blog e são fáceis de encontrar para assisti-los


segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Quando o time vai mal o treinador é o principal responsável sim!




Um dos mais inteligentes e espetaculares realities shows apresentados no Brasil, sem dúvida alguma foi “O Aprendiz”, exibido em dez temporadas de 2004 a 2014. O programa focado no empreendedorismo emula o ambiente corporativo com todos os seus departamentos que incluem Marketing, Recursos Humanos, Contabilidade, Finanças, Administração, Comunicação, etc. Foram oito edições apresentadas e conduzidas por Roberto Justus e duas por João Dória Jr. Mas o que o Aprendiz tem a ver com o título desse artigo? Tudo, tudo a ver! Vejamos:

No primeiro episódio os membros participantes se dividiam em duas equipes rivais que se enfrentavam até o último episódio em que restavam três participantes e um se sagraria o campeão do programa. Em cada episódio as duas equipes recebiam de Roberto Justus uma tarefa em comum a ser cumprida. Cada equipe elegia um líder na condução das provas que elaborava estratégias e delegava funções para cada participante. A equipe vencedora ganhava prêmios, a perdedora comparecia à sala de reunião na qual Roberto Justus e dois conselheiros decidiam quem teve a pior performance para ser o “demitido”. A frase “você está demitido” ficou famosa. 

Pois muito bem, na maioria das demissões ou eliminações normalmente o participante da equipe perdedora que era penalizado com a demissão era quem? Sim, o Líder! De novo, o líder que não soube conduzir com competência os seus liderados. E os motivos são os mais variados possíveis. Vejamos:

Estratégia mal elaborada, delegar funções equivocadas para pessoas erradas, não saber extrair dos liderados o máximo que eles podiam entregar, não corrigir equívocos de estratégia ao perceber durante a prova que as tarefas não estavam indo bem, deixar de ouvir boas ideias dos liderados só porque ele era o líder e não admitia ser questionado, insistir numa ideia que não está dando certo, deixar de tomar decisões que poderiam fazer toda diferença para obter vitória, falar mais do que agir, deixar os liderados perdidos quando algo dá errado e por aí vai. Numa palavra: faltou liderança!

É importante esclarecer que todos os participantes eram muito bem formados e experts em suas profissões, seja no setor financeiro, contábil, administrativo, marketing, comunicação, etc. A maioria exercia cargo de chefia e alguns eram executivos nas empresas onde trabalhavam. Foram selecionados para o Aprendiz justamente porque eram profissionais acima da média em suas profissões. Entretanto, o programa ensinou uma prestimosa lição de que nem todos ali reuniam habilidades para liderar, muitos tinham profundas dificuldades nas tomadas equivocadas de decisões. Naturalmente isso não anula de maneira alguma a alta qualidade profissional de cada um deles. Alguns tropeçavam miseravelmente quando era para liderar equipe de pessoas altamente qualificadas.

Não poderia ser diferente num time de futebol que conta com jogadores da mais alta qualidade profissional. O treinador ou técnico será sempre o líder para conduzir a sua equipe com todas as atribuições que dizem respeito ao seu cargo. Há quem diga que quando o time não vai bem não adianta culpar o treinador, pois os jogadores também têm responsabilidade pela derrota ou vitória. Ora, se algo está errado com os jogadores cabe somente ao técnico tomar alguma iniciativa para consertar o erro entre a equipe conforme citei nos parágrafos acima. Ele tem que chamar a responsabilidade para si próprio como fez o técnico Luiz Felipe Scolari no fatídico 7 a 1. Após a derrota ele se postou na beira do campo recebendo todos os jogadores dizendo em alto e bom som para cada um que passava: “a culpa é minha”. Um gesto no mínimo digno de um líder nato.

A função de líder é muito complexa e intrigante. Um líder pode conduzir uma equipe de 15 pessoas numa empresa e se sair muito bem, por outro lado esse mesmo líder em outra empresa comandando uma equipe menor de 4 ou 5 pessoas pode se revelar um fiasco. Cada pessoa tem a sua individualidade própria, portanto cabe ao líder estudar profundamente a personalidade de cada liderado para tomar as decisões corretas. Um tipo de estratégia pode funcionar muito bem numa equipe e resultar num falhanço em outra. Isso significa que  táticas, estratégias e o potencial de cada liderado devem ser repensadas na condução de toda equipe.

Isto posto, cada derrota de uma equipe não implica necessariamente em ter que demitir o líder, entretanto ele é o principal protagonista do show, é o maestro que conduz a orquestra. Nos acertos e nas vitórias ele receberá todos as honras, méritos, medalhas e troféus que lhe cabem. Quando ocorrer falhas ele deve ser o primeiro a se fazer presente e assumir a postura de líder. A sua permanência vai depender das suas tomadas de ações seguintes. Estar na marca do pênalti é uma situação sempre presente na rotina de um líder, chamar a responsabilidade para si próprio é uma característica irrevogável de um líder, bem como ter a coragem de um líder nato em falar em alto e bom som aos seus liderados, "a culpa é minha".





segunda-feira, 16 de setembro de 2024

A leitura dos clássicos ensina, treina e forma líderes profissionais



A literatura é sabidamente uma das fontes riquíssimas de aprendizado e que tem o poder de formar o ser humano para a vida em toda sua totalidade, sobretudo na área profissional. E isso acontece de uma maneira bem simples ao interagirmos naturalmente com os personagens de cada história que lemos, seja um romance, um conto, um poema ou mesmo uma peça de teatro.

Quando lemos uma história, percebendo ou não, os personagens conversam conosco, alguns, por exemplo, revelam determinação, ousadia, nobreza de caráter, lealdade; outros revelam suas fraquezas e perversidades que o ser humano carrega dentro si. E são justamente tais características que podem nortear nossa conduta de vida para sempre, pois são lições que ensinam o que podemos tirar delas, como devemos agir ou deixar de agir nos momentos de adversidades. Um personagem tem o poder de mudar a nossa percepção de mundo ou o que está ao nosso entorno naquele momento.

Há uma famosa questão que diz “a arte imita a vida ou a vida imita a arte?” Oscar Wilde em seu ensaio “A decadência da mentira” optou pela segunda alternativa enquanto o filósofo grego Aristóteles em outra perspectiva optou pela primeira. O escritor quando escreve um conto ou um romance normalmente ele já construiu seus personagens baseados nas características de pessoas reais que ele interage no dia a dia. Imaginativo que é o escritor, naturalmente que ele vai adicionar uma boa dose de ficção para enriquecer o personagem, porém ele vai manter a característica principal do personagem que lhe dá a singularidade única e própria que cada pessoa trás em si, podendo ser a serenidade, lealdade, ambição, apatia, bondade, maldade, etc.

Sempre fui fascinado por determinadas características de personagens que anos depois quando estudei Filosofia descobri que tais características se tratavam de traços estoicos. São características essenciais para profissionais que atuam no setor das relações de trabalho ou recursos humanos e muitas outras profissão que lidam diretamente com pessoas o tempo todo. Alguns desses personagens me ajudaram e muito na percepção e compreensão na minha área de atuação.

Como exemplo posso citar alguns desses personagens que me inspiraram: “O Capitão” do conto “The Secret Sharer” (O Cúmplice Secreto), de Joseph Conrad; Fernando Vidal Olmos, do livro “Sobre Heróis de Tumbas, de Ernesto Sábato; Júlio César, de William Shakespeare; Conrad Hensley, do livro “Um Homem por Inteiro”, de  Tom Wolfe; o detetive Philip Marlowe do romance policial “O Sono Eterno”, de Raymond Chandler (tem resenha desse livro neste blog); Ulisses, do poema épico Ilíada atribuído a Homero e muitos outros. Nem sempre o personagem que nos dará inspiração é o protagonista da história, às vezes poderá ser um personagem secundário inserido na trama estrategicamente pelo autor.

Seja de qualquer gênero literário, clássico, moderno ou de vanguarda, mas principalmente, importante destacar aqui, a leitura dos clássicos como os livros mais importantes na transmissão de cultura, valores e conhecimento. Dessas leituras aprenderemos lições fundamentais de liderança, trabalho em equipe, resiliência, assertividade, propósito de vida, conduta ética, etc. São valores que serão incorporados em nossa personalidade sendo que alguns deles se tornarão inegociáveis em quaisquer circunstâncias. 

Por fim são valores que jamais os encontraremos nos livros de autoajuda simplesmente porque estes não formam, podem funcionar para alguns mas não funcionam para todos enquanto os clássicos atravessam séculos impávidos e incólumes. Seus personagens habitam suas páginas aguardando serem lidos para transmitir importantes lições de vida e para  a vida. Quem sabe, o detetive Philip Marlowe na sua irretocável conduta ética poderá mudar a sua percepção da realidade. Ele, entre outros personagens esperam por você!



segunda-feira, 9 de setembro de 2024

Precisamos de uma nova reforma trabalhista. E dessa vez que seja alopática!




Há sete anos atrás, exatamente no dia 13 de julho de 2017 o Brasil foi presenteado com a Lei nº 13.467/2017, mais conhecida como Lei da Reforma Trabalhista. Uma lufada de ar fresco arejou as relações do trabalho, empregado e empregadores ganharam renovado fôlego após 74 anos de cabresto getulista celetista. Mérito incontestável do controverso, porém corajoso presidente Michel Temer. No entanto, ficou salivando um gostinho de quero mais.

Na condição de profissional das relações do trabalho, na minha opinião, a reforma trabalhista foi aquele tapinha de amor que não dói, aquela dose que não enche o copo o suficiente, aquela fatia de bolo que poderia ser um pouco maior do que a que foi servida, aquele beijo selinho bem rápido que poderia ser mais longo, aquele aumento salarial que nem arranhou a conta bancária, enfim, uma reforma trabalhista leve, suave, marotamente homeopática.

Já escrevi em diversos artigos sobre os pontos positivos e negativos da Lei nº 13.467, obviamente que apesar de sua efetividade ela assinalou também alguns equívocos, todos eles já analisados por mim em outros artigos. No final, passando a régua o saldo foi azul, porém ainda conservando algumas manchas vermelhas aqui e ali talhadas ainda pelo ranço positivista.

Uma nova reforma trabalhista poderia atacar e ferir de morte os cinco mais violentos artigos da Consolidação das Leis do Trabalho-CLT, a saber: o artigo 9 (que impede a livre negociação entre empregado/empregador), o artigo 29 (que obriga o registro na Carteira Profissional e o recolhimento previdenciário) e os artigos  58, 58-A e 59 (que tratam de trazer o empregado em rédeas curtas (cabresto!) à obediência a uma jornada de trabalho estapafúrdia). 

Vamos lá, resumidamente o artigo 9 trata o trabalhador como um mentecapto e incapaz de decidir por si próprio; o 29 obriga o trabalhador a contribuir para o sistema falido da previdência social (e não, quem está entrando agora para o mercado de trabalho jamais vai se aposentar pela previdência social que está falida e com os dias contados, além de que em breve o Brasil será um país predominantemente de anciões) e por fim os artigos 58, 58-A e 59 que tratam da jornada de trabalho, provavelmente os artigos mais ordinários que somente uma mente insana e demente poderia criar.

Seria muito bom também reformar o viés sinistro do artigo 507-A (aquele que permite não permitindo) que apesar de liberar a arbitragem extra judicial entre empregado/empregador ao mesmo tempo impõe óbices impossíveis de se cumprir para que a arbitragem seja uma saudável alternativa entre as partes. E não só a arbitragem, a mediação também seria muito bem vinda como já ocorre na maioria dos países civilizados nos quais a intervenção estatal nas relações de trabalho é absolutamente inexistente. Bom lembrar que até a Organização Internacional do Trabalho - OIT (até a OIT!!) sugere a arbitragem ou mediação em suas diversas recomendações e resoluções, nenhuma delas ratificada pelo Brasil, naturalmente.

Outrossim, ainda temos uma alternativa que poderá alterar ou não os violentos e sádicos artigos citados acima. Bastaria um único artigo revogando o artigo 1º ou acrescentando um parágrafo a ele nos seguintes termos: “Esta Consolidação é de caráter facultativo cabendo ao prestador de serviços optar pela melhor forma de contrato de trabalho que lhe  aprouver tendo a plena liberdade de aderir ao vínculo empregatício ou não”. Pronto, simples assim.

Quando um problema é drástico a solução exige medida tão drástica quanto. As Relações de Trabalho no Brasil entre empregado/empregador não vão bem de saúde cuja virose letal atende pelo nome de intervenção estatal. Que venha então uma nova reforma trabalhista nos termos do que foi proposto neste artigo e que dessa vez seja a mais alopática possível na forma de inoculação de uma vacina imunizante contra o intervencionismo estatal. Cabresto celetista nunca mais.

domingo, 1 de setembro de 2024

Copo da felicidade é motivo de chacota na alta gastronomia: a pior sobremesa do mundo!




Há algum tempo atrás, para ser mais preciso em novembro de 2023 escrevi um artigo sobre a picaretagem que se transformou os canais de gastronomia nas redes sociais. Infelizmente pessoas sem a mínima noção do significado das nobres profissões de confeiteiro ou cozinheiro passam receitas que resultam num total desrespeito para com seus seguidores ou quem visita seus canais. E a bola da vez, o tema deste artigo é a famigerada "sobremesa" impalatável batizada de “copo da felicidade”, uma criação 100% brazuca, ora como não?. Obviamente criado por alguma aventureira infeliz que nem interessa saber quem foi.

É preciso dizer aqui que ninguém acorda num belo dia ungida de conhecimentos de confeitaria ou pastelaria e a partir daquele dia decide ser confeiteira e abrir um canal em alguma plataforma da internet para passar o que ela entende ser receitas de sobremesas. Como qualquer outra profissão, trabalhar com confeitaria (ainda que de forma amadora) exige estudar pelo menos o básico da confeitaria. Além disso, exige também talento, paladar apurado, vocação, saber combinar ingredientes, criatividade e conduta ética, respeito e honestidade para com seus seguidores ou mesmo clientes.

Essas etapas estão sendo saltadas, pois para essas pretensas confeiteiras o que importa mesmo é a busca desesperada por likes e os comentários babação de ovo e rasgação de seda de suas amigas e comadres fazendo dos likes os principais ingredientes de suas  receitas.

Na verdade o tal “copo da felicidade” é um plágio da mais autêntica pilantragem e sem qualquer técnica profissional copiado descaradamente de um confeiteiro francês, considerado um gênio da confeitaria mundial, o premiadíssimo chef Philippe Conticine. No ano de 1994, o chef Philippe criou uma sobremesa composta por três tipos de cremes (apenas três!) diferentes para serem servidos em um pequeno copo de vidro (de vidro e não de plástico!!) que batizou de “Verrine”. Verrine vem de “verre”, que em francês significa vidro (no caso uma sobremesa servida em copo de vidro). Acontece que o método da construção da receita foi muito bem pensada no processo de elaboração levando em conta cada camada a ser degustada da seguinte forma:

A primeira camada fina e suave prepara o paladar para receber a segunda camada que é composta pelo sabor principal e mais encorpado da sobremesa finalizando com uma terceira camada formada por um creme gelado, leve e sedoso para refrescar o paladar. A combinação das três camadas dos cremes foram meticulosamente pensadas e testadas diversas vezes até que se conseguisse um resultado satisfatório e servido com muita sofisticação.

Como podemos ver, o Verrine, sobremesa sofisticada criada pelo chef Philippe não foi uma iguaria que surgiu assim num estalar de dedos, teve método na sua elaboração, foi testada diversas vezes. Não podemos dizer o mesmo de quem criou o tal “copo da felicidade”. Quem o criou foi jogando aleatoriamente dentro de um copo plástico mequetrefe o que via pela frente: leite condensado, creme de leite (argh!), suspiros, frutas, ganache, na verdade um "mexidão" de ingredientes doces e depois levou para gelar e pronto, é só devorar e passar mal, muito mal.

Uma autêntica confeiteira que preza o seu trabalho sabe que não é dessa forma que se cria uma sobremesa. Juntar produtos misturando frutas, cremes e biscoitos esfarelados sem critério algum não vai resultar em boa coisa, como dizem por aí, só pode dar ruim. Como já escrevi em outro artigo, os empregadores proprietários de confeitarias de alto nível sempre estão atentos nas redes sociais a procura de uma profissional do ramo que possua sólidos conhecimentos e expertise nessa profissão. Bom lembrar que o salário médio inicial de uma chefe de confeitaria gira em torno de R$ 3.300,00 reais o que não é nada mal.

Por fim, há quem aprecie (afinal o brasileiro afegão médio não tem  paladar para sobremesas sofisticadas) esse tal “copo da felicidade” que é composto de qualquer mistura louca de guloseimas ao gosto de quem o compõe. Uma sobremesa com a legítima assinatura da malandragem brazuca. Os ingredientes que o compõem isolados podem ser saborosos, porém arranja-los e mistura-los todos crus sem qualquer critério resulta numa aberração que pode ser chamada, isso sim, de "copo da infelicidade", uma verdadeira bomba de glicose no talo que facilmente tem tudo para ser eleita a pior sobremesa do mundo.

Aprovação de empréstimo consignado/CLT está muito abaixo do esperado

Já era de se esperar, toda vez que o governo aprova programas estapafúrdios que visam beneficiar trabalhadores sabemos muito bem que na prát...